Cultura

De Araraquara para o mundo: bailarino do Vale do Sol é integrante de companhia na Europa!

A partir de oficinas culturais gratuitas oferecidas pela cidade, José Paulo dos Santos conseguiu realizar o sonho de ser bailarino

bailarino araraquara bélgica

Foto: Divulgação

Ao ouvir um carro de som passando pelo seu bairro, o Vale do Sol, José Paulo dos Santos nem imaginava que sua vida ia mudar completamente: ele iria se tornar um bailarino!

É que o carro avisava sobre uma oficina gratuita de dança, que seria promovida pela Prefeitura, em 2001. E como uma criança muito curiosa e que vinha uma família de sambistas, ele resolveu aproveitar.

E foi assim que a vida do bailarino começou a dar outros passos.

Nesta entrevista, o bailarino José Paulo dos Santos, que é integrante da companhia Rosas, localizada em Bruxelas, na Bélgica, contou sobre sua trajetória e os obstáculos que já enfrentou.

“Quanto mais ‘preconceitos’ eu recebia, mais eu tinha gana de continuar a dança; acredito que isso era mais forte que eu”.

Confira!

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Foto: Divulgação

O seu começo na dança foi a partir de aulas de sapateado aqui em Araraquara, certo? Como foi isso? E quantos anos você tinha?

Comecei a dança nas Oficinas Culturais do Projeto Rithmus de sapateado, implantado no Bairro Vale do Sol no governo Edinho Silva em 2001, quando eu tinha 12 anos. O projeto Rithmus foi a primeira oficina cultural de dança oferecida e implantada na cidade de Araraquara. Graças a proposta da Gilsamara Moura (presidente da Fundart e também coordenadora do projeto) e também do Kleber René, que se propôs a trabalhar como voluntário ministrando aulas de percussão corporal e sapateado. Eu fiquei sabendo através de um carro com um autofalante que passou nas proximidades do meu bairro, o Vale do Sol. Fiquei simplesmente curioso sobre essa linguagem corporal, pois minha família vem do samba, e o sapateado é totalmente musical. Já na primeira aula, eu fiquei apaixonado pelo o ritmo e pela sua essência, e falei pra minha mãe que era isso que eu queria. No mesmo ano, recebi uma bolsa no “Centro de Dança Gilsamara Moura” para fazer aulas de ballet, dança contemporânea e dança de rua.

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Foto: Divulgação

E se não fosse um programa cultural gratuito, você conseguiria fazer aulas de dança?

Eu nasci e cresci no bairro periférico de Araraquara. Graça às políticas públicas implantadas nos bairros periféricos de Araraquara pelo Edinho Silva a partir de 2001 que algumas pessoas puderam realizar os seus sonhos. Eu fui um deles, que a partir desta oportunidade, conheci pessoas maravilhosas que me deram todo apoio necessário. Meus pais são divorciados e fui criado somente por minha mãe com mais dois irmãos. Minha mãe não tinha condições financeiras para me oferecer aulas de dança em uma escola particular de dança. Mais uma vez, graça a Gilsamara Moura que acreditou no meu trabalho e esforço, me ofereceu aulas de dança na escola dela.

De Araraquara você já conseguiu uma oportunidade no exterior? Como foi a sua trajetória?

Em 2008, a Gilsamara Moura, o Fábio Costa, a Luzinete Silva e eu fomos convidados para participar de uma residência internacional artística em Lima, no Peru, dirigida pelo multiartista Khosro Adibi (Irã-Bélgica-Holanda). O projeto I.P.L reuniu artistas da América Latina e da Europa durante um mês. Depois desta experiência, Khosro Adibi veio para o Brasil a convite de Gilsamara para idealizar um workshop de dança contemporânea. Então ele, no final do workshop me convidou para fazer mais um projeto de residência artística de dança contemporânea em Belo Horizonte e mencionou a escola P.A.R.T.S (Performing Art Research and Tranning Studios) dirigida por Anne Teresa De Keersmaeker em Bruxelas, na Bélgica. Ela é uma escola muito importante no mundo em formação em dança contemporânea e teoria na área. Foi assim que Khosro enviou meus dados para o diretor da escola e fui selecionado para a audição final com participantes do mundo inteiro. Edinho Silva, Gilsamara e Khosro, entre outras pessoas, me ajudaram financeiramente e moralmente para eu pudesse fazer a audição e então, depois de duas semanas, recebi uma resposta positiva.

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Foto: Divulgação

Como a escola P.A.R.T.S é internacional, eu não falava inglês antes de ir, e todas as aulas na audição foram em inglês. Recebi uma bolsa de estudos em uma escola de idiomas em Araraquara para aprender o inglês e depois tive aulas de inglês na P.A.R.T.S. Fiz minha formação na escola em dois ciclos: o Ciclo de Treinamento, em 2 anos; e depois, o Ciclo de Pesquisa, também de 2 anos. No último ano da escola com três outros estudantes, fizemos a peça de graduação ‘111-1’, onde foi apresentada em 7 países diferentes. Depois da graduação em 2012, voltei para o Brasil durante 6 meses para trabalhar no “Fronteiras”, projeto social dirigido por Khosro em Araraquara. Voltei para Bruxelas para trabalhar em uma peça de teatro com Mokhallad Rasem (Iraque-Bélgica) para Romeo e Julieta no Teatro Toneelhuis em Antuérpia, também para re-criação da peça Zeitung de Anne Teresa De Keersmaeker (Bélgica). Em 2014 e 2015, trabalhei como bailarino na peça Primitive de Claire Croizé (França-Bélgica) e para a criação de Removing de Noé Soulier (França) onde fizemos uma versão na Foundation Luis Vuiton em Paris. Desde 2015, sou bailarino da Companhia Rosas de Anne Teresa De Keermaeker e danço varias peças, entre elas as peças de repertório e também criações de novos espetáculos apresentados em vários países diferentes. Mesmo graduado na escola P.A.R.T.S, eu tive que passar por uma audição para ingressar na companhia. Lembro que a princípio era para substituir um bailarino, mas depois fiquei até hoje.

Como tem sido a sua atuação na pandemia? Tem feito espetáculos online?

A companhia Rosas teve um impacto importante como todo o setor cultural no mundo inteiro. Desde de março até junho a Bélgica incorporou um confinamento geral, onde só o essencial era permitido. Depois do mês de junho, a companhia voltou as suas atividades, mesmo com poucos espetáculos. Aqui na Bélgica todos os artistas foram compensados financeiramente pelo governo durante a pandemia. Na segunda onda do vírus, a companhia teve de tomar algumas decisões importantes vendo que os espetáculos estavam sendo anulados. Fizemos um espetáculo online, um projeto em um museu na Alemanha e várias semanas de pesquisa no estúdio da companhia, logicamente respeitando todo o protocolo do governo belga.

Você já sofreu algum preconceito por ter vindo da periferia ou por ser homem na dança? Ou ainda, lembra de alguma situação de racismo?

Sim, preconceito existe e sempre existirá. Tenho algumas memórias na escola, onde alguns colegas sempre faziam comentários. Isso nunca me feriu e nunca me ferirá. Pelo contrário, quanto mais “preconceitos” eu recebia, mais eu tinha gana de continuar a dança; acredito que isso era mais forte que eu. Eu considero a dança como uma forma de expressão, não só corporal, mais como uma militância e intelectualidade. Quando conto minha história para as pessoas, sempre cito que comecei minha carreira em um projeto social, mesmo vindo de um bairro periférico e sendo negro. Tenho o maior orgulho!

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Foto: Divulgação

E qual o seu maior sonho?

Tenho vários sonhos, um deles se concretizará em breve. Vou ser pai de gêmeos. Eu sei que será uma responsabilidade imensa, e por isso que quero vivenciar essa aventura e criar dois indivíduos para um mundo melhor. Um outro sonho é de poder trabalhar mais vezes com projetos sociais. Como eu venho de um projeto social, tenho essa vontade e dever de poder compartilhar minha experiência na dança especialmente com pessoas de baixa renda, ou que não tem acesso para pagar uma atividade cultural.

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