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Coluna Erica Alexandre: As Belas e Negras Noites de Julho

Confira mais uma colaboração da nossa colunista Erica Alexandre!

Foto - Arquivo Pessoal Maria Nazaré Salvador

Era comum, todo mês de Julho durante as férias escolares passava muito mais tempo na casa de meus avós. Por sorte, algumas casas depois se encontravam minhas tias, primos e minha bisavó. Nos anos 90 a vida no Carmo era tranquila e este caminho minha prima e eu fazíamos a pé sozinhas pelo menos umas cinco vezes ao dia. Independente do ano, sempre nesta época só se falava de uma coisa: Festa do Carmo. Tanto a Festividade Religiosa quanto a Festa Negra eram prioridade para minha família e não só para a minha mas para quase todas as famílias Negras de Araraquara, sejam elas da Vila Xavier, do Santana, do São Geraldo ou de tantos outros bairros da cidade.

O que contarei aqui para vocês são as histórias de minha família e de tantas outras. E assim como uma boa história, a história da Festa do Carmo tem várias versões. Peço que conheçam a minha, ou melhor, a minha e de toda uma ancestralidade que viveu e me contou tudo isso.

A maior parte da população negra Araraquarense trabalhava na Ferrovia. Araraquara por localizar-se na região central do estado de São Paulo é uma cidade que acolheu e também exportou muitas pessoas. Com o tempo muitos se mudaram da cidade, mas deixaram aqui amigos e parentes que religiosamente durante o mês de Julho visitavam para contar as boas novas em suas novas cidades, relembrar o passado, contar suas esperanças no futuro, enfim. Mas por que o mês de Julho? Dia 16 de Julho é dia de Nossa Senhora do Carmo e em comemoração a este dia uma linda quermesse é feita em homenagem à santa por seus devotos. Devotos esses em grande parte negros, que residiam no bairro, um dos mais antigos da cidade.

Julho no Bairro do Carmo era uma Festa! Casas lotadas de parentes e amigos, encontros mais que inusitados, pessoas vindas de todo o estado se encontravam aqui. O prato principal dos almoços independente da casa e da família era a Feijoada, o prato mais democrático e barato de se fazer em grandes quantidades, além é claro de ser delicioso. As matriarcas da família sempre responsáveis pela casa e pela educação da família (o Patriarcado geralmente passa um pouco longe das famílias Negras, esse costume vem de África, a mãe sempre dá a última palavra) se atentavam a todos os detalhes: tirar os pratos e copos da cristaleira, pegar a maior panela que tinham para dar conta da feijoada para todos, supervisionar a colocação do teto de lona no quintal, geralmente feita pelo pai da família que nestes dias ganhava ainda mais filhos, netos, primos…haja coragem, paciência e alegria para cuidar de tudo isso!

Destes encontros, vieram as danças, a música e posteriormente um Baile, uma Bela Noite Negra, onde as pessoas usavam seus melhores trajes, ouviam as melhores músicas de seu tempo, dançavam, cantavam enfim… uma Bela e Feliz Noite Negra. Esses bailes começaram aproximadamente nos anos de 1950, onde a liberdade era igual para todos na teoria, mas na prática a coisa era um tanto quanto diferente.

E o baile foi passando de geração em geração. Primeiro o Sr. Laurão e o Sr. Bijú cuidavam para que tudo saísse como o planejado. Depois veio o Sr. Geraldinho e hoje tem o Costa. Claro que cito apenas os mais conhecidos, aqueles da linha de frente da batalha, mas em toda essa história têm várias pessoas tão importantes quanto estes que citei e que ajudaram a construir essa Tradição Negra em Araraquara. Os anos passaram, a história mudou, muitos se foram para Aruanda, outros vieram. Até os dias do baile mudaram, hoje ele é um Evento Tombado pelo Patrimônio Nacional, uma Semana Cultural.

baile do carmo araraquara

Foto – Arquivo Pessoal Djamila Clemente

Foto – Arquivo Pessoal Raíssa Botelho

Foto Arquivo Pessoal Lara Clemente Jordão

Mas ele não perdeu sua essência, o encontro de pessoas negras para festejar a vida, celebrar a sobrevivência em um mundo tão caótico. Pensem a beleza de uma noite sem ser parado e revistado pelo segurança, uma noite sem uma mulher negra ser chamada de “mulata tipo exportação” ou sem ter que ouvir aquela frase: nada contra os negros, tenho até amigos que são. Claro que pessoas não negras também eram bem vindas, mas as víamos em pouca quantidade. Nas noites de Julho somos maioria, somos todos iguais.

Tenho certeza que são esses encontros que fazem o baile permanecer vivo até hoje.

Foto – Arquivo Pessoal Juliana Toledo

Foto – Arquivo Pessoal Márcia Silva

Se parasse para contar todas as histórias sobre a Festa do Carmo ficaria aqui horas escrevendo e ainda assim faltariam algumas. Elas dariam um belo livro, e deu! A professora e socióloga Valquíria Tenório registrou em seu livro Baile do Carmo: memória, sociabilidade e identidade étnico-racial em Araraquara, grande parte destas histórias.

Foto – Arquivo Pessoal Márcia Sílvia

Foto – Arquivo Pessoal Djamila Clemente

Foto – Arquivo Pessoal Raíssa Botelho

Todo mês de Julho sinto saudades. De esperar o Tio Gastão chegar com suas histórias dos tempos de bola da Ferroviária e sobre os sambas nas agremiações que frequentava em São Paulo. De sentir o cheiro misto de perfume e cigarro da Tia Dilinha pela casa. De ir com minha bisavó, Dona Maria Joana à Igreja cuidar do altar de São Benedito (afinal primeiro vinha a oração e depois a festa) e de tomar broncas da Tia Maria Júlia que não queria ver bagunça de brinquedos na casa, afinal tínhamos visita. Lembro dos vestidos, casacos, ternos, tudo planejado desde o mês de Maio para que nas Belas Noites de Julho estivessem prontos. Lembro da Tia Dora cuidando das crianças e fazendo companhia para a Bisa para que os adultos pudessem ir ao Baile e me dizendo: Um dia vai ser você se arrumando para ir Érica. Nesta época minha diversão era a quermesse que era montada em frente de casa e os milhares de sorvetes e maçãs do amor que meu avô comprava para minha prima Kalinka e eu.

Foto – Arquivo Pessoal Juliana Toledo

Hoje a tradição mudou, para alguns se perdeu e foi embora com os parentes que partiram e creio que cabe a cada um de nós que está aqui fazer sua parte. Alguns dos mais jovens sequer sabem da existência da Festa e toda sua importância. Outros por motivos religiosos, financeiros, de saúde ou por divergências com a atual gestão do Baile, deixaram de frequentá-lo. Eu os entendo, não os julgo, mas peço que mantenham viva a memória do Baile, não de uma forma apenas saudosa, mas mantendo esses encontros. Que as famílias possam continuar dividindo suas histórias. Cabe a cada um fazer sua parte para que essa história não se perca no tempo, não seja esquecida.

Foto – Arquivo Pessoal Raíssa Botelho

Foto – Arquivo Pessoal Márcia Silva

Este ano não acontecerá o Baile em Julho, a Pandemia não permitiu. Então proponho que cada um em sua casa celebre com seus familiares. Que cada um tenha seu Baile do Carmo particular. Que vejam novamente fotos antigas, que os mais velhos contem aos mais novos sobre seu tempo, que os mais novos dividam suas músicas com os mais velhos (depois de Jorge Bem, Simonal e Ray Charles muita coisa mudou, mas a música negra ainda mantém sua beleza), que os casais dancem sua música favorita juntos, vamos fazer cada um sua feijoada, vale até a feijoada vegana, por que não? Vamos criar novas histórias que se juntarão ás antigas e farão parte das Belas Noites de Julho do futuro. A história é viva e este capítulo é nosso!

Foto – Arquivo Pessoal Juliana Toledo

O Baile do Carmo que habita em mim saúda o Baile do Carmo que habita em você!
Encerro agradecendo imensamente ás famílias que cederam suas fotos de arquivos pessoais para ilustrar o texto deste mês. Deixo também minha homenagem e meu mais sincero obrigado aos que citei neste texto!

Érica Cristina Alexandre dos Santos, é araraquarense, casada, bacharel em Turismo e Hotelaria e organizadora de Eventos, cerimonialista. Érica também é turbanista (realiza oficinas gratuitas de turbantes para todos os públicos), professora de Técnico em Organização de Eventos e Técnico de Camareira e colunista do Comunica Araraquara. É do Amém, do Axé e do Namastê. E como diria Jorge Bem: “Abençoada por Deus e bonita por natureza”.

Contato: erica.alexandre23@gmail.com

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