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Coluna Maria Eduarda Pierri: Mulheres Além da Carne

Nesta coluna, Maria Eduarda Pierri, reflete sobre o poder da menstruação e os diferentes tipos de absorvente

Hoje o sangrar da mulher é visto como algo profano, impuro, nojento, que deve ser escondido. Por que devemos esconder nossos poderes? Por que devemos deixar que um homem nos torne submissas? Por que não experimentar esse fruto suculento que nos desperta? Nossa menstruação é a ponte que nos conecta com a fonte de conhecimentos sagrados. Menstruar é libertar-se.

Para que possamos restabelecer essa conexão com a terra temos uma abundância de possibilidades. Algumas delas irei citar com mais carinho. Coletores menstruais e absorventes ecológicos.

Os coletores são “tacinhas” feitas de silicone cirúrgico que a mulher insere no canal vaginal (não é o mesmo buraco do xixi) e retém o sangue por certo tempo, que varia de acordo com o fluxo da mulher, não ultrapassando 12h de uso. Os coletores são praticamente eternos, podendo durar até 10 anos. Nos coletores o sangue já sai “in natura”, lindo e forte. Basta diluí-lo em água e regar as plantas ou enterrá-lo fazendo algum ritual de seu agrado. Lembrando que antes de usar o coletor, no começo do ciclo, e após o fim do ciclo, este deve ser fervido, pelo menos por cinco minutos, para que possa ser esterilizado.

Os absorventes ecológicos são panos feitos com moldes dos absorventes convencionais, completamente anatômicos. São feitos de algodão, felpo, flanela, entre outros tecidos. Possuem abas laterais que se prendem abaixo da calcinha por botões de pressão ou com casinha mesmo. São reutilizáveis e duram de 2 a 3 anos se bem cuidados. Como se utilizam? Após a menstruação recomenda-se deixar o paninho em um primeiro molho somente com água para diluir o sangue e utilizar esta água como adubo das plantas. O sangue é rico em nutrientes, já que nos preparamos a cada mês para gerar uma vida. Pois bem, que seja gerada a vida na terra! Após este molho lavar com sabão de coco (o menos agressivo) ou deixar em demolha com uma lasca de sabão de coco ao sol para retirar possíveis manchas, desde a manhã até o fim de tarde.

Por que abandonar o uso de tampões e absorventes convencionais? Respondo: a carga de componentes químicos nocivos desses produtos é enorme. Não existem órgãos que fiscalizem a produção desses itens de higiene feminino em quantidade explícita e toxicidade a longo prazo. Um absorvente ou tampão possui, dentre outros, os seguintes componentes: cloro (alvejante), pesticida pulverizado, fragrâncias, flúor, cola, plástico, desinfetante e a dioxina. Esta última pode estar associada a grande parte do número de casos de mulheres com câncer de mama, endometriose, vaginite crônica e câncer do colo do útero. Por que deixamos isso acontecer? Porque não somos informadas.

Além disso, há hipóteses de que o absorvente convencional aumenta a incidência de cólicas, T.P.M. e fluxo sanguíneo, pois desta forma saímos com 2 pacotes, ao invés de um só, mais um remédio para cólicas e uma série de calmantes. Lucro para a indústria farmacêutica!

Pelo fator ambiental, cada mulher durante sua vida fértil (da menarca até a menopausa) despeja no planeta cerca de 9 mil absorventes, que demoram 450 anos para serem degradados. Pensando do ponto de vista financeiro economizamos muito mais utilizando as soluções ecológicas. Por exemplo, uma mulher necessita de 4 absorventes ecológicos durante seu ciclo menstrual e irá gastar com isso em média 100 reais e seu “kit” pode durar até 2 anos. Em 2 anos uma mulher consome aproximadamente 48 pacotinhos de absorventes convencionais (utilizando 2 pacotes por mês) gastando um total de 480 reais nesse tempo (considerando um pacote de valor de 5 reais). Muito dinheiro não?! Acredito ser melhor economizar. Não quero induzir nenhuma mulher a fazer esta troca, em hipótese alguma. Quero simplesmente que possamos ter consciência do que colocamos em nossos corpos e que a informação nos chegue. Essa é minha função neste texto, informar. Porque nós mulheres somos divinas e somos algo muito além de um pedaço de carne.

Dica para superar essa barra que é menstruar:

Conhecida cientificamente como Matricaria chamommila, a Camomila possui ação antiinflamatória, analgésica (supressão da dor), sedativa (diminui o nível de vigilância), carminativa (alivia gases intestinais), antiespasmódica (redução de espamos) e antinevrálgica (combate dores nos nervos).
Qual o seu poder? Acalmar. Em todos os sentidos.

Sabemos que a carga emocional que carregamos é intensa. Não amadurecemos cedo, somos educadas a se preocupar excessivamente com os outros, tomando para nós responsabilidades que não deveriam ser nossas. É uma descarga constante. Família, filhos, trabalho, estudos, projetos pessoais.. e nisso tudo, poucas vezes sobra tempo para cuidarmos de quem mais nos importa nessa vida: nós mesmas. A Camomila vem nos lembrar que devemos nos cuidar, individualmente primeiro. E quando tivermos forças suficientes, podemos estender nossos cuidados para além, cuidando de todos ao nosso redor, se for necessário e se essa for sua escolha.
A Camomila é o colo sereno, é aquela que diz: “Fique tranquila, isso logo vai passar.” Mas ela é forte, tem raiz, tem poder. Não se deixe enganar por suas flores miúdas e frágeis, porque a sua força é majestosa.

Infusão de Camomila
1 punhado (ou 3g de flores de camomila secas)
150mL de água
Preparo: aquecer a água e despejar sobre as flores secas.
Contraindicações: crianças com menos de 2 anos e grávidas com até 3 meses de gestação.

Foto: Thiago Schiavon


Maria Eduarda é artesã, empreendedora criativa, terapeuta integrativa, palestrante e educadora. Formada em Terapia Floral pela Healing Herbs Brasil, 2014. É pesquisadora autônoma em Cosmetologia Natural desde 2012. Graduanda em Farmácia-Bioquímica pela Unesp Araraquara desde 2016. Criadora do movimento Slowpharmacy no Brasil e idealizadora do projeto de expansão de saberes tradicionais Flores.seremos. Agora, Maria Eduarda também é colunista do Comunica Araraquara.

Contato: flores.seremosloja@gmail.com

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