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Coluna Bruno Ribeiro: E agora sobre Cannes!

Em sua nova coluna, Bruno Ribeiro volta no tempo,contando a história do Festival de Cannes, comenta suas impressões quando participou do evento e suas apostas para este ano

festival de cannes

Foto: Reprodução/NIT

De 14 a 25 de maio de 2019 os holofotes da cinematografia mundial voltam-se para a pequena cidade de Cannes (leia-se Cãne) situada na glamurosa Côte-d’Azur, região litorânea do sul da França.

Às vésperas de sua 72ª edição, o Festival Internacional de Cinema de Cannes continua sendo um dos eventos mais midiáticos do mundo e o festival de cinema mais importante em termos de projeção internacional. E se você nunca ouviu falar desse Festival, passou da hora de conhecê-lo.

Idealizado para ocorrer pela primeira vez em 1939 pelo ministro da educação nacional e das belas artes, Jean Zay, e tendo como presidente do Festival ninguém menos que Louis Lumière – inventor do cinematógrafo junto com seu irmão Auguste – devido à eclosão da II Guerra Mundial no mesmo ano, o Festival de Cannes (a princípio intitulado Festival Internacional Du Film) foi adiado para 1946, ano em que Zay não estaria presente para contar a história da sua concepção.

Numa época em que o ditador fascista italiano Benito Mussolini havia apadrinhado o Festival de Veneza, e o Ministro da Propaganda alemão Joseph Goebbels incentivava a produção cinematográfica enquanto publicidade de superioridade da raça ariana, a paixão de Zay pelo cinema o fez, sem querer (?), criar um Festival de reconhecida resistência.

Thierry Frémaux é o atual curador do Festival

Passados os anos, o Festival de Cannes permanece fiel à sua vocação fundadora de revelar e mostrar o valor de obras de qualidade atendendo à evolução do cinema ao promover o desenvolvimento da indústria cinematográfica no mundo celebrando a sétima arte internacional. Nas palavras do atual curador do Festival Thierry Frémaux: “O Festival de Cinema de Cannes sempre foi um reflexo de seu tempo”.

E realmente sempre foi mesmo. Nos anos de 1948 e 1950 devido aos problemas financeiros que toda a Europa passava por sua reconstrução do pós-guerra, o Festival não pode ser realizado. Em 19 de maio do ano de 1968, o Festival foi interrompido pelos cineastas Louis Malle (que fazia parte do júri da edição daquele ano), François Truffaut, Claude Berri, Jean-Gabriel Albicocco, Claude Lelouch, Roman Polanski e Jean-Luc Godard, ao penetrarem na grande sala do Palácio exigindo a interrupção da projeção em solidariedade aos operários e estudantes em greve caudatários do Maio de 68.

festival de cannes

cena do filme O Formidável

Fato esse inclusive retratado brilhantemente de maneira cômica no filme “O Formidável” (FRA, 2017) de Michel Hazanavicius que narra a história do cineasta francês Jean-Luc Godard (e de como este teve mais um de seus óculos quebrado na confusão causada em Cannes rs).

Na edição de 2009 do Festival, tivemos o cineasta dinamarquês Lars Von Trier que, durante a coletiva para a imprensa, foi indagado pelo colunista Baz Bamigboye, do britânico Daily Mail, ao lhe pedir que explicasse e justificasse o porquê de ter feito o filme “O Anticristo” (FRA/ITA/POL, 2009). O periodista ainda acrescentou: “e, ao menos uma vez, dê-nos mais que uma palavra”.

Von Trier recusando a necessidade de justificativa da produção de seu filme, levou o jornalista a manter a investida: “Sim, você tem de justificar. Aqui é o Festival de Cannes, no qual você inscreveu seu filme e tem de explicar por que o fez”.

Novamente o diretor dinamarquês deu de ombros e disse que a questão era “estranha, vocês [os jornalistas] são meus convidados, ao menos na minha visão”.

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protesto brasileiro em cannes

As brigas entre cineastas, atores e jornalistas são inclusive espetáculos à parte já inscritos (e rotineiramente esperados) no roteiro de Cannes. Certa vez o ator alemão Klaus Kinski berrou e ofendeu jornalistas chamando-os de idiotas, analfabetos e mongoloides.

Também o diretor francês Leos Carax costumeiramente respondia aos repórteres com silêncio, risadas sarcásticas ou frases lacônicas.

Dentre outras polêmicas que recheiam a história do Festival, as mais recentes envolvem brigas com os serviços de streaming. Por conta do imbróglio gerado a partir de uma estratégia de distribuição não-tradicional, os filmes produzidos pela Netflix, por exemplo, permanecem oficialmente impedidos de circularem pela Croisette, a charmosa avenida principal onde ocorre o Festival de Cannes.

Recentemente, o mundo presenciou ao vivo direto do tapete vermelho de Cannes, um protesto protagonizado pelo cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho acompanhado do elenco e produtores de seu filme “Aquarius” (BRA, 2016) em que acusavam a crise política brasileira daquele ano de 2016, empunhando cartazes que diziam sobre o país estar sofrendo um golpe de Estado por ocasião das votações jurídico-parlamentares de afastamento da ex-presidenta Dilma Roussef do cargo máximo da república tupiniquim.

Agora em 2019, Mendonça Filho está novamente de volta à seleção oficial dos filmes competidores ao prêmio maior do Festival de Cannes, a Palma de Ouro, com seu filme “Bacurau” (BRA, 2019) produzido em conjunto com Juliano Dornelles. Quando perguntado se o cineasta levaria um novo protesto à Cannes esse ano, o mesmo apenas respondeu: “Nosso protesto será exibir um filme f*** sobre o Brasil”. Ansioso pelo o que vem por aí.

Bacurau filme brasileiro cannes

Bacurau é uma das promessas brasileiras em Cannes este ano


Aliás, o Brasil também fez história na edição de 1962 do Festival de Cannes quando Anselmo Duarte, ator, roteirista e cineasta brasileiro, recebeu a Palma de Ouro com seu filme “O Pagador de Promessas” (BRA, 1962), baseado na peça de Dias Gomes, colocando o nome do Brasil pela primeira vez no cenário cinematográfico internacional.

Este ano, junto com “Bacurau”, o Brasil também possui produções competindo em outras categorias do Festival, tais como “A vida invisível de Eurídice Gusmão” (BRA, 2019) de Karim Aïnouz na categoria Un certain regard, que se concentra em obras que têm um objetivo e uma estética originais e garantem um impacto discreto, porém forte, e; “Sem seu sangue” (BRA/FRA/HOL, 2019) de Alice Furtado na seção paralela, La Quinzaine des Réalisateurs, que não faz parte do calendário oficial do Festival de Cannes, entretanto uma vez organizada pelo Sindicato de Diretores da França, aproveita o calendário de Cannes para exibir os títulos selecionados, mantendo uma independência do Festival.

Agnès Varda cannes

Agnès Varda será homenageada deste ano em Cannes

A cada edição, o Festival de Cannes busca sempre homenagear uma figura célebre da cinematografia mundial em seus cartazes publicitários que estampam toda a marca do evento. No ano de 2017 em que pude conferir o Festival de perto, a homenageada foi a atriz italiana Cláudia Cardinale famosa por filmes como “8½” (ITA, 1963) de Frederico Fellini, e “Fitzcarraldo” (PRT/ALE, 1982) de Werner Herzog.

Parênteses: nesse mesmo ano, 70ª edição do Festival, pude também ver o diretor espanhol Pedro Almodóvar como presidente do júri, a atriz italiana Mônica Belucci como mestre de cerimônias e a atriz francesa Marion Cotillard com o filme principal da seleção oficial, “Os fantasmas de Ismael”.

Este ano, a justa homenageada será a recém-falecida cineasta belga radicada francesa Agnès Varda, um dos principais nomes da Nouvelle Vague, famosa por filmes como “La Pointe Curte” (FRA, 1955) que inclusive teve sua estreia na edição de 1955 do Festival de Cannes.

No ano de 2015, Varda recebeu a Palma de Ouro honorária, dedicando-a “a todos os bravos e inventivos cineastas, àqueles que trazem originalidade para o cinema, seja na ficção, seja no documental”.

rocketman cannes

Rocketman, biografia de Elton John, é um dos destaques de Cannes 2019

A edição de 2019 do Festival de Cannes tem em sua seleção oficial nada mais, nada menos que produções assinadas por Jean-Pierre e Luc Dardenne – “O jovem Ahmed” (BEL/FRA, 2019), por Terrence Malick – “A hidden life” (EUA/ALE, 2019), por Ken Loach – “Sorry we missed you” (HOL, 2019) e por Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino que trazem respectivamente seus novos filmes “Dor e Glória” (ESP, 2019) e “Era uma vez… em Hollywood” (EUA/ING, 2019).

Ainda também já pus em minha “lista para assistir” outras obras que compõem a mostra, tais como: “O Traidor” (EUA/BRA, 2019) de Marco Bellocchio, “La Belle Époque” (FRA, 2019) de Nicolas Bedos, “Rocketman” (ING/EUA, 2019), sobre a biografia de Sir Elton John, de Dexter Fletcher, “Chicuarotes” (MEX, 2019) de Gael Garcia Bernal, e os documentários “Diego Maradona” (ING, 2019) de Asif Kapadia, “La Cordillera de Los Sueños” (FRA/CHI, 2019) de Patrício Guzmán e “Family Romance, LLC.” (ALE, 2019) de Werner Herzog.

Ufa, Cannes geralmente me dá trabalho (rs), porém, com certeza, também muitos prazeres.

Au gagnant, la Palm D’Or !

Bruno C. Ribeiro tem 32 anos, é professor do curso de Psicologia da UFTM e pós-doutorando em Saúde Coletiva pela UNIFESP. Ainda na graduação fundou o projeto “Cine CAPSIA – o cinema como forma de produção de conhecimento em Psicologia” e durante o mestrado integrou os projetos de extensão “Tela Crítica/CineTrabalho”. Atualmente é membro da Sessão Zoom de Araraquara-SP. É autor do livro “Trabalho e Gestão através do Cinema” e co-autor na obra coletiva do Conselho Nacional de Cineclubes, “Cineclube, Cinema e Educação”.

Twitter: @brunocribeiro

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