Cultura

8 mulheres cientistas de Araraquara que você precisa conhecer!

Conversamos com cientistas da cidade que superam os desafios da pesquisa no Brasil e seguem em frente com seus sonhos!

cientistas de araraquara

Fotos: Divulgação

Você conhece alguma cientista aqui em Araraquara? A gente sabe que tem muita mulher fazendo a diferença na pesquisa e levando o nome de Araraquara Brasil afora, mas conversamos com oito que estão representando essa classe ainda tão desvalorizada e tão cheia de preconceitos. Que tal conhecer os estudos dessas mulheres de fibra e divulgar o talento delas por aí?

Para o Comunica Araraquara, elas falaram sobre seus estudos, como decidiram ser cientistas e quais os maiores sonhos! Confira!

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Barbara Paes Miglioli
“Eu nunca achei que seria cientista. Aliás, minha infância e adolescência foram permeadas por interesse em diversas áreas, e foi muito difícil escolher uma determinada direção pra seguir, pois eu acreditava que, ao segui-la, estaria ‘abandonando’ todos os meus outros interesses. E, na verdade, hoje entendo que ser cientista é exatamente o contrário disso: ser cientista é uma tarefa transdisciplinar. Para ser cientista, não é necessário um dom mas, sim, curiosidade, inquietude e senso de coletividade. Eu me formei em Farmácia-Bioquímica pela UNESP Araraquara e hoje faço mestrado no Laboratório de Farmacognosia. Atualmente eu estudo algumas plantas alimentícias não-convencionais (as chamadas PANC). As PANC não integram a matriz agrícola convencional, entretanto, podem ser facilmente encontradas em quintais, ruas, praças ou outros locais públicos, ou seja, são alimentos que não precisamos necessariamente comprar. Decidi fazer essa pesquisa, pois acredito no potencial revolucionário de uma alimentação com PANC, tanto na esfera social quanto na esfera da saúde e da nutrição. E como boa pisciana, tenho muito sonhos. Sonho que a ciência ultrapasse os muros da universidade e saiba se comunicar com todas as pessoas. Sonho que essas pessoas compreendam a ciência, se interessem por ela e a respeitem, sabendo que por trás do conceito de ‘ciência’ há pessoas que o constroem. Sonho, ainda, que a ciência seja acessível a quem dela quiser participar, e que não seja mais vista como algo tão distante mas, sim, que caminhe lado a lado com todas as outras formas de conhecimento.”

Giulia Polinário
“Eu me formei em Farmácia-Bioquímica pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp de Araraquara, e atualmente estou finalizando o mestrado acadêmico na área de Biociências e Biotecnologia aplicadas à farmácia. Nunca pensei que seria cientista, mas hoje amo dizer que sou! E amo mais ainda o orgulho que sei que meus pais sentem de mim por estar na área acadêmica, pois eles nunca mediram esforços pra que eu caminhasse nessa direção, fui muito privilegiada nessa questão. A minha pesquisa hoje envolve 3 compostos provenientes de uma erva tradicional chinesa que já tem mais de 1000 anos de aplicação na China, com potencial para tratar diversas enfermidades, porém nunca antes estudado frente o bacilo da tuberculose. Os nossos resultados ainda são muito iniciais, porém bastante promissores, exigindo ainda muita pesquisa. A pesquisa no Brasil é extremamente desvalorizada e muitas pessoas acabam não seguindo a área acadêmica pelo fator principal que nos move, o dinheiro. Esse cenário precisa mudar, pois, como estamos observando com a atual pandemia de COVID-19, sem a ciência, tecnologia e a inovação em pesquisa em saúde, todos morreremos por falta de ter meios para lutar contra o que é invisível aos nossos olhos. Nem sempre o que os olhos não veem, o coração não sente! A sociedade precisa exigir que o governo invista mais em pesquisa sim, pois só assim teremos mais cientistas atraídas para ajudar na luta contra o tempo em descobrir não só tratamento eficaz, mas também políticas públicas que tragam conscientização para a diminuição dos casos de muitas outras doenças que já poderiam ter sido erradicadas.”

 

Helena Mannochio Russo
“Eu trabalho em uma área chamada de ‘química de produtos naturais’ que, basicamente, consiste no estudo de substâncias químicas de origem natural (por exemplo: fungos, plantas e bactérias). O foco da minha pesquisa é investigar produtos naturais oriundos de plantas. E sim, eu sempre sonhei em ser cientista. Para ser sincera, eu posso dizer que fui influenciada pelos meus pais, pois os dois também são químicos! Desde criança, eu os via nos laboratórios da empresa em que eles trabalhavam, e tinha essa visão também para o meu futuro. Sempre tive muito apoio deles para chegar onde estou hoje. Para mim, ser cientista é buscar o inexplorado e se entusiasmar com o desconhecido, ao invés de temê-lo. Ser cientista, é buscar conhecimento com amor e perseverança, além de converter as descobertas a um retorno que possa beneficiar a sociedade e, de alguma forma, transformar o mundo em que vivemos hoje em um mundo melhor. Atualmente, nós temos o exemplo dos milhares de pesquisadores ao redor do mundo que estão trabalhando de forma incansável para desenvolver vacinas e tratamentos para o COVID-19. Está na mídia, todos os dias, a quase um ano! O que seria de nós se não fosse por todo esse esforço, dedicação e investimento?”

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Foto: Arquivo pessoal

Amanda Saraiva
“Eu avalio a influência da obesidade materna no desenvolvimento do sistema imune dos filhos, avalio essa influência diante de uma infecção intestinal e proponho uma intervenção terapêutica. Além da parte prática tem bastante estudo também, passo boa parte do tempo pesquisando artigos e trabalhos que possam me ajudar a entender os fenômenos que observo. Desde sempre eu quis trabalhar com pesquisa e me tornar docente, e o caminho pra isso, no meu caso, foi fazer pós-graduação. Assim que me formei já ingressei no mestrado e em seguida no doutorado. Ser cientista pra mim é poder contribuir com um pedacinho da história. Nós trabalhamos por anos e conseguimos colocar uma pecinha de um quebra-cabeça gigante, mas que para ser montado, precisa de cada peça no seu lugar. Poder contribuir com o desenvolvimento de uma terapêutica ou com o funcionamento de um sistema biológico é muito gratificante. Meu sonho para o futuro é um Brasil que volte a investir em ciência e educação. Hoje estamos assistindo ao sucateamento e à desvalorização profissional dos cientistas em todas as áreas. Universidades federais correndo o risco de fechar as portas, e com ela veremos o fim de muitas pesquisas que rolam por lá.”

Gisela Bevilacqua Rolfsen Ferreira da Silva
Minhas pesquisas de mestrado e doutorado foram realizadas na UNESP, sob coordenação do Prof. Dr. Anselmo Gomes de Oliveira, e ambas apresentaram temas voltados para área de Nanotecnologia Farmacêutica e Câncer. Já minha pesquisa de pós-doutorado foi realizada na UFSCAR de Sorocaba, UNESP Araraquara e UMINHO em Portugal. Esta pesquisa foi supervisionada pelo prof. Fábio de Lima Leite, Prof. Dr. Anselmo Gomes de Oliveira e Prof. Dr. João José Cerqueira, respectivamente. O objetivo desta pesquisa foi incorporar um fármaco já muito utilizado para Esclerose múltipla, num sistema na ordem de nanômetros, de modo que fosse atingido o Sistema Nervoso Central de maneira mais eficiente que os comprimidos administrados sob a forma oral, existentes no mercado. Os resultados foram muito bons e estamos na fase de escrita e correção dos artigos científicos. Ser cientista é você, com um grupo de pessoas, fazer uma descoberta, ou procurar um tema, que ainda precisa de resposta ou solução, ou uma melhor solução do que as já existentes, para auxiliar pacientes, ambiente, tecnologias, etc., e assim contribuir com o mundo científico. Mesmo que você obtenha uma resposta negativa da sua pesquisa, você terá contribuído de forma positiva para a Ciência, pois os futuros cientistas saberão um caminho que não deve ser seguido. Também acredito que ser cientista é você aprender novas técnicas, se aprofundar e estudar novo temas, e tentar aprender tudo que existe sobre aquele assunto, para que consiga extrair novas hipóteses e ideias. E assim começar novas etapas, através de tentativas e erros. Se dermos sorte, os erros serão menores que os acertos.

Camila Maringolo Ribeiro
“Eu trabalho com a pesquisa de novos tratamentos para tuberculose. Nesse projeto estou desenvolvendo um sistema para que o fármaco atinja a bactéria de forma mais direta, e talvez assim, consigamos um tempo menor de tratamento e menos efeitos colaterais para os pacientes, é o nosso grande objetivo! Hoje em dia, o tratamento dura pelo menos seis meses e temos muitos casos de bactérias super-resistentes, então precisamos novas maneiras de tornar o tratamento mais eficiente. Eu já achava que eu gostaria de trabalhar em laboratório, mas quando comecei a iniciação científica no segundo ano da faculdade, me apaixonei pela ciência. Para mim ser cientista é ser curioso e inconformado ao mesmo tempo. Inconformado no sentido de não se contentar com a realidade atual e pensar e agir para transformar o mundo em um lugar melhor. Melhor em todos os sentidos, porque há ciência em tudo! É querer saber como as coisas funcionam e como podem ser aprimoradas. É querer promover às pessoas mais saúde, mais qualidade de vida e mais tecnologia. Eu sonho com um país e um mundo que valorizem mais a educação e a ciência, porque essas são as engrenagens para um mundo melhor.”

Fernanda Manaia Demarqui
“A minha pesquisa está relacionada a mecanismos de resistência à antibióticos desenvolvidos por Mycobacterium tuberculosis, a bactéria que causa a tuberculose. A tuberculose, mesmo sendo uma doença com tratamento eficaz e estabelecido, está entre as 10 doenças que mais matam no mundo devido à alta taxa de resistência aos antibióticos da terapia. O laboratório onde desenvolvo minha pesquisa é referência no Brasil na pesquisa de novos fármacos contra a tuberculose. Poder contribuir de alguma forma com a desaceleração das mortes causadas por tuberculose é a minha motivação. Eu me lembro do dia em que decidi ser cientista, foi um sonho que nasceu como uma resposta a todas as dúvidas da época do vestibular. Eu não sabia como era a carreira de cientista no Brasil, mas decidi mergulhar nesse mundo. Para mim ser cientista é buscar caminhos para um mundo melhor. Através da ciência podemos entender processos, mecanismos e descobrir novas tecnologias para que o planeta seja um lugar melhor para se viver. Meu sonho para o futuro é um mundo em que a ciência esteja ao alcance de todos, em que a população se beneficie ainda mais com as pesquisas feitas na universidade. Pensando em mim, meu sonho é poder continuar trabalhando com pesquisa e ciência e ter a profissão cientista mais reconhecida em meu país.”

 

Luana Dias
“Atualmente estou cursando Doutorado em Reabilitação Oral na Faculdade de Odontologia de Araraquara – UNESP. Aqui, também cursei o mestrado na mesma área. O curso de Reabilitação Oral atualmente está presente no programa de Odontologia com CAPES 6 reconhecido pelo MEC, em que a nota máxima é 7. Quando somos criança temos sonhos, e trabalhar com pesquisa científica sempre foi o meu. Nas universidades existe um programa denominado ‘iniciação científica’, o qual o aluno inicia a sua caminhada no mundo da ciência através da oportunidade de ser orientado por pesquisadores da área. Durante a minha graduação, uma querida professora me apresentou ao ‘encantado mundo da Academia’. Dentre erros e acertos, fui traçando o meu caminho na universidade voltado para estudar Reabilitação Oral no programa mais bem avaliado do estado de São Paulo. Desde então, venho me dedicando a construir minha carreira com muito comprometimento, seriedade, e principalmente DEDICAÇÃO. O meio acadêmico ainda é um ambiente machista, branco e extremamente desvalorizado no nosso país. Ser cientista nos tempos atuais é ser RESILIENTE, e acima de tudo, acreditar na capacidade que à ciência possui de salvar/melhoras vidas. Existe um fenômeno denominado ‘Fuga de cérebros’ que consiste na grande quantidade de doutores que preferem deixar o Brasil para continuar pesquisas em outro país. Várias universidades no exterior estão criando programas de atração de talentos internacionais. Em países como Japão, EUA e China, mais de 60% do total de seus pesquisadores estão alocados em empresas, no Brasil esse percentual é de apenas 18%. Meu sonho para o futuro é que os governantes possam reconhecer o cientista como um grande aliado no desenvolvimento socioeconômico do país, proporcionando condições dignas de trabalho e incentivo para o avanço das pesquisas científicas”.

 

 

 

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