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A luta da araraquarense trans e negra que sonha em ser professora!

Erika Matheus batalha para lecionar em uma Universidade Pública de prestígio no país

erika matheus professora

Fotos: arquivo pessoal

Ela ainda é bem jovem, tem apenas 20 anos, mas sabe bem o que quer do futuro: ser pesquisadora e professora em uma Universidade Pública de prestígio no país. Mas a araraquarense Erika Matheus sabe que o seu caminho será mais longo que o das outras jovens de sua idade.

Isso porque Erika é uma mulher negra e trans, que se descobriu em um corpo de mulher já na infância, mas só conseguiu ser quem sempre quis há poucos anos: “eu reprimi a mulher que eu sempre fui por 17 anos da minha vida”, diz.

Com o dia 15 de outubro se aproximando, data comemorada o Dia do Professor, nada melhor do que contar a história de quebra de estigmas e de luta de uma pessoa que só deseja lutar pela educação no país.

Confira a entrevista!

E você é estudante de Letras da Unesp, né? Queria saber sobre a sua entrada na universidade pública. Foi muito difícil?
Isso, sou estudante de Letras aqui da Unesp e a minha trajetória foi meio difícil. No final do ano de 2017, eu terminei o Ensino Médio e fiz a prova para entrar na Universidade Pública aqui na cidade. Porém, eu não consegui por pouquíssimos pontos. Daí, eu entrei em um cursinho popular aqui da cidade, o Cuca, que aliás é um cursinho público de extensão da própria Unesp e algo que eu totalmente indico para quem está pensando em entrar em uma Universidade – eles dão uma base incrível para a gente. Mas foi difícil porque nesse período eu estava iniciando a minha transição. Meu emocional estava com um turbilhão de coisas, por isso, ter conciliar as coisas externas com as internas foi algo um pouco difícil. Aí, no ano de 2018 para 2019, eu prestei o vestibular e consegui passar no curso que é o meu sonho desde os meus 13 anos, o curso de Letras.

Hoje você é escritora e palestrante, certo? Do que você gosta de escrever? E sobre o que você fala em suas palestras
Eu sou escritora e ainda não tenho nada publicado por uma editora, mas pretendo. Eu gosto de escrever crônicas e contos e eu me encontrei bastante – por incrível que pareça – nos contos eróticos. É algo que eu tenho uma certa fluidez na literatura e nos aspectos narrativos. E as minhas palestras são voltadas ao tratamento dos temas gênero, sexualidade e raça. É para ajudar as pessoas a entenderem como é em especial a vivência de mulheres trans e negras dentro da sociedade.

E quando se descobriu uma mulher trans? Já na infância?
Eu passei a me ver como uma mulher – lembro nitidamente, como se fosse ontem – a partir dos meus 3 anos de idade. Eu não me identificava com aquilo que diziam que eu era, em todos os sentidos, interno e externo. Foi algo muito complicado porque eu sempre tinha crises emocionais e até tentei mutilar meu órgão quando eu era criança. Enfim, crises e mais crises. A partir dos meus 17 anos eu comecei a minha transição. Bom, ali nos meus 15 anos eu já percebia que eu precisava externalizar isso, mas por ter sido criada no âmbito cristão e tradicional, eu me reprimia muito. Foi algo bastante difícil.

Como foi esse período de transição? Foi muito difícil?
Aos poucos eu passei a explicitar a minha identidade de gênero. Primeiramente em relação às roupas que eu acredito que sempre são o primeiro passo e depois, passei a me explicitar enquanto uma mulher, passei a declarar isso publicamente. Depois passei pela escolha de nome e então, a retificação e tudo mais. Mas para que tudo isso de fato fosse efetivado foi um processo demasiadamente complexo e difícil. É totalmente opressivo você reprimir quem de fato você é por muitos anos da sua vida. Eu reprimi a mulher que eu sempre fui por 17 anos da minha vida, então realmente foi algo muito difícil.

E já sofreu preconceito por ser trans e racismo por ser negra?
Já sofri estigmas por ser uma mulher trans e por ser uma mulher preta, sim. São estigmas que a nossa sociedade precisa se reconstruir para que não haja mais ou pelo menos, para que haja uma minimização. Mas já passei sim, seja de uma forma implícita, explícita… Quando eu adentrei no âmbito universitário, subestimaram a minha inteligência por eu ser uma mulher trans negra. Eu lembro que uma vez eu escrevi uma resenha de uma matéria que era de linguística, que é a área que eu tenho uma paixão enorme, e ficou – modéstia à parte, muito bem escrito e pensado, e as pessoas tinham certo choque em relação a isso. Eu sinto o preconceito até mesmo no âmbito da intelectualidade, sendo que qualquer pessoa, qualquer ser humano pode avançar nessa questão.

Para outras mulheres que também passaram por situações de preconceito e racismo, qual o recado que você pode dar?
Para outras mulheres como eu, que passam por misoginia e racismo, eu digo que não desistam de ser as mulheres empoderadas e fortes que são porque infelizmente existe uma divisão social e nós estamos na base da base. E se nós estamos aqui, lutando por quem nós somos e conquistando mesmo que aos poucos os nossos direitos de estarmos em vários espaços, mostrando a nossa potência enquanto seres e sujeitos efetivamente é porque nós realmente temos capacidade, como qualquer outra pessoa. Então eu digo para não desistirem e apenas irem se refinando cada vez mais para mostrarem ao mundo as mulheres fortes que realmente somos.

E qual o seu maior sonho?
É uma pergunta bem complexa porque entra no âmbito intelectual e afetivo. Desde criança eu sempre quis ter alguém do meu lado, em relação a afeto, e à medida que eu fui crescendo e vendo que para pessoas pretas isso é de uma forma mais estreita e mais complicada, isso já foi me dando certas ansiedades. E a partir do momento que eu me vejo então como uma mulher trans e negra isso se acentua ainda mais. Existe a questão da sexualização e do não reconhecimento de nossos corpos enquanto pessoas que de fato somos e queremos amar. O meu maior sonho, no sentido afetivo, é ter alguém que me compreenda e que me aceite como a mulher que realmente sou e que não tenha vergonha, como alguns homens ainda têm quando se envolvem com mulheres trans. Felizmente, hoje eu encontrei essa pessoa e ele tem sido incrível para mim. Já no âmbito intelectual, meu maior sonho é estar como uma professora formada, mestrada, já ser uma doutora, uma pesquisadora na área da linguística que é o meu foco e estar lecionando em alguma Universidade Pública de prestígio do país. Quero ocupar meu espaço que é meu de direito também.

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