Cultura

Agente de trânsito trans de Araraquara fala sobre preconceito e aceitação!

Veja o forte relato de Enzo Colina Moro sobre o período de transição

agente de trânsito trans araraquara

Fotos: Reprodução/Facebook

Há um mês, Enzo Colina Moro trabalha como agente de trânsito transexual de Araraquara.

Ele, que decidiu prestar o concurso municipal em busca de melhores condições de vida, se diz surpreso com a boa receptividade na corporação – ainda mais com o histórico de difíceis situações que já passou ao longo de sua transição.

Desde criança, Enzo já sentia que não pertencia ao corpo que nasceu e pensava em uma nova vida. O período de aceitação e de mudança não foi nada fácil, e ele conta como foi o processo neste importante relato, cheio de superação e emoção.

Que tal aprendermos um pouco mais e acabarmos com o preconceito? Vamos juntos nessa?

“Quando eu decidi prestar o concurso para ter uma vida melhor. Eu pensei que se eu passasse em um concurso público, talvez eu tivesse mais oportunidade de evoluir na vida, de ter uma casa própria, fazer faculdade, enfim, oportunidades melhores.Mas eu tinha medo porque sabia que seria difícil uma pessoa trans entrar. Mesmo assim, eu resolvi tentar.

Dentro do meu trabalho eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito, inclusive, posso dizer que fiquei surpreso pela forma que eu fui recebido. Muitos deles, como o meu próprio comandante, me apararam neste momento. Mas fora do meu trabalho eu já sofri muito preconceito. Inclusive, já até deixei de ir a consultórios médicos, ir a bares, baladas e tantos outros lugares que precisavam apresentar o RG. Eu ainda estava em transição e todo o tipo de olhar era horrível; as pessoas julgam muito com o olhar.

Eu percebi que eu não me identificava com o meu corpo desde a minha lembrança mais antiga; eu lembro que assistia à novela Chiquititas e nunca queria ser uma menina, sempre queria ser o menino. Então, desde sempre, eu sabia que era isso que eu era, mas ao mesmo tempo não sabia, entende? Eu passava muito tempo imaginando como seria a minha vida se eu fosse um menino, se eu seria feliz ou se um dia eu conseguiria me sentir feliz.

O meu processo foi muito difícil porque quando eu comecei, há seis anos, eu não tinha muitas informações. Isso não era dito na mídia. Eu consegui de fato começar a minha mudança quando uma menina, que eu tinha no Facebook, começou a sua transição. Eu lembro que quando eu vi, eu pensei: ‘é isso o que eu sou!’. Aí eu chamei ele para conversar e ele me explicou muitas coisas que eu não sabia, muitas informações que eu não tinha.

Eu iniciei a minha transição por conta própria e foi bem difícil porque a minha família teve um pouco de dificuldade de aceitação, até porque eles não tinham informações. E era muito difícil. As duas primeiras pessoas que eu contei foram as minhas avós: materna e paterna. E as duas me ampararam. Eu disse toda a verdade, que não ia aguentar mais viver daquela forma e que eu ia acabar morrendo porque eu não me identificava e tinha que viver uma vida que não era a minha. E isso era cruel.

Hoje a minha convivência com a família é muito mais amigável porque aos poucos eles foram entendo que eu não escolhi viver assim, eu nasci assim. Eles entenderam que eu sou assim e tudo bem. Foi difícil porque ninguém – nem eu e nem eles – tínhamos informações. Como eu ia explicar para eles algo que nem eu entendia direito?

Eu acho que o tabu em relação ao gênero tem que ser mudado de dentro pra fora – ele tem que começar por nós. Talvez até possa soar um pouco preconceituoso o que eu vou dizer em relação ao olhar das outras pessoas, mas eu digo porque eu já presenciei: eu acho que às vezes, nós que somos da militância LGBTQIA+ tentamos impor a nossa existência e isso não leva ninguém a nada. E aí fica essa briga com um muro entre a gente que não nos leva a lugar nenhum. Para mim, a base para se mudar um tabu e para que se construa o respeito é o diálogo, é você conversar. Tudo bem as pessoas não concordarem, mas antes de opinarem sobre qualquer assunto, a gente tem que ter o mínimo de conhecimento sobre o assunto. E tudo bem ela achar que isso não é certo para a vida dela, mas nem tudo que é para ela é para o outro. O que é bom para você, pode não ser bom para mim, mas isso não impede de sermos pessoas boas, de dialogarmos e de trocarmos conhecimento.

Bom, o meu sonho? Eu acho que sonho são coisas que construímos ao longo da vida. Quando eu era criança, eu sonhava em ser homem; quando eu tinha uma moto, eu sonhava em ter um carro. Mas hoje, o meu maior sonho é poder ter um filho com a minha esposa.”

LEIA TAMBÉM

+ Influenciadoras plus size de Araraquara espalham autoestima no Instagram e na vida real!

+ Ariel de Araraquara: ela ama de paixão a personagem da Disney e não tá nem aí para as críticas!

+ Autodidata, músico de Araraquara emociona quem passa pela Rua Gonçalves Dias!



Comentários

Your email address will not be published. Required fields are marked *