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Coluna Tatiana Rodarte: Dia das Mulheres ou Dia do “Fecha as pernas, menina!”

Parabéns pra nós por termos chegado até aqui e como o autocuidado pode ser um desafio fundamental para seguirmos adiante

Foto: Merylin Esposi

Já de dentro da barriga da mãe, o pequeno ser humano em formação escuta o burburinho do mundo que o espera. “É menino ou menina?” “Se está se mexendo assim, com certeza é menino, vê só, parece que até que tá jogando bola!” “Magina, se te deixa dormir é porque é menina, menina é bem mais tranquila…mas se parecer com você, vai dar trabalho!”. Dia do parto: chegou o bebê! Corpinho de biologia feminina. Roupinha cor-de-rosa pra um lado, boneca de vestido de tudo-quanto-é-cor pro outro. Aos 3, a gente começa a perceber que tem um corpo. E junto com essa descoberta, vive escutando que “aí não pode pôr a mão não, que é muito feio”, “deixa que a mamãe cuida”. Aos 9, o papo fica menos delicado. “Menina, isso não é jeito de sentar, fecha essas pernas!”. Aos 12, nos dizem que precisamos nos comportar e não podemos ficar mal faladas na escola. Nos falam também que precisamos nos cuidar pra não engravidar. Mas se chega aos 30 e ainda não engravidamos, “ué, não vai ter filho não?”

Nascer num corpo de mulher é uma experiência muito maluca. Você cresce acreditando que é um bicho frágil, que precisa dos outros pra tudo quando pequena. De repente, você se vê quase malabarista para dar conta de tudo: casa, trabalho, filhos, companheiro, gato, cachorro, papagaio. Onde é que está agora toda aquela gente, que dizia que eu não conseguia fazer nada sozinha, e que eu precisava de alguém pra me ajudar? Contraditória é a vivência do feminino. Ao mesmo tempo que somos ensinadas que nossa força não é suficiente, ganhamos a fama de tudo suportar. Mas os tempos estão mudando, baby. Ainda bem.

Foto: Merylin Esposi

A mulherada percebeu que não dá mais pra ser assim. A taxa de escolaridade feminina no Brasil têm crescido consideravelmente, não só no ensino médio, como também no ensino superior. Estamos tendo menos filhos, nos divorciando mais, trabalhando mais, ainda que lutando por igualdades no salário. Estamos nos movimentando energicamente na direção da igualdade e ocupando espaços nunca antes ocupados. Mas a qual preço?

Nossos esforços por uma vida digna, considerando os desafios de desigualdade e violência que enfrentamos diariamente, têm refletido um tanto em nossa saúde mental. Estamos estressadas, tensas, depressivas, ansiosas. No Brasil, cerca de 5,8% da população é diagnosticada com depressão, o que faz do país o campeão de casos na América Latina. Segundo a OMS, mulheres jovens, grávidas ou em período pós-parto e idosas representam a parcela que mais sofre com a doença, na qual o índice de incidência chega a ser 150% maior do que entre homens. Apesar destes dados deixarem óbvio esse grande problema de saúde pública, continuamos sem ter acesso à uma rede de cuidado efetiva e com estratégias que olhem de pertinho para a saúde das mulheres. É preciso ter consciência de que dentro do pacote “ser mulher”, carregamos uma série de obrigatoriedades sociais impostas à nós que estão diretamente relacionadas ao comprometimento da nossa saúde física e mental.

Foto: Merylin Esposi

E o que podemos fazer para viver melhor, considerando que esperar uma solução social e coletiva pode ainda demorar alguns anos para se estruturar? Exercer o autocuidado. Conhecer a anatomia e o funcionamento do próprio corpo, entender nossas emoções, pensamentos e sentimentos nos leva à percepção de que temos responsabilidade e poder sobre nosso bem estar. Precisamos desconstruir a crença de que temos que ser cuidadas por alguém mais forte, de que somos frágeis ou de que nosso corpo só pode ser cuidado pelo sistema de saúde ou por um profissional especializado. Uma mulher que conhece seu próprio corpo, experimenta o sentimento de autoconfiança e de amor próprio. Somos ensinadas a exercer o cuidado ao outro e levadas a acreditar que pensar em nós mesmas é um ato de egoísmo. Mas quando conseguimos nos colocar como prioridade e percebemos que somos capazes de mudar nosso estado físico e mental, tomamos de volta as rédeas de nossa vida. A mulher que entende a si própria, já não se desespera em busca de uma fonte de segurança, não se submete à sistemas de cuidado em que não acredita e não aceita relações nas quais ela é desvalorizada.

Neste dia das mulheres, te convido a se reconhecer como sua maior força. Te convido a perceber que você é capaz e merecedora do seu próprio cuidado. Te convido a ouvir seu corpo e a olhar pra ele por inteiro. Te convido a tocar cada pedacinho de você que disseram que era proibido. Te convido a se permitir colocar seu próprio nome no topo da sua lista de prioridades. Te convido a se parabenizar, antes de tudo, pela mulher que você é. Conhecer e cuidar de si mesmo é um ato de amor e um ato político. Seguimos juntas.

tatiana rodarte comunica araraquaraTatiana Rodarte é fisioterapeuta em saúde da mulher, facilitadora de vivências e de grupos terapêuticos. Formada em Fisioterapia pela Unifesp Baixada Santista desde 2015, fez residência hospitalar pela Unifesp São Paulo. Atualmente é pós graduanda em Saúde da Mulher pela UFSCar e tem aprofundado seus estudos na área de autocuidado e sexualidade humana. Idealizadora dos projetos Vulvalivre e Eu Sou Mulheres, realiza grupos terapêuticos temáticos e atendimentos individuais na cidade de São Carlos. Entusiasta da liberdade de expressão e de todas as formas de amor, acredita que viver com prazer é um ato político.
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