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Coluna Bruno Ribeiro: Cinebiografias

Confira mais uma coluna do araraquarense Bruno Ribeiro

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Bohemian Rhapsody e Cazuza são alguns exemplos de cinebiografias

Mais do que nunca as chamadas cinebiografias vieram para ficar.

Nunca antes na história do cinema – estadunidense principalmente -, as produções baseadas na vida de personalidades históricas, políticas, religiosas, do showbiz, mainstream, da música, da literatura, da ciência e do próprio cinema pautam não somente toda a indústria fílmica como também o rumo das grandes premiações da cinematografia mundial.

Diz-se informalmente que para um ator ganhar um Oscar, basta interpretar uma celebridade que a história mundialmente reconhece por sua biografia e contribuições em algum campo social ou expressão artística.

Essa história não vem de agora na verdade. Na coluna de hoje me ocuparei de trazer importantes cinebiografias interpretadas somente por atores.

Ao longo da premiação estadunidense mais importante do cinema mundial, a Academia já premiou diversos atores que deram vida na tela a pessoas notáveis.

Já em sua primeira edição em 1929, o Oscar premiou na categoria “Melhor Ator”, por exemplo, Emil Jannings, por sua interpretação no filme “A Última Ordem” do Grão-Duque Sergius Alexandrovich da Rússia, que foi uma figura influente durante os reinados do seu irmão Alexandre III e do seu sobrinho Nicolau II.

No ano seguinte,1930, novamente um ator laureado por uma biografia: George Arliss por dar vida na tela à Benjamim “Disraeli”, no filme homônimo, que foi o Primeiro Ministro do Reino Unido responsável por protagonizar a disputa com a Rússia pelo Canal de Suez.

Há atuações premiadas na referida categoria que são inesquecíveis, tais como:
– a de Charles Laughton por interpretar o Rei Henrique VIII da Inglaterra no filme “Os Amores de Henrique VIII”;
– em 1937, a de Paul Muni, que contou a trajetória do cientista e químico Louis Pasteur em “A Vida de Louis Pasteur”;
– José Ferrer por seu papel do escritor francês “Cyrano de Bergerac” em 1950;
– Yul Brynner pelo Rei Mongkut do Sião no musical “O Rei e Eu” de 1956;
– George C. Scott que venceu em 1970, pelo icônico general “Patton” (1970), importante figura da 2ª Guerra Mundial que liderou o exército estadunidense ajudando os aliados a conseguirem a vitória;
– a memorável atuação de Robert De Niro como o boxeador Jake LaMotta, um vencedor nos ringues que atingiu a incrível marca de 83 vitórias durante a sua carreira, lhe garantindo o Oscar de 1981 por “Touro Indomável” de Martin Scorsese;
– Ben Kingsley por sua atuação de “Gandhi” no filme homônimo de 1983;
– Geoffrey Rush como o pianista australiano David Helfgott de “Shine – Brilhante” em 1997;
– Adrien Brody por “O Pianista” de 2001, em que dá vida ao músico judeu e polonês Wladyslaw Szilman, que enfrenta os desafios da 2ª Guerra Mundial;
– Jamie Foxx como o lendário músico e jazzman “Ray” Charles em 2005;
– o saudoso Philip Seymor Hoffman como o escritor e dramaturgo Truman “Capote” em 2006;
– Forest Whitaker ao interpretar o sanguinário ditador militar Idi Amim Dada de Uganda, em “O Último Rei da Escócia” de 2007;
– Sean Penn pelo político estadunidense e ativista dos direitos homossexuais, Harvey “Milk” em 2009 e;
– Daniel Day-Lewis pelo abolicionista 16º presidente estadunidense Abraham “Lincoln” em 2013.

Foto: Filme Johnny & June

Cabe lembrar também as excelentes atuações que não venceram o Oscar de “Melhor Ator”, como:
– as de Clark Gable, como o Oficial Mestre Fletcher Christian (primeiro imediato britânico no motim da Bounty de 1789, em “Mutiny on the Bounty” da edição de 1936 da cerimônia;
– Orson Welles como Charles Foster Kane (que na verdade trata-se do magnata da imprensa estadunidense William Randolph Hearst) no aclamado “Cidadão Kane” em 1942;
– Marlon Brando em 1953 e 1954, como o importante líder da Revolução Mexicana, Emiliano Zapata, em “Viva Zapata!” e como o cônsul romano Marco Antônio no filme “Júlio César” respectivamente;
– Al Pacino pelo policial estadunidense anticorrupção Frank “Serpico” em 1974;
– Warren Beatty pelo jornalista estadunidense John Reed responsável pela cobertura da revolução bolchevique no “Reds” de 1982;
– Tom Hulce por dar vida ao compositor Wolfgang “Amadeus” Mozart e sua hilária gargalhada em 1985;
– Robert Downey Jr. por seu “Chaplin” e Denzel Washington por um “Malcolm X”, ambos da edição de 1991 da premiação;
– Anthony Hopkins pela interpretação do único ex-presidente estadunidense a renunciar ao cargo (devido a um escândalo de corrupção), Richard “Nixon”, em 1996;
– Woody Harrelson pelo editor da revista pornográfica Hustler, Larry Flint, que respondeu a vários processos na justiça retratados em “O Povo contra Larry Flint” em 1997;
– Geoffrey Rush por dar vida na tela ao aristocrata e escritor libertino, o famigerado Marquês de Sade, n’”Os Contos Proibidos do Marquês de Sade” em 2001;
– o matemático esquizofrênico e vencedor do prêmio Nobel em Ciências Econômicas, John Nash, vivido pelo ator Russel Crowe no filme “Uma Mente Brilhante” e o famoso pugilista Muhammad “Ali” de Will Smith, ambos da edição de 2002 do prêmio;
– Nicolas Cage pelo roteirista Charlie Kaufmann em “Adaptação” de 2003;
– o obsessivo-compulsivo milionário Howard Hughes de Leonardo DiCaprio em “O Aviador” em 2005;
– Joaquin Phoenix em “Johnny & June” em 2006 sobre a história do romance do músico country Johnny Cash com a cantora June Carter;
– o corretor da bolsa de valores Chris Gardner vivido por Will Smith em “À Procura da Felicidade” em 2007;
– o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela interpretado por Morgan Freeman no filme “Invictus” em 2010 e;
– novamente Leonardo DiCaprio como o ganancioso corretor de bolsa de valores Jordan Belfort de “O Lobo de Wall Street” em 2014.

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Leonardo DiCaprio no filme O Regresso

A partir da década de 2010 os produtores cinematográficos parecem ter compreendido que as cinebiografias são a fórmula perfeita para se vencer um prêmio Oscar pela exigência interpretativa que o papel de uma biografia exige.

Na edição do prêmio em 2011, por exemplo, tivemos 3, dos 5 concorrentes ao Oscar de “Melhor Ator” indicados por viver personalidades nas telonas.
Foram eles: o vencedor Collin Firth por interpretar o rei gago Jorge VI do Reino Unido em “O Discurso do Rei”; Jesse Eisenberg pelo criador do Facebook, Mark Zuckerberg em “A Rede Social” e; James Franco por viver as angustiantes “127 horas” do alpinista Aron Ralston.

Já as edições de 2015 e 2016 tiveram exageradamente 4 dos 5 indicados concorrentes à estatueta interpretando alguma biografia!

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Cena do filme Sniper Americano com Bradley Cooper

Foram eles: o vencedor Eddie Radmayne, por interpretar o físico Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo”; Steve Carell pelo milionário John Eleuthère, herdeiro da família du Pont e criador do time de luta livre “Foxcatcher”; Bradley Cooper como o mais letal franco-atirador da Marinha dos Estados Unidos Chris Kyle em “Sniper Americano” e; Benedict Cumberbatch por sua interpretação do matemático e criptoanalista Alan Turing, responsável por decifrar o Enigma nazista e considerado o pai da computação pelo “O Jogo da Imitação”.

Em 2016 tivemos: o enfim vencedor Leonardo DiCaprio por caracterizar o explorador estadunidense Hugh Glass em “O Regresso”; o eterno Mr. White da série “Breaking Bad”, o ator Bryan Cranston, brilhantemente dando vida ao premiado roteirista (e perseguido político do Hollywood Tem) Dalton “Trumbo”; Michael Fassbender dando vida ao criador da Apple, “Steve Jobs”, e; novamente Eddie Redmayne por sua interpretação da pintora transexual dinamarquesa Lili Elbe.

A edição desse ano não foi diferente. O atual dono da estatueta dourada na categoria “Melhor Ator” é Rami Malek que reviveu o lendário cantor Freddie Mercury da banda inglesa Queen no filme “Bohemian Rhapsody” desbancando Christian Bale que interpretou o deplorável ex-vice presidente republicano estadunidense Dick Cheney em “Vice”; o impressionante “Van Gogh” de Willem Dafoe de “No Portal da Eternidade” e; Viggo Mortesen com seu Frank “Tony Lip” Vallelonga, motorista e fiel-escudeiro do pianista Don Shirley do premiado na categoria “Melhor Filme” de 2019, “Green Book – o guia”.

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Christian Bale em Vice

Também a edição do Festival de Cannes desse ano já trouxe o filme “Dor e Glória” que está sendo considerado uma autobiografia de seu diretor Pedro Almodóvar, “Era uma vez… em Hollywood” de Quentin Tarantino que trata das biografias de Charles Mason e seu grupo no assassinato da atriz Sharon Tate e, principalmente, “Rocketman” que conta a história do músico britânico Elton John.

Esse último inclusive faz parte do grupo das megaproduções musicais que já são um filão nas cinebiografias tais como os já citados “Bohemian Rhapsody”, “Ray” e “Johnny & June”.

Há outras fora das premiações Oscar (ao menos nas categorias principais) de menor bilheteria e impacto, porém que merecem destaque, tais como:
– “Sid & Nancy” de 1987 com Gary Oldman na pele do músico punk Sid Vicious;
– “The Doors” de 1991 com Val Kilmer como o bandleader Jim Morrinson;
– “Não Estou Lá” de 2007 com diversos atores (Christian Bale / Cate Blanchett / o saudoso Heath Ledger / Marcus Carl Franklin / Richard Gere / Ben Whishaw) vivendo o cantor, compositor e escritor Bob Dylan;
– “O Garoto de Liverpool” com Aaron Johnson dando vida à estrela-maior do rock mundial John Lennon;
– “James Brown” de 2014 sobre a lenda do soul interpretado por Chadwick Boseman;
– “A Vida de Miles Davies” de 2015 com Don Cheadle no papel do lendário trompetista;
– “Chet Baker – A Lenda do Jazz” (2015) vivido por Ethan Hawke e;
– “Elvis & Nixon” de 2016 com Michael Shannon no papel do rei do rock n’ roll.

cinebiografia coluna Burno Ribeiro

Jamie Foxx em Ray

Apenas para que conste nos autos, o Brasil também vem surfando na onda das cinebiografias há tempos. Destas há inclusive produções de relevante bilheteria.

Destaque para aquelas que narram a história de grandes personagens da nossa música: “Cazuza – o tempo não para” de 2004 com o ator Daniel de Oliveira na pele do cantor/poeta da banda Barão Vermelho; “Dois Filhos de Francisco” de 2005 sobre a história da dupla sertaneja Zezé de Camargo & Luciano com os atores Marcio Kieling e Thiago Mendonça nos papeis principais; “Gonzaga – de pai para filho” de 2012 com Nivaldo Expedito de Carvalho e Adelio Lima representando Luiz Gonzaga, o rei do Baião, e Júlio Andrade como Gonzaguinha; “Somos Tão Jovens” de 2013 sobre a vida do cantor e compositor da banda Legião Urbana, Renato Russo, também vivido por Thiago Mendonça; “Tim Maia” de 2014 com Robson Nunes e Babu Santana vivendo o maior cantor funk/soul da mpb; “Elis” de 2016, com Andreia Horta interpretando a maior cantora brasileira, Elis Regina Carvalho Costa; “João, o Maestro” de 2016 com Alexandre Nero vivendo o maestro João Carlos Martins e; “Minha Fama de Mau” de 2019 com Chay Suede como Erasmo Carlos, Gabriel Leone como Roberto Carlos e Malu Rodrigues como Wanderleia, fenômenos da Jovem Guarda.

Bruno C. Ribeiro tem 33 anos, é pós-doutorando em saúde coletiva pela Unifesp. Ainda na graduação fundou o projeto “Cine CAPSIA – o cinema como forma de produção de conhecimento em Psicologia” e durante o mestrado integrou os projetos de extensão “Tela Crítica/CineTrabalho”. Atualmente é membro da Sessão Zoom de Araraquara-SP. É autor do livro “Trabalho e Gestão através do Cinema” e coautor na obra coletiva do Conselho Nacional de Cineclubes, “Cineclube, Cinema e Educação”. Twitter: @brunochapadeiro.



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