Cultura

Travesti de Araraquara integra espetáculo em São Paulo

Vita Pereira está no elenco da peça Madame Satã

madame satã

Foto: Bruno Poletti

A travesti Vita Pereira é a mais nova integrante do consagrado espetáculo Madame Satã.

Sucesso absoluto de crítica e público por todo o Brasil, o espetáculo, que foi montado pelo Grupo dos Dez de Belo Horizonte, volta a São Paulo com uma nova montagem.

Além de Vita, outros artistas paulistas e também mineiros integram o novo espetáculo, que está em temporada no Teatro Jaraguá.

História
Madame Satã é uma biografia de um dos principais personagens brasileiros e tem o objetivo de trazer a reflexão para importantes questões que, infelizmente, perduram até hoje.

O espetáculo discute, sobretudo, sobre o racismo, a homofobia e o machismo, mas também é um retrato sobre a boemia carioca e o nascimento do samba.

Para essa nova temporada, o Madame Satã traz uma trilha inédita e, em algumas sessões, a participação especial do rapper DJONGA em sua estreia como ator.

madame satã

Foto: Bruno Poletti

O espetáculo foi indicado a alguns prêmios e vencedor de outros. Dá uma olhada:

  • Indicado ao prêmio Aplauso Brasil 2018 como melhor espetáculo musical (SP);
  • listado entre os melhores do ano de 2017 na Folha de São Paulo;
  • ganhador do Prêmio Leda Maria Martins 2017, na categoria melhor espetáculo longa duração (MG)
  • indicado melhor ator e melhor atriz no Prêmio Copasa-SINPARC (MG).
  • Em 2015 o Grupo dos Dez foi homenageado e recebeu o XI Prêmio de Direitos Humanos e Cidadania LGBT, da CELLOS-MG, pela montagem do espetáculo.
madame satã

Foto: Bruno Poletti

Orgulho
Vita Pereira comentou sobre a importância de estar no elenco de uma peça como Madame Satã e disse estar realizando um sonho.

Confira o depoimento:

“O teatro é branco. A arte é branca.

Precisamos pontuar essas questões, pois mesmo tendo diversos artistas lgbtqia+ artistas pretos e dissidentes, os espaços de grande circulação essa galera não está.

E o quando nós, pessoas negras estamos nesses espaços, quase sempre são em datas comemorativas como o novembro negro. É preciso entender que nossa arte e nosso corpos transpassam esses lugares.

madame satã

Foto: Sergio Morici

Ser uma corpa Ixtranha, travesti preta, usuária e várias questões que atravessam meu corpo no teatro é um ato de resistência.

No sentindo de que muitos esperam que certos corpos ocupem somente a posição que lhes foram designadas ao nascer.

Nós atravessamos os marcos que projetaram para nossas vidas. Como eu sempre falo, eu sou uma fúria ancestral travestigenere que nasceu com muita fome de comer tudo aquilo que foi retirado dos nossos ancestrais.

Ocupar certos espaços é mais do que dizer que estamos aqui.

Foto: Bruno Poletti

Porque aqui nós sempre estivemos. O que está em jogo são os processos de manutenção e valorização de uma certa parcela de artista em detrimento da inviabilização e marginalização de outras produções. Estar no palco é mostrar que podemos!

É muito notório o desconforto de algumas pessoas quando estou em cena. Quando estou no palco.

‘Mas como assim eu paguei isso para ver uma travesti?’

Já ouvi frases como essas em outros trabalhos que apresentei. E sempre que estou no palco, eu finco meus pés porque eu sei que aquele espaço também é meu.

Como dizem as minhas amigas: ‘eu dou o nome’ e tô trabalhando no mesmo sentindo que as que vieram antes de mim focaram: em abrir fissuras, rachaduras nesse ‘CIS-tema’ para que outras corpas ixtrnhas e marginais passam e reconstruir esses espaços a partir das nossas narrativas.

Foto: Bruno Poletti

Os lugares que pisamos hoje só foram possíveis pois muitas das nossss trabalharam para isso.

Sou a única travesti do elenco do espetáculo musical Madame SATÃ.

É isso já é o começo. Quero ainda ver um palco lotado de pessoas trans e travesti.

Estar nesse espetáculo é um sonho que desde criança tinha. Sempre quis ser atriz e ganhar a vida fazendo o que amo. Minha vida é isso, trabalhar com o que nos foi dado e transformar potência nisso.

Foi muito louco o processo de entrar no elenco do madame SATÃ, pois fui chamada três dias antes da estreia do espetáculo.

Tive dois dias de ensaio intensos. Ensaios que tiveram como a base a preparação corporal, a capoeira de Angola. Está sendo um processo incrível de poder conhecer uma galera que já trabalha há cinco anos com esse espetáculo e realizar esses intercâmbios culturais.

Foto: Bruno Poletti

Estamos vivendo um momento de diversos ataques à conquistas que foram historicamente alcançadas por nossos ancestrais.

Ataques do governo a educação, cultura, saúde, segurança pública e todos esses ataques influenciam em nossas produções artistas.

Falamos sobre a história do madame SATÃ, mas também falamos das questões que estão acontecendo no agora.

O teatro é um processo vivo, por isso não podemos ignorar a conjuntura política atual. Estamos sem patrocínios e com apenas apoios de amigos e pessoas próximas que já conhecem nosso trabalho.

Por isso, chamamos vocês para assistirem e lotarem as bilheterias.

É sobre reparações histórica também, quem têm acessos a privilégios e podem, precisam negociar a realidade. Negociar o que os seus projetaram no mundo e que afetam nossas vidas.

Foto: Bruno Poletti

Vivemos em um país onde a expectativa de vida de uma população trans travesti é de 35 anos. Morremos todos os dias.

A guerra às drogas que mais encarcera a população preta e extermina os que não conseguem prender, realizando o que chamamos de genocídio da população preta.

Essa posição que nosso corpo ocupa é uma posição que está sempre na mira.

Por isso, não podemos parar de fazer o que acreditamos – é um grito de sobrevivência.

Ter pessoas trans e pretas no palco é mostrar que não dá mais para falar sobre nós sem nós! Nossas histórias não podem ser escritas sem nossas corpas transpretaviadas!

Sou travesti multiartista, produtora cultura, curso pedagogia na Unesp Araraquara e sou recém-formada em Teatro pelo Senac Araraquara.

Participei dos principais eventos culturais e de arte da cidade.

Esse ano estive na Semana Luís Antônio com a peça de grande sucesso de público “Subterrâneos” dirigido por Renata Berti.

Ganhamos o edital Território da Arte com o projeto “Residência Artística da Casixtranha”, na qual contou com um duas semanas de produção cultural e debates e no final da semana uma desfile aberto em praça pública “ Encruzilhada Futurista”.

Aliás, assinei a produção, a direção e a preparação corporal. Também apresentamos no Festival Internacional de Dança da Semana com uma performance contando a história do vogue. Estamos em diferentes espaços gritando de diferentes formas e lutando contra essas desigualdades e esse ‘cistema’!”

Foto: Bruno Poletti

Serviço
Madame Satã – Um Musical Brasileiro
Temporada: De julho a 08 de setembro de 2019. Sextas e sábados, às 21 horas, e domingos, às 19 horas.
(Em Setembro espetáculo será apresentado de terça a domingo)
Local: Teatro Jaraguá – Rua Martins Fontes, 71 – Consolação/São Paulo/ SP.
Telefone (11) 95048-0563
Classificação indicativa: 16 anos.

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