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Coluna Tatiana Rodarte: Sexo Casual – dos desejos aos desapegos

Uma noite qualquer, uma saída despretensiosa e o sexo casual: confira o relato da Tatiana Rodarte em sua nova coluna!

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Quarta – feira à noite, você resolve encarar aquele showzinho de mpb que vai ter naquele bar perto da sua casa. Já faz algum tempo que você resolveu lutar contra a constante vontade de viver de Netflix e que precisa lembrar que “não tá tão velha assim e dá conta de uma saidinha” durante a semana. Encontra os amigos, conversa vai, conversa vem. Como de praxe nos grupos dos 20 e tantos e 30 e poucos anos, boa parte da galera já virou casal. Você constata isso novamente, dá aquela suspirada, e procura não lembrar das pressões sociais de estar acompanhada, afinal você está muito bem sozinha, obrigada. Eis que, um amigo, do amigo, do amigo, chega naquele momento da noite em que você já estava calculando se passava a conta no débito ou no crédito. E o cara não é qualquer um.

O dito cujo senta bem do seu lado, deixando o descarado match, já que a aparência dele dá com tudo aquilo que te atrai: altura, cor da pele, sorriso, pá. E agora? Você respira fundo e lembra das mil e uma promessas internas (e recentes) sobre não se envolver, sobre focar seu amor e atenção em você mesma. Mas ele puxa assunto com você e a racionalidade perde lugar pro calor que te sobe. Tá bom vai, vamos tentar só mais essa vez.

O papo desenvolve e você chega na casa dele. Entram no quarto, aquela coisa engraçada pré-sexo, você olhando o suvenir de viagem dele “ah que legal, você já foi pra lá?” blá, blá, blá, ele te interrompe com um beijo e em poucos minutos vocês já estão sem roupa em cima da cama, naquele jogo engraçado de entender os movimentos de quem você acabou de conhecer. No primeiro momento, rola aquele arrependimento, pois você tinha jurado que não ia mais se envolver assim, de cara. Ainda mais depois da história do cara de que “ele tem namorada mas ela mora longe e o relacionamento é aberto”. Aham. Mas seu corpo continua curtindo a movimentação e a culpa vira espasmos pelo corpo. “Quer saber, vou curtir aqui por curtir, quem não gosta de uma transa gostosa no meio da semana, sem compromisso?”. Vocês terminam. Por sorte, foi bom. Nem sempre é bom de primeira. Vocês cochilam um pouco, você toma banho, vai pra casa. Os dias seguem, e claro, nenhuma mensagem. Vocês já sabiam que ia ser assim e ele já tinha dito algo como “melhor a gente não se envolver porque né, já tem um outro relacionamento envolvido”, e você havia respondido, muito sincera, que “tudo bem, mesmo porque só queria se envolver com quem tivesse intenção de ter algo a mais”.

Durante algumas horas, numa noite de quarta feira, você trocou com um desconhecido umas coisas sobre você. Sua nudez, sua forma de demonstrar prazer, um ou outro hábito vergonhoso, algumas virtudes e sonhos. Afinal, é possível fazer sexo casual? Vivenciar um momento de prazer sem qualquer apego ou expectativa, só pela sensação e pela troca do aqui/agora? Conseguir experienciar o sexo sem apego é resultado de maturidade emocional ou falta de sensibilidade cultivada na nossa sociedade do consumo, que parece ter criado até o sexo “fast-food”?

As respostas para essas perguntas ainda estão em branco. Temos refletido muito sobre os tipos de relações e a forma como temos cultivado nossa liberdade sexual. Ao mesmo tempo que é essencial que percebamos que podemos fazer aquilo que for de nossa vontade, parece que caminhamos para o extremo do exercício da sexualidade, alimentados pela pornografia e pelo imediatismo. Na ânsia de sermos livres, temos vivido relações superficiais e saciado nossos egos com prazeres rápidos e furtivos. Depois de anos de repressões e excessos de regras no que tange o futuro das nossas relações, esmagadas nas caixas do casamento, da monogamia e do conservadorismo, como desfazer essas etiquetas, sem ignorarmos o valor da troca que ocorre entre nossos corpos? Entre bares, quartas – feiras, rapidinhas no banheiro, orgasmos com cara de vida inteira, diálogos infinitos e muita, muita terapia, vamos descobrindo juntos o tal caminho do meio. Vem comigo?

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tatiana rodarte comunica araraquara Tatiana Rodarte é fisioterapeuta em saúde da mulher, facilitadora de vivências e de grupos terapêuticos. Formada em Fisioterapia pela Unifesp Baixada Santista desde 2015, fez residência hospitalar pela Unifesp São Paulo. Atualmente é pós graduanda em Saúde da Mulher pela UFSCar e tem aprofundado seus estudos na área de autocuidado e sexualidade humana. Idealizadora do projeto Vulvalivre, realiza grupos terapêuticos temáticos e atendimentos individuais na cidade de São Carlos. Entusiasta da liberdade de expressão e de todas as formas de amor, acredita que viver com prazer é um ato político.
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