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Coluna Danilo Forlini: O que é Processo Criativo?

Confira mais uma coluna do Danilo Forlini sobre criatividade

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Muitas vezes temos a ideia equivocada de que a criatividade surge do nada. De repente, em um momento de iluminação, aparece a ideia genial, como na história grega do matemático Arquimedes, que durante um banho em uma piscina termal teve um brilhante insight para calcular o volume de ouro da coroa do rei Hierão, um problema que já estava o torturando há algum tempo.

Acontece que por mais que essa sensação seja forte para nós, a criatividade não é um momento único, e sim um processo. Compreender este processo (que já acontece o tempo todo conosco) pode ajudar a trazê-lo para a consciência, de modo que, às vezes, possamos até controla-lo ou estimulá-lo. Para facilitar nosso entendimento, de forma sintética vamos dividir o processo criativo em algumas etapas.

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1 – Identificação de um problema, Repertórios e Referências

Todo o nosso texto do mês passado foi dedicado a compreender a criatividade como uma ferramenta para solucionar problemas, de modo que é uma habilidade que serve não só para artistas, mas para todos, já que todos temos problemas. Nesse sentido, um processo criativo começa quando um problema (ou uma demanda) são observados por nós. Com nossa atenção sobre a questão, ela passa a ser possível de ser resolvida de alguma forma que já resolvemos antes (de acordo com nossas experiências), ou de forma criativa, ou seja, buscando uma saída nova para nós.

A partir do momento que percebemos que queremos uma resolução nova para uma demanda, iremos mobilizar todos os nossos repertórios e referências em sua direção. Em termos objetivos, nossos recursos para resolvê-la. Usando o exemplo de Arquimedes, devemos considerar que ele era um matemático, portanto, a partir do momento que o problema lhe é apresentado, ele passa a recuperar tudo o que sabe sobre matemática para tentar resolver a questão. Mas nada impede que ele pesquise mais sobre o assunto e agregue mais repertórios para lhe ajudar.

O mesmo vale para os problemas cotidianos. Supondo que você enfrenta uma questão específica para resolver em seu relacionamento afetivo, suas primeiras referências serão sempre suas experiências passadas e a maneira como você lidou como situações semelhantes. Mas pode ser interessante agregar mais repertório conversando com outras pessoas para saber como elas lidam com questões parecidas, ou mesmo buscar conhecimento diverso em livros ou profissionais no assunto.

É interessante lembrar que apesar de conhecimentos específicos da área contribuírem imensamente, quando pensamos em criatividade todas as nossas referências contam. Cada experiência de vida, filme ou livro conhecido, viagem, curso, aula e memória farão parte da geração de ideias que vem a seguir.

2 – Geração de Ideias: Combinação Consciente e Inconsciente
Criatividade é associação. Após determinar o problema, nosso cérebro mobiliza tudo o que temos de repertório para que, combinados entre si, gerem ideias para solucionar a questão. Arquimedes buscou respostas na matemática que já conhecia e gerou ideias para resolver, mas nenhuma dava certo. Até que, durante um banho, a experiência de estar mergulhado na água e a observação de que o volume de seu corpo fazia com que a água aumentasse seu nível, combinados com seus conhecimentos matemáticos prévios, lhe gerou a ideia que precisava para resolver o problema da coroa do rei.

Retomemos o exemplo anterior. Pode ser que, a partir de suas experiências prévias em relacionamentos afetivos combinadas com aquelas de pessoas com quem você conversou, ou mesmo a história de algum filme que viu, ou um texto que leu, gerem ideias para tentar resolver sua demanda. Essas ideias podem vir de forma consciente, exatamente no momento em que você está tentando gera-las e matutando sobre o assunto, ou podem ser geradas de forma inconsciente, de forma que aparecem na sua cabeça em um momento completamente aleatório como em uma caminhada, brincando com o cachorro ou descansando na praia.

Isto acontece porque quando tentamos solucionar uma questão, mesmo quando nós paramos e vamos fazer outra coisa, nosso subconsciente continua trabalhando. É algo que chamamos de incubação. Em momentos de relaxamento, nosso cérebro consegue combinar e criar muito melhor, de modo que pode ser que algum problema incubado finalmente encontre ideias que façam sentido. Por isso é que vale a pena o conselho: Quando estiver sofrendo muito em um determinado trabalho, é interessante parar para fazer outra coisa que lhe relaxe um pouco. Pode ajudar no processo criativo.

3 – Avaliação e Implementação
Muita gente terminaria o processo criativo dizendo que a geração da ideia é o seu fim, mas na verdade ainda falta um elemento importantíssimo: Nossa avaliação se a ideia gerada vale a pena de ser experimentada na prática. A avaliação nunca para de acontecer, e às vezes até nos atrapalha porque bloqueia uma ideia antes que ela tome forma, mas o fato é que, após geradas as ideias, precisamos racionalizar para pensar se vale a pena ou não tentar.

Se a decisão for tentar, implementamos a solução para ver se funciona. Exatamente. Mesmo depois de todo esse caminho no processo criativo, há sempre a possibilidade de que dê errado. Nenhuma solução ou ideia nova é colocada em prática sem riscos, afinal nunca tentamos antes. O lado bom é que independentemente do acerto ou falha, esse resultado se transforma em experiência pessoal. Um novo repertório para nossos próximos processos criativos.

4 Convite
Para terminar, lhe faço um convite. Pense em alguma questão pessoal ou de trabalho que você gostaria de resolver. Algo que vem lhe incomodando este ano. Decida experimentar um processo criativo consciente para essa demanda e registre tudo no papel. Qual é o problema, o que você já sabe sobre ele, as maneiras que já tentou resolver, sua experiência com o assunto.

A partir daí, vá seguindo as etapas que trabalhamos nesse texto. Anote todas as ideias que tiver para resolver. Não pode ser uma ideia só, devem ser várias! Pode ser um processo bem rápido ou pode levar dias, meses. Pode trazer soluções interessantes ou equivocadas. Não deixe de tentar! E depois venha me contar como foi.

Danilo Forlini ( @daniloforlini ) é Palestrante e Pesquisador em Criatividade, Improvisação e Educação. Mestre e Doutorando em Educação Escolar pela UNESP Araraquara, Escritor do livro de contos “O melhor presente que você poderia ganhar” e Diretor e Ator na Cia. Improvisória de Teatro.
Conheça mais em daniloforlini.com

 

 

 

 



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