Colunistas

Coluna Tatiana Rodarte: Uma carta pra você, menina

Em “Uma carta para você, menina”, a colunista Tatiana Rodarte escreve uma crônica com divagações sobre a vida. Confira o texto!

Olha menina, eu vim aqui te contar umas coisas.

Vim aqui porque às vezes me bate um medo danado de não existir o amanhã.

Depois lembro que não seria de todo ruim que a vida acabasse por aqui mesmo. Já amei mais do que meu peito pode aguentar, tenho uma saudade e uma cicatriz sem conserto, já tomei banho de mar e bebi água da chuva, tomei banho de chuva e bebi água do mar – que mais se pode querer?

E é disso tudo que eu sem nem perceber que comecei a dizer que vim dizer aqui. Daqui de onde te falo tem uns 6 metros de altura do chão. Já se aproximaram pra dizer ‘cuidado, menina, não vá cair daí’, mas ninguém parou pra olhar a chuva janela afora.

Ninguém parou pra sentir os dois graus que a chuva tascou do ar, só pra dizer que veio.

Ninguém viu que o céu tava brabo com alguém e que agora perdoou. Sabe menina, a vida acontece em todo lugar e o tempo todo (interromperam meu pensamento. sentou aqui do lado, por 20 segundos, um rapazinho de olhar doce que me fez querer falar da vida que nele há…posso?).

A vida tá na boca do rapazinho, com cara de sono, comendo pão.

Tá no cheiro de cigarro que começou a entrar agora por aquela porta. Tá na voz do noticiário do jornal. Tá nas palavras que usamos, e também nas que não usamos. No amor que vivemos, e no que não vivemos também.

A vida tá aí, nas coisas que se movem e nas que não se movem também. O que muda, menina, o meu humor e o teu, a minha ação e a tua, diante da vida toda é o sentido que ela tem.

A importância das coisas todas é medida pela necessidade física (de sobrevivência) e pelo encantamento que elas produzem em nós.

Só que isso vai além, sabe? Em termos de ciência, todo tipo de afeto ou atenção se produz conforme ensinado na nossa primeira infância – se aquilo nos foi ensinado como bom/ruim, feio/bonito, bom/mau.

Mas, sabe, tem umas coisas que parece que nossa compreensão pretensiosa parece não ser capaz de decifrar.

O que eu tô dizendo menina, é que aí tem coisa. Sabe aquela criança que, criada aos tapas em meio ao caos, acaricia um cachorro?

Sabe aquela moça que, violentada pelo marido, sai de casa e vai estudar? Ou aquele senhor viúvo, sem filhos, que conversa com todo amor com a samambaia da varanda? E aquela alegria que a gente sente quando consegue entrar no vagão do metrô sem ficar presa pela blusa?

Ou aquele primeiro passo na areia macia e morna depois de tirar os sapatos. Ou o cheiro de amaciante no edredom recém saído do varal. Aquele olhar furtivo e correspondido de uma menina bonita.

A chuva caindo na cabeça no meio da corrida a pé de fim de tarde, quase chegando em casa. Dançar forró colado. Espreguiçar. Cheiro de café. Pé de neném.

Tá vendo, menina? Tem umas coisas que mexem num lugar nosso aqui dentro que ninguém precisou ensinar. Que não tem a ver com sinapse, com compreender coisa alguma. E isso menina, isso que toca a gente e faz teu olho brilhar forte é o que eu chamo de linguagem do mundo.

É olhar uma planta e amar a gotinha pousada nela, compreender-se ali, porque vocês duas falam a linguagem do mundo. É não ter medo de pegar carona porque o motorista tem nos olhos a linguagem do mundo e nela não existe o mau.

Falar a língua do mundo é estar em casa em qualquer lugar porque tem você em todo canto e você é o mundo inteiro. E se somos uns os outros, jamais estamos sozinhos e tudo dá certo, até quando não dá.

Só sabe a língua do mundo quem está conectado ao coração e olha, menina. Você não só sabe essa língua como a canta aos 4 ventos. Sua voz é a voz do mundo e como é fácil sentir amor por olhos de vida inteira.

LEIA TAMBÉM
+ Coluna Del Freitas: Às vezes é preciso conversar com você mesmo!
+ Coluna Érica Alexandre: Turbantes – Uma História além da Moda
+ Coluna Bruno Ribeiro: Ainda sobre o Oscar…

tatiana rodarte comunica araraquara Tatiana Rodarte é fisioterapeuta em saúde da mulher, facilitadora de vivências e de grupos terapêuticos. Formada em Fisioterapia pela Unifesp Baixada Santista desde 2015, fez residência hospitalar pela Unifesp São Paulo. Atualmente é pós graduanda em Saúde da Mulher pela UFSCar e tem aprofundado seus estudos na área de autocuidado e sexualidade humana. Idealizadora do projeto Vulvalivre, realiza grupos terapêuticos temáticos e atendimentos individuais na cidade de São Carlos. Entusiasta da liberdade de expressão e de todas as formas de amor, acredita que viver com prazer é um ato político.
Facebook: https://www.facebook.com/vulvalivre
Instagram: @tatiana.rodarte