Cultura

Araraquarense explica como brancos devem lutar contra o racismo

Entender que a luta é de todos é primeiro passo

Foto: Comunica Araraquara

Essa semana, as redes sociais do mundo todo foram tomadas por hashtags que tinham o objetivo de escancarem o racismo que as pessoas negras ainda sofrem.

Tudo começou após a morte de George Floyd, que foi brutalmente assassinado nos Estados Unidos. A partir disso, manifestações nas ruas e na Internet começaram a acontecer por toda a parte.

Por isso, nossa equipe conversou com Erica Alexandre, colunista do Comunica Araraquara, para entendermos como todos nós, juntos, devemos lutar e acabar com o racismo.

Vamos aprender com a Erica?

Entenda a necessidade da discussão

“Quando falamos em racismo é automático aquela clássica torcida de nariz de todas as partes: dos negros, porque já estão cansados de explicar algo que deveria ser óbvio desde sempre e dos não negros, por acreditarem que essa discussão é exagerada. Como não vivenciarem essa realidade todos os dias, não entendem o que realmente acontece e quais as consequências que as atitudes racistas podem causar na vida das pessoas.”

Negro ou preto?

“Não é ofensivo chamar as pessoas de pretas, desde que as mesmas concordem com isso.

Na verdade, existem duas vertentes para esta questão. Em uma conversa anterior vimos que o preto é geralmente associado ao lado negativo, á coisas ruins… porém, a palavra negro também vem de um significado digamos, não tão bonito. Uma de suas vertentes diz que a palavra se origina do Grego Nigro, ou seja, inimigo.

Vemos essa dualidade bem explicada no termo em inglês ‘nigga’, ou negro em português. Alguns a utilizam hoje como forma de elevação, dando um novo significado, enquanto outros a abominam, tendo em vista que era a forma como os senhores de escravos chamavam suas ‘propriedades’.

Minha avó por exemplo abomina ser chamada de preta, já eu, até prefiro o preta, pretinha, pretona…”

Discuta sobre o racismo

“O racismo, na verdade, é algo que deveria mais ser discutido entre os não negros do que entre os próprios negros.

Para que vocês entendam melhor, vamos compará-lo a um câncer – é uma comparação mais próxima da realidade possível.

Quando se tem um câncer temos duas opções: tratá-lo e tentar de todas as formas cuidar e eliminar, ou fingir que ele não existe, esconder a verdade e viver como se ele não existisse. Mas mesmo que você o ignore, ele ainda está ali, consumindo todo o interior da pessoa até que ela seja tomada por inteiro e não sobreviva mais.

Assim é o racismo, ou discutimos e procuramos maneira de se não eliminar, pelo menos diminuir; ou fingimos que ele não está ali, seguimos nossa vida de maneira individual, como em uma bolha até que ele bata a nossa porta.

E no final ele sempre bate…

Não tem como fingirmos que o assassinato de uma criança em seu próprio quintal, de um músico com 80 tiros dentro de seu carro, de uma vereadora em pleno centro de uma capital brasileira, de um pai de família asfixiado pelo joelho de um policial nos EUA, pela morte de uma criança dentro de uma van ao lado de sua avó, de um adolescente asfixiado com um “mata leão” dentro de um mercado na frente de sua mãe não tenham nada a ver com racismo. Coincidentemente em todos esses casos a etnia das vítimas era a mesma. Em diferentes tonalidades, mas a mesma.

Os negros no Brasil só puderam ascender, evoluir socialmente de 132 anos pra cá. É muito pouco tempo, muito tem que ser corrigido e isso começa em casa, começa em cortar do roteiro das piadas de domingo as piadas racistas, em parar de enviar por whatsapp o negro de pênis avantajado, em não chamar o cabelo crespo da amiguinha da sua filha de carapinha ou Bombril, em não chamar uma mulher negra bonita de Globeleza ou mulata…”

Entenda a importância do Dia da Consciência Negra – de uma vez por todas

“Pessoas brancas, por exemplo, podem se orgulhar de sua ascendência italiana, alemã, francesa, ou até belga. Mas como um negro brasileiro faz pra saber de onde veio? Falta esse referencial, falta ele saber que não descende de escravos, mas sim de povos, de impérios que antigamente foram sinônimo de riqueza e com o tempo e após conflitos internos se tornaram escravos.

Por essa questão de referencial, temos o 20 de Novembro. É uma data simbólica, uma homenagem justa que tenta de maneira simples explicar a pluralidade do Brasil, que tem heróis tanto negros quanto indígenas, brancos e etc. Essa data coloca Zumbi, Tiradentes e Marechal Deodoro em um mesmo patamar de importância para o desenvolvimento de nossa história. Essa data inclui os negros na sociedade, mas finalmente, de uma maneira positiva.

Mas mudar é difícil, nem todos reagem bem. Essa pandemia mesmo está aí pra mostrar como é difícil mudar certos hábitos. É difícil ser empático em um mundo, em uma sociedade que prega o egoísmo constantemente”.

Branco entenda: você é sim, privilegiado

“O egoísmo começa por exemplo, quando um branco reclama em suas redes sociais que um negro cotista roubou sua vaga na universidade. Na verdade, o que ‘roubou’ sua vaga foi sua incapacidade de estudar o suficiente para aquela vaga, já que a política de cotas vai contemplar apenas uma porcentagem pequena das vagas. Se ela contempla, por exemplo, 30% das vagas, o que impediu que este branco ocupasse os outros 70%?

São esses questionamentos que precisam ser feitos.

Não tem como falar de meritocracia, por exemplo, em um país tão desigual quanto o nosso.

O governo vai e lança uma campanha que diz: ‘estude em casa como puder na quarentena’.

Como o menino pobre que mal tem energia elétrica e água encanada vai estudar? Como uma mãe ou pai que as vezes é analfabeta vai ensinar seu filho um teorema de Pitágoras, ou as leis de Atração da Física? Os princípios e a determinação vão ensinar sim, melhor que muitos pais ricos, inclusive, mas o que vai levar seu filho á uma universidade no futuro, isso infelizmente não terão.
Como vamos falar “Girl Power” para uma mulher que sofre violência em casa e pode se tornar uma vítima de feminicídio daqui alguns dias?

Cito esses exemplos relacionados ao racismo pois sabemos bem qual a etnia da maioria da população pobre e qual a etnia de 70% das mulheres que sofrem feminicídio.

O racismo tem que ser discutido, tem que ser debatido sim. Ele é ocasionado por pessoas de ações e pensamentos ignorantes e sabemos bem qual a melhor forma de combater a ignorância: conhecimento”.



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