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Moradora de Araraquara encara de frente os obstáculos para difundir a cosmetologia natural

A partir da cosmetologia natural, a Flores.seremos está no mercado difundindo a medicina ancestral e os saberes populares

flores.seremos araraquara

Foto: Thiago Schiavon

Eu tive o contato com a Maria Eduarda Senna Pierri apenas uma vez, mas a sua energia e o seu brilho nos olhos, foram dois pontos que eu não esqueci. Ela foi a escolhida para o primeiro vídeo #NAMODA, produzido pela nossa equipe com ideias de looks com peças do brechó online Amor Retrô. Mas entre uma filmagem e outra, conversamos e ela comentou um pouco sobre a Flores.seremos, empresa de cosmetologia que ela cuida há quatro anos.

De lá pra cá, o meu interesse pelo seu trabalho só aumentou. Mulher, empresária e difusora da medicina ancestral: Maria dá um sorriso para o preconceito e encara de frente todos os obstáculos que ainda aparecem.

Ela, que não tinha uma grande verba para iniciar o projeto, economizou todo o dinheiro que ganhava como malabares no semáforo, e foi lá e fez. Ela que ainda ouve comentários de alguns descrentes da sabedoria milenar, vai e lá faz. E faz muito: faz todos os seus biocosméticos, produtos feitos de artesanal e sustentável, além da propaganda, do embalo e das vendas.

Aqui no Comunica Araraquara, nós vamos, sempre, parabenizar e enaltecer os bons exemplos de nossa cidade e a Maria é um deles. Por isso, eu bati um papo com ela para saber mais do projeto Flores.seremos, veja só:

flores.seremos araraquara

Foto: Thiago Schiavon

Maria, como surgiu o projeto?
Eu trabalhei muito tempo fazendo alguns bicos, dentre eles eu era artista de rua, fazia malabares no sinaleiro. Tive um trabalho informal em uma companhia de teatro que foi o que me conectou com maiores responsabilidades e com o palhaço, esse ser tão sagrado. Sou muita grata a todo conhecimento que absorvi na Cia. Burucutu, mas faltava algo. E esse faltava foi gritante para sair me descobrindo. Não tinha um investimento grande inicial, mas tinha um dinheirinho guardado e ganhava linhas, agulhas e afins de pessoas queridas, ao mesmo tempo que comprava muito em brechó. Assim surgiu a Flores.seremos, começando com customização de roupas e costuras de retalhos.

Aliás, de onde vem o nome?
Nesse processo todo fiz um curso de Terapia Floral. Esse sim foi um grande passo pra mim. Descobri muito sobre mim e comecei a tratar minha autoestima, acreditando na minha capacidade. Como o trabalho era todo delicado, fazia muitas flores em artesanato e o meu Eu interior estava florescendo, veio a Flores.seremos.

Quais os produtos que você vende?
Tenho diversas linhas de biocosméticos, que são cosméticos feitos de uma forma ecológica, artesanal e sustentável. Além dos ingredientes serem naturais e veganos, livres de químicas agressivas ao corpo humano. Os cosméticos possuem valores terapêuticos, ou seja, além da higiene eles se integram à aromaterapia (medicina dos óleos essenciais), geoterapia (medicina das argilas) e fitoterapia (medicina das ervas).

Tudo o que você vende, você mesma produziu? E faz tudo sozinha?
SIM! (risos). Tudinho. A parte de produção e manipulação é toda feita por mim, assim como o financeiro, o social mídia, a compra dos materiais e contato com os clientes. Mas tenho alguns parceiros (amigos que se comovem a ajudar): meu companheiro Thiago Schiavon faz as artes gráficas, a Jack Moraes está montando o site, minha irmã Maria Julia embala alguns produtos quando tenho aperto, assim como algumas amigas e meu pai Miguel Pierri ajuda com a organização interna.

E você comentou que está fazendo farmácia, correto? É a segunda faculdade, não é isso? E como surgiu o interesse pela cosmetologia?
Eu até comecei Ciências Sociais e Técnico em Artes Dramáticas, mas não terminei nenhum deles. A Cosmetologia veio bem antes da Farmácia, em 2012 quando viajei para a Chapada dos Veadeiros. Fiquei hospedada em um sítio onde não podíamos utilizar cosméticos convencionais, apenas produtos da Natureza, pois os banhos eram feitos nos rios ou em duchas sobre a terra. Me envolvi demais com essa experiência e quando voltei não conseguia deixar de usar tudo que tinha aprendido ali e fui pesquisando cada vez mais. Nessa época tinha pouco conhecimento sobre Cosmetologia Natural sendo divulgado na internet, então foi muita prática experimental mesmo, baseada em erros e acertos.

flores.seremos araraquara

Foto: Maiara Di Franco

E de onde vem o seu conhecimento para a produção dos produtos?
De outras vidas! (risos). Não sei responder muito bem aos céticos essa pergunta. Hoje tenho uma coleção de livros interessantes, mas confesso que consulto bem pouco eles. É como se o conhecimento estivesse dentro de mim e cada nova receita a intuição vem forte, depois os experimentos e depois o uso. Mas na minha rotina eu tenho rituais especiais para cada feitio de cosméticos e busco me conectar sinceramente com aquilo que acredito.

Li na descrição que você difunde a medicina ancestral. O que seria isso?
A medicina ancestral baseia-se na difusão e resgate de conhecimentos antigos, que vêm das culturas populares e formas tradicionais de medicina: como a ayurveda, fitoterapia chinesa, medicina japonesa, entre outras. São medicinas que estão vigente desde 2000 a 5000 a.C, são muitos anos de conhecimentos e saberes sendo aplicados em diversas gerações, de maneira confiável e utilizados até hoje.

Quais os produtos que você tem disponíveis?
Tenho xampu em barra, desodorante natural, loção de limpeza facial, sérum capilar, aBIOsorventes ECO, máscaras noturnas, almofadinhas de ervas, repelente natural, pó dental, sais de banho, chás terapêuticos, sabonetes e sachês de ervas. Além disso este ano irei desenvolver novos produtos e formulações.

Onde você vende os produtos?
Em feiras livres que acontecem na cidade. Tem o Rolêfeira, a Feira do Meio, Nosso Bazar, algumas em São Carlos e outras mais eventuais por aqui.

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Foto: Cyntia Maria

Hoje, a Flores.Seremos é a sua principal atuação?
É a única. Minha atual fonte de renda e de vida. Esse ano, em julho, completo 4 anos de existência desse projeto.
Mas a Flores.seremos não se resume somente aos produtos comercializados. É um projeto de resgate e difusão de saberes ancestrais, convocando as nossas raízes a emergirem da terra. Nele, eu atuo como Terapeuta Floral com atendimento clínicos individuais, como facilitadora ministrando oficinas privativas e oficinas abertas e gratuitas como acontece na rede SESC, além de palestras em universidades da região sobre medicina ancestral.

É muito difícil ser microempreendedora em Araraquara? Por que?
Hoje estou mais estabilizada, mas o começo é bem difícil. Medos, pressão, cobranças, falta de incentivo, opiniões alheias não solicitadas (acontece rs). Como disse, não tive um investimento inicial forte, não ganhei um carro, nem uma casa, nem recebo dinheiro de ninguém atualmente. Todas as minhas contas são pagas pela Flores.seremos. Hoje tenho muito orgulho em dizer isso, mas antes se parecia mais com um pesar vitimista. Não é fácil, ainda mais com uma graduação. Mas é intenso, traz vitalidade, me sinto cada dia mais empoderada em fazer tudo que faço e acompanhar a evolução do meu trabalho ao longo dos anos. Acredito que o empreendedorismo abre muita oportunidade para mulheres. O registro atualmente é uma das dificuldades, porque MEI tem categorias estritas e um leque mais fechado de denominações, além da cosmetologia artesanal ser descreditada para algumas pessoas.

E qual o seu maior sonho em relação à Flores.Seremos?
Eu tenho uma relação forte com o conhecimento ancestral e popular. Sou neta de uma dirigente de terreiro, que pra mim é uma grande sábia, e toda a minha vida eu passei vivenciando essa atmosfera. Meu sonho é que possamos olhar com mais humildade para essas medicinas, valorizar o conhecimento popular das comunidades e dos mestres populares. Dar voz à benzedeiras, rezadeiras, erveiros, raizeiros. Alguns ambientes e pessoas exalam uma certa arrogância em relação a estes saberes, resumindo, todos esses anos de experiência em ‘expulsão de demônios do corpo’. Obviamente é muito mais que isso: fitoterapia, aromaterapia, moxabustão, acupuntura, florais, homeopatia, geoterapia, climatoterapia, hidroterapia, yoga, xamanismo, dietética, macrobiótica, e assim caminhamos pela cura. Eu sempre brinco: são aproximadamente 5200 anos desde o primeiro registro do uso de ervas para curar contra aproximadamente 200 anos de ciência farmacêutica, como descreditar o mais experiente?

Para conhecer mais o projeto, acesse: www.facebook.com/flores. Telefone para contato: (16) 9.9619.4795

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