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Coluna Danilo Forlini: A furadeira

Danilo Forlini, nosso colunista, estreia do seu primeiro conto no site! Confira!

Foto: Freepink

Três semanas atrás, precisamos usar a furadeira. Eram só quatro furos pra colocar uma prateleira. Obviamente, a Isa é quem manusearia o instrumento devastador, não eu. Justamente porque qualquer ferramenta na minha mão se torna um potencial aniquilador de patrimônio. Assim que a Isa encosta na parede, um grito alto e rude de algum vizinho “HOJE NÃO É DIA!”

Nem havíamos lembrado que era feriado. Nessa loucura de home office a vida passou e a gente nem viu. Mas subiu meu sangue de qualquer forma, pra quê gritar com seu vizinho, meu amigo? Mandasse uma mensagem ou interfonasse numa boa. Talvez até ele falar com a gente o barulho já teria parado. Ou então, sabendo que era rápido, chegaríamos em um consenso. Mas não, o grito gutural masculino precisa impor sua vontade através da força.

Acontece sempre. A primeira vez foi logo após ter mudado aqui, há três anos. Fui lavar louça, eram 22h05. A regra do condomínio é diminuir o barulho depois das dez. O maluco gritou reclamando do barulho por eu estar lavando a louça. Nada absurdo, eu não estava jogando as louças na parede. Mas foi assim por pelo menos um ano. Aí tiveram filho. O bebê chorou absolutamente todas as madrugadas durante meses. Nunca reclamei. A única coisa que eu conseguia pensar era “se está me incomodando, imagina ele”. Eles pararam, mas apareceram outros reclamadores, isso não falta. Justiça seja feita, há dias em que é insuportável.

Reformas e obras intermináveis, crianças gritando nas escadas, aquele gospel da Aline Barros no último volume todo dia pela manhã sendo a trilha sonora do meu café, festa até três da manhã no meio da semana e as brigas. Ah, as brigas e os gritos cotidianos. A gente sabe que o cachorro da Juliana e do Roberto quase fez com que eles terminassem. Sabe que o Pedro mentiu pra esposa. Sabe detalhes dos embates por limpeza do apartamento de cima e das brigas de família do apartamento do lado. Discussões horríveis todos os dias. Eu suspeito que o número de fotos e declarações de amor de um casal nas redes sociais são proporcionais aos volume da gritaria que promovem em casa. Pelo menos em algum lugar o relacionamento tem que estar bem.

Eu defendo que pra morar em condomínio teria que fazer curso preparatório “Dividindo o mesmo prédio: as dicotomias do som”, ou “A matemática dos condomínios: encontrando a incógnita dos consensos”. Porque as pessoas precisam entender que na vida coletiva nunca vai ser oito ou oitenta. Somos diferentes, em essência. A única certeza que dividir uma moradia traz é a de que vai existir conflito e concessões terão que ser feitas. No meu otimismo ingênuo, eu até suponho que todo mundo saiba disso. A questão é que a gente não tem consenso sobre qual é o limite do bom senso. Se fosse existir um curso preparatório pra viver no condomínio, cada um criaria um currículo diferente.

Deixo aqui minha sugestão: Pra mim, três semanas de aula seriam só sobre não gritar com seres humanos em geral. Mas sei que a Marlene do 301 iria querer dar aulas sobre como está liberado ouvir gospel às sete da manhã, mas proibido o funk às seis da tarde. E aquele cara alto do 203 vai dizer que tudo bem bater nas crianças, mas Deus o livre ouvir alguém transando. Encerramos assim, sem solução. Vocês com esta história sem final e eu incomodado com a ironia terrível de ter começado a escrever justamente por estar angustiado com o barulho de uma furadeira.

 

 

Danilo Forlini ( @daniloforlini ) é Palestrante e Pesquisador em Criatividade, Improvisação e Educação. Mestre e Doutorando em Educação Escolar pela UNESP Araraquara, Escritor do livro de contos “O melhor presente que você poderia ganhar” e Diretor e Ator na Cia. Improvisória de Teatro.
Conheça mais em daniloforlini.com

 

 

 

 



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