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Coluna Danilo Forlini: Caiu a máscara

Confira mais uma coluna do nosso colaborador Danilo Forlini

coluna danilo forlini

É feriado, vou descer pra praia. Põe a máscara. Tira a máscara pra comer, tira a máscara pra beber. Pra beijar também. Beijar pode, porque beijo é amor. Pra transar põe a máscara. Ninguém pode saber que tá transando. Tudo que for pecado põe a máscara. Põe a máscara nos olhos, pra não ver, ou pra fingir que não tá vendo. Bota fogo no terreno do lado, bota fogo na Amazônia. Aí põe a máscara no nariz, que é pra não sentir o cheiro de morte. Vem logo o carnaval, que é pra pôr as máscaras que permitem que a gente tire as máscaras. Põe a máscara pra fazer a cirurgia, pra não cair a saliva dentro do paciente aberto. Aproveita o paciente aberto pra vasculhar tudo o que paciente escondeu dentro de si. Costura o paciente. Sutura. Deixa o paciente novo em folha pra poder voltar pro trabalho. Trabalha de máscara. Deixa o suor escorrer na máscara. Quanto mais suor, mais valor tem o cidadão.

Opa, cidadão não, tá me ouvindo? Me chama de qualquer coisa, mas não me chama de cidadão. Põe a máscara pra pegar a condução lotada. Sem aglomeração, pessoal. Teatro não pode. Música não pode. Dança não pode. Fábrica pode. O suor da fábrica vale mais do que o suor da dança. A condução lotada pode. Põe as crianças de volta na escola, de máscara. A criança pede pra comprar a máscara da galinha pintadinha, do Ben10, do pokemon. Põe máscara da nike. Máscara do Neymar vai fazer sucesso na escola. Põe máscara da apple, põe máscara11, máscara12. A máscara12 vem com câmera frontal de 48 máscara-pixels que disfarça espinha e solidão.

Vai ter máscara de 200 reais. Disseram que a máscara norte-americana ia baixar de valor, a culpa da máscara norte-americana estar alta não é minha, eu coloquei máscara de honesto. As máscaras estão caindo todas. Põe máscara pra Deus não ver quem que você pegou as máscaras dos fiéis que confiaram em você. Matar pode, divórcio não pode. Quem divorcia perde a máscara, aí sem máscara não dá pra sair de casa né. Olha lá, vem vindo o menino descalço no semáforo, fecha a máscara do carro e finge que não tá vendo o menino sem máscara. Olha lá a mãe do menino tá sem máscara, a culpa é dela. O pai? Não sei, eu estava de máscara na hora de falar do pai, não deu pra ouvir a conversa, a máscara atrapalhou bem nessa hora.

Pausa pra cerimônia. Estamos aqui reunidos hoje, pra celebrar a união destas duas máscaras. Você se compromete a manter sua máscara na saúde e na doença? Na riqueza e na pobreza? Você se compromete a usar máscaras quando te perguntarem porque 89 mil máscaras foram parar na sua conta? Não vou responder a esta máscara, a máscara é uma invenção da China para evitar que as pessoas contraiam ideias perigosas. Vírus pode proliferar porque aqui a gente tem máscara de atleta. Ideia não pode proliferar porque é perigoso. Queima os livros que falarem sobre máscaras. Mais fogo, menos máscaras. Fogo acima de tudo, Fogo em cima de todos.

Máscara abafa, né? Tira todo mundo a máscara então. Deixa a máscara só para os mais velhos. E pra quem tem pressão alta. E pra quem tem medo do que mais de ruim vai acontecer. E pra quem sujou a mão de sangue. Tá faltando máscara. Não importa, se ninguém mais põe a máscara eu também não vou por. E se ninguém mais tirar a máscara eu também não vou tirar. Claro, eu sou independente, eu tomo minhas próprias decisões. Eu não vou me deixar manipular pela mídia, pela ciência, pela universidade, pela religião, pelos políticos e pelos mortos. Morto não fala. Me dá a máscara do morto já que ele não tá usando mais. Independência ou máscara. Máscara ou morte.

Danilo Forlini ( @daniloforlini ) é Palestrante e Pesquisador em Criatividade, Improvisação e Educação. Mestre e Doutorando em Educação Escolar pela UNESP Araraquara, Escritor do livro de contos “O melhor presente que você poderia ganhar” e Diretor e Ator na Cia. Improvisória de Teatro.
Conheça mais em daniloforlini.com

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