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Coluna Tatiana Rodarte: ginecologia autônoma

Uma reflexão sobre a perda do controle sobre a nossa saúde íntima e porquê recuperá-lo é uma ação fundamental e política

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O estudo do corpo humano a partir de cadáveres foi iniciado por homens, em corpos masculinos.

A anatomia da mulher – desde então afastada do exercício da ciência falocêntrica – era negligenciada.

Essa negligência nascia justificada pela suposta inferioridade da importância de sua figura diante do homem e era fortalecida pelos tabus sexuais que banhavam de temor a ideia de despir e dissecar um corpo feminino.

A vulva foi apagada e censurada dos livros didáticos e diagramas anatômicos por séculos, ao mesmo tempo em que o clitóris era considerado parte exclusiva de corpos nomeados hermafroditas.

Além das ações para manter à sombra os órgãos sexuais considerados femininos, artistas iniciavam um movimento de sexualização da mulher.

Seus corpos eram pintados em formas exuberantes e vivas, adornados de cabelos e jóias. Durante o século 18, em contrapartida, os desenhos embelezados deram lugar a diagramas inertes.

A mulher, antes evidenciada com luxúria, deu lugar a uma mulher fragmentada, muitas vezes representada por uma figura uterina isolada.

Este comportamento refletia uma percepção cultural das mulheres como receptáculos passivos projetados para a “maternidade acima de tudo” – visão contra a qual lutamos até hoje.

Apesar dos esforços feministas na defesa da representação da mulher em sua inteireza e diversidade, carregamos os resquícios de uma história de negligência e distorção do corpo feminino, o que reflete nossos desafios atuais no cuidado em saúde.

A saúde de nosso corpo se inicia quando somos capazes de percebê-lo, desenvolvendo nosso julgamento sobre o que é favorável a nós mesmos e a como nosso sistema corporal responde ao meio. Nosso contexto social é muito pouco favorável no quesito de percepção corporal.

A educação física nas escolas comuns não passa de umas horas jogos interativos (também importantes), aproveitando apenas uma porcentagem do único momento em que a dinâmica pedagógica abre para o possível contato corporal e percepção de si.

A educação sexual, outro elemento que apresenta um importante papel nessa descoberta, ainda pouco se vê. Falando do sexo feminino, a história fica ainda mais séria. Somos, enquanto seres nascidos com aparelho biológico feminino, identificad@s ou não com o gênero em questão, desestimulad@s a tocar nossos próprios corpos e proibid@s de contemplar nossa própria nudez.

Somos ensinad@s que o toque em nossas vulvas é feio. É vulgar. É sujo.

Como consequência, grande parte das pessoas que apresentam vulvas em seus corpos foram fortemente desencorajadas a conhecer e amar a própria anatomia. Este distanciamento bruto nos leva à ignorância plena do número de orifícios que temos, de qual a cor, o cheiro e o formato natural de nossas vulvas, nos tornando incapazes de exercer o cuidado sobre nossas próprias vaginas.

Como identificamos um problema, se mal sabemos o que é o normal, o saudável, o fisiológico? Neste contexto, acabamos por abrir espaço para aquela que já se fortalecia em paralelo, alimentada pela indústria farmacêutica – a medicina patriarcal.

O cuidado em saúde na área de ginecologia e obstetrícia tornou-se ditatorial e asséptico, em um movimento de desumanização no qual a saúde ginecológica e reprodutiva da mulher é vista como decisão do sistema.

Vou traduzir: Você chega ao médico e aceita com tranquilidade o que lhe é passado, sem contestar, e sem fazer parte da decisão daquilo que fará parte do teu cuidado e do teu corpo.

O anticoncepcionais e a medicalização em excesso trabalham em conjunto para silenciar os ciclos femininos, de forma que a mulher e sua dança hormonal se torne mais linear, racional e apática.

A mulher não cíclica está desconectada de sua força, criatividade e sensibilidade, atendendo ao sistema de forma mais obediente e funcional para aqueles que o dominam.

A vulva medicada não permite a observação das causas que a levaram à recorrente candidíase, impossibilitando o despertar para seus desconfortos mais profundos, muitas vezes oriundos de trabalho em excesso, stress, má alimentação e relações abusivas.

Além da ditadura do anticoncepcional e do tratamento farmacológico sempre apresentado como primeira e talvez única opção, o cuidado clínico na ginecologia é castrador.

O vocabulário utilizado é frequentemente inacessível, no qual são utilizados termos científicos e não compreensíveis à população leiga que busca assistência e a paciente é, muitas vezes, infantilizada.

Não é incomum ouvirmos em consultas os termos “mãezinha”, “pode só usar essa pomadinha”, “vamos tratar isso rapidinho”, sem qualquer preocupação com a completa compreensão do caso pela paciente, além de sua opinião sobre seu próprio corpo e queixa não serem levadas em consideração.

Considerando este quadro atual, a autonomia em saúde da mulher chega como revolução necessária para nossa saúde física e mental e sua execução é uma ação política. A vulva cuidada a partir dos olhos e do conhecimento de quem a possui, tem sua cor, cheiro, textura, sabor e forma reconhecidos e qualquer alteração pode ser percebida pelo próprio indivíduo.

O exame com espéculo ginecológico pode ser realizado em casa pela própria pessoa e permite a auto-observação do muco cervical e do colo uterino, aumentando nossa conexão roubada com nossos próprios corpos.

O tratamento das afecções ginecológicas por meio do uso de plantas medicinais, argila, entre outros elementos acessíveis da medicina popular nos permite refletir sobre as causas de nossos desequilíbrios e a execução do autocuidado.

A terceirização do cuidado em saúde ganhou potência nos últimos anos com a implementação de novas tecnologias diagnósticas e medicamentos de eficácia indiscutível. Apesar do aumento da expectativa de vida como consequência, a hipermedicalização e a desconexão do indivíduo com seu processo saúde-doença vem como barreiras a transpor. O cuidado deve ser vertical, contínuo, conjunto, atento.

Conheça seu corpo, observe-o: recupere a consciência sobre o que te adoece, aonde anda teu bem estar. Toque-se, observe-se. Cuidar de si é um ato revolucionário – e este é só o começo.

tatiana rodarte comunica araraquaraTatiana Rodarte é fisioterapeuta em saúde da mulher, facilitadora de vivências e de grupos terapêuticos. Formada em Fisioterapia pela Unifesp Baixada Santista desde 2015, fez residência hospitalar pela Unifesp São Paulo. Atualmente é pós graduanda em Saúde da Mulher pela UFSCar e tem aprofundado seus estudos na área de autocuidado e sexualidade humana. Realiza atendimentos individuais na cidade de São Carlos. Entusiasta da liberdade de expressão e de todas as formas de amor, acredita que viver com prazer é um ato político.
Facebook: Tatiana Rodarte
Instagram: @tatiana.rodarte

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