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Coluna Bruno Ribeiro: Ainda sobre o Oscar…

Confira a coluna de estreia de Bruno Ribeiro, que agora, todos os meses, falará sobre cinema aqui no Comunica Araraquara

Passado mais de um mês do principal evento do cinema mundial, – não, não estou falando do Festival de Cannes ou então do Berlinale – resolvi inaugurar essa coluna sobre Cinema com algumas impressões pessoais sobre a 91ª Cerimônia de Entrega dos Prêmios Oscar, a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

A principal questão, para mim, é que nessa época de começo de ano, em que temos a “primavera das premiações da sétima-arte”, sou acometido por um sentimento gostoso, uma curiosidade por assistir aos filmes indicados para saber o porquê de terem sido selecionados em detrimento de tantas outras boas produções. Tenho um reencontro comigo que me faz pensar: “Por que eu não faço isso mais vezes? Por que fico tanto tempo sem parar para ver bons filmes?”

Impossível também não me lembrar dos bons tempos de debates homéricos, durante esses períodos, com o pessoal da Sessão Zoom sobre se, por exemplo, “O Regresso”, é melhor ou pior que “O quarto de Jack” em se tratando de inovação da linguagem cinematográfica, ou mesmo em termos de narrativa, ou ainda simplesmente de envolvimento emocional do espectador com a história contada. Afinal, o cinema é antes de tudo, a arte de contar histórias.

Infelizmente é justamente nesse quesito inovação que os filmes indicados ao prêmio Oscar têm padecido nos últimos anos. Ora vejam só, a matéria-prima de toda arte, a inspiração e a criatividade, são precisamente os ingredientes que têm faltando às receitas das grandes produções. Busca-se fórmulas prontas: ou as recheadas de ativismo político, ou aquelas reproduções biográficas de grandes ícones que alçaram lugares cativos na história mundial. Cada qual em seu respectivo lugar. Sejam músicos, cientistas e claro, políticos. Longe de aqui defendermos a arte pela arte. Pelo contrário, a verdadeira arte realista é aquela que cumpre seu papel de transformação social e política. E a esse fardo, o Cinema não deve escapar. Nas palavras de Glauber Rocha, o cinema deve sim “mostrar o homem ao homem”. Descortinar a ideologia dominante por meio da fruição estética numa experiência catártica que somente aquela escura sala atravessada por um único feixe de luz projetivo é bem capaz de propiciar.

Ou seja, é claro que cada vez mais as minorias devem ocupar seu espaço de direito nas produções cinematográficas contando suas histórias e com seu trabalho por detrás das câmeras ou olhando para elas reconhecido. Contudo, que o apelo de outras Primaveras, aquelas de maio de 1968 por exemplo, não sejam em vão. “Imaginação ao poder!” diziam as joviais e rebeldes bocas daqueles tempos. Imaginação, criatividade… só a verdadeira arte nos redime da barbárie e nisso de querer ser o que a gente, realmente, é – “mostrar o homem ao homem” – ainda irá nos levar além. Sábio Leminski.

Enfim, no dia da premiação fiz cá minhas apostas das quais até cheguei a acertar a maioria. Mais pela obviedade que se tornou a premiação e menos pela garantia sem sombra de dúvidas das respectivas obras que sairiam vencedoras. Por exemplo: para mim estava claro que a Academia ainda não estava preparada para premiar na categoria principal da noite, uma produção da Netflix (devido a todo o debate recente que o serviço de streaming tem levantado na indústria cinematográfica). Então por isso apostei que o filme “Roma” levava somente “Melhor Filme Estrangeiro”, meio como um prêmio de consolação, além de “Melhor Diretor”, por, claro, trazer nas entrelinhas de seu roteiro, a questão da imigração, debate este hoje, caro à sociedade norte-americana sob a égide do governo Trump e seu muro separatista EUA x México. Dito e feito e justiça também. Alfonso Cuarón, o diretor de “Roma” ousou criar uma obra toda filmada em plano sequência e com uma fotografia deslumbrante e por isso mereceu o Oscar de Direção. O mesmo fizera Iñarritú com os filmes “Birdman” e “O Regresso” respectivamente, que igualmente, lhe renderam o referido prêmio na mesma categoria.

A categoria “Melhor Ator” foi talvez a escolha mais difícil a meu ver nessa edição. Nas demais premiações como o Globo de Ouro, Bafta, Sag Awards, dentre outros, Rami Malek (o Freddie Mercury de “Bohemian Rhapsody”) e Christian Bale (o ex vice-presidente norte-americano Dick Cheney de “Vice”) dividiram o topo do podium com, até a noite do Oscar, a balança pesando mais favoravelmente ao primeiro. Entretanto, outros que também estavam na disputa como Viggo Mortesen por seu papel em “Green Book – o guia” e Willem Dafoe por “Van Gogh – no portal da eternidade”, também representando papéis biográficos, estavam igualmente impecáveis. Cheguei a apostar em Bale pelo histórico da Academia de premiar quem interprete líderes políticos (mesmo os intragáveis como o próprio Cheney, e Margaret Thatcher por exemplo), porém, fui surpreendido. Bom saber que o mundo ainda se rende a Freddie Mercury e o Queen!

Um parênteses: as melhores, ilustres, porém, desapercebidas presenças nessa cerimônia foram com certeza as trilhas sonoras dos filmes indicados à categoria principal! As músicas que recheiam as narrativas de “Green Book – o guia”, “Guerra Fria”, “Nasce uma estrela”, “Bohemian Rhapsody” e “Se a Rua Beale Falasse” são um verdadeiro deleite aos ouvidos. Da música clássica ao pop rock, passando pelo soft jazz, o folk e o R&B, tem para todos os gostos dos que tem ouvidos para ouvir.

Também não é só de temáticas como a da imigração e do empoderamento feminino que têm vivido as cerimônias dos prêmios Oscar, mas a questão racial com certeza tem transpassado a indústria cultural norte-americana como um todo. No ano em que posteriormente vimos o clipe da música “This is America” de Childish Gambino arrebatar todos os prêmios Grammys nas categorias principais, filmes como “Inflitrado na Klan”, “Green Book – o guia”, “Pantera Negra” e “Se a Rua Beale Falasse” com certeza estariam na pauta do dia.

Tenho pra mim que para a obra (fantástica!) de Spike Lee vencer, teria sido tal como uma forte e bem servida dose de uma bebida igualmente robusta em seu sabor que a Academia seria obrigado a virar num só gole naquela noite. Sem falar na grandeza do conjunto da obra que Lee trazia consigo e que ele tinha que dividir espaço com sua mirrada figura na indigesta cadeira do Dolby Theatre. Desse modo, venceu aquele que apresentava temática similar, porém em suaves doses, “Green Book – o guia”. Um filme que inclusive eu gostei bastante e que, como ressaltei, Viggo Mortensen para mim está ótimo no papel. Porém, no tocante a crítica à questão racial envolvida, ele não era, nem “tão entretenimento” quanto “Pantera Negra” – mesmo este tendo o mérito de ser uma grande produção hollywoodiana em que se tem um elenco inteiro composto de atores e atrizes negros(as), o que, pelo fato em si, já impõe uma crítica direta à indústria e, concomitantemente, à Academia – e nem “tão denso” quanto “Infiltrado na Klan” ou “Se a Rua Beale Falasse” pelos dedos que ambos colocam numa ferida aberta, exposta e ainda muito atual, presente na sociedade norte-americana.

Logo, o grande vencedor da famigerada noite, “Green Book – o guia” é sim, antes de tudo, um filme de uma história séria, uma biografia de uma bonita amizade (como foi dito pelos comentaristas do Canal TNT, “é um bom filme de Natal”) que com certeza tem sua crítica histórico-social presente na narrativa, mas, a meu ver, ainda mais branda que a de seus concorrentes.
Em tempo, Mahershala Ali pra mim é o novo Halle Berry do momento atual que vive a Academia. Indiscutivelmente um bom ator, e está sempre em filmes que possuem a questão do racismo, porém inserida de forma mais periférica e não aparente, mas aí chegar a ter em sua estante 2 estatuetas douradas sendo, nesse quesito, comparável à um Denzel Washington por exemplo… já é um pouco demais. Discussão essa que nos levaria a pensar sobre também o Oscar andar premiando mais trabalhos pontuais de atores/atrizes que inclusive posteriormente costumam tomar chá de sumiço e menos àqueles que, pelo conjunto da obra, e depois de tanto baterem na trave são enfim agraciados com a láurea. Casos como de Leonardo DiCaprio e Martin Scorsese por exemplo.

Talvez ainda escreva, como forma de autorreflexão mesmo, sobre as injustiças (políticas, claro) do Oscar. Sobre o porquê de um Casey Affleck possuir uma tão desejada estatueta dessas em seu currículo e uma Glenn Close não. Ou sobre o porquê de Orson Welles não a vencer com seu “Cidadão Kane”, filme este que figura sempre em 1º lugar na lista das maiores produções cinematográficas já feitas mundialmente. Ou então o porquê de Marlon Brando tê-la recusado mesmo agraciado por seu inesquecível Don Vito Corleone de “O Poderoso Chefão” (o filme nº 2 das tais listas da cinematografia mundial).

Histórias… o Cinema é feito e recheado delas. Contemos.

Bruno Ribeiro tem 32 anos, é professor do curso de Psicologia da UFTM e pós-doutorando em Saúde Coletiva pela UNIFESP. Ainda na graduação fundou o projeto “Cine CAPSIA – o cinema como forma de produção de conhecimento em Psicologia” e durante o mestrado integrou os projetos de extensão “Tela Crítica/CineTrabalho”. Atualmente é membro da Sessão Zoom de Araraquara-SP. É autor do livro “Trabalho e Gestão através do Cinema” e co-autor na obra coletiva do Conselho Nacional de Cineclubes, “Cineclube, Cinema e Educação”.

Twitter: @brunocribeiro