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Coluna Danilo Forlini: Como aproveitar o Ócio Criativo na Quarentena

Confira mais uma colaboração do nosso colunista Danilo Forlini

Hoje minha vontade era de escrever um texto sobre saúde pública, estratificação social ou até mesmo empatia. Porque o momento pede estes assuntos. Mas me comprometi a compartilhar uma coluna sobre criatividade e educação com vocês, então fiz o esforço de pensar como esses temas se relacionam com o que estamos passando em tempos de pandemia, algo que também possa contribuir pra nossa saúde mental e emocional.

Antes, porém, é preciso fazer três observações importantes!

Primeira: Há estudos indicando que a atitude mais eficiente a ser tomada por todos neste momento é ficar em casa o máximo possível. Parar de circular quando só quando os hospitais já estiverem cheios é arriscar a vida de pessoas que poderiam ser salvas se tivessem acesso aos tratamentos adequados. Não é por você, é por todos. Fiquem em casa AGORA.

Segunda: Nem todos tem condições financeiras e trabalhistas para ficar em casa, a desigualdade da nossa sociedade mais uma vez irá prejudicar quem já é prejudicado de muitas formas. Ajude estas pessoas como puder. Fortaleça os pequenos negócios, os artistas, os idosos e os autônomos. Precisamos de redes de solidariedade.

Terceira: Mesmo quem precisa continuar trabalhando fora de casa, tem que parar com as atividades opcionais. Eventos, grupos, festas, reuniões vão sair do nosso cotidiano por enquanto. As crianças e adolescentes estarão fechados em casa e precisaremos lidar com esse tempo “livre” que apareceu. Por isso, este texto é para todos e todas, na medida de suas possibilidades. Aproveitem!

Aqui vão dez ideias para explorar o tempo, a casa, a família e a si mesmo na quarentena:

1. Arrumar as coisas

Sempre tem um pedaço de armário desarrumado. Caixas de itens antigos, pastas de lembranças, álbuns de fotos, discos, livros e até mesmo utensílios domésticos parados no fundo do armário. Se estamos em casa com mais tempo, por que não botar ordem nessas coisas?

Você perceberá que ao lidar com tudo isso que está guardado, lida um pouco consigo mesmo também, revive lembranças e emoções, pensa no que de fato nós precisamos e conforme for concluindo cada etapa das arrumações, sentirá um senso de utilidade e resolução que irá te deixar pronto pra novos projetos.

Dica extra: Pesquise sobre o tema “minimalismo” nas redes antes de arrumar suas coisas. Tem um documentário bacana na Netflix sobre isso.

2. Master Chef Criativo

Sabe aquela receita que você sempre marca alguém no instagram ou no face e diz “Vamos fazer?”, então, faça! Há dezenas de canais interessantes que ensinam receitas de um jeito fácil de fazer, bem didático, no passo a passo. Canais profissionais e amadores, com todos os tipos de ingredientes possíveis.

E se na sua casa faltar alguns ingredientes para determinada receita, ao invés de correr no mercado, invente com o que tem no armário e na geladeira! Crie suas próprias versões de massas e recheios, pesquise o que dá pra fazer usando o que tem aí. Crie suas combinações de macarrão na chapa, batata recheada, pizza, arroz carreteiro e por aí vai. Cozinhar por prazer é terapêutico e experimentar pode ser mais divertido do que você imagina.

3. Filmes diferentes

Operadoras de TV e internet já liberaram mais canais e mais velocidade gratuitamente para estimular as pessoas a ficarem em casa. Temos também Netflix, Amazon e outras plataformas digitais cheias de possibilidades. Assista filmes! Série é legal também, e nada como maratonar uma série que a gente goste. Mas se dê o direito de assistir um filme diferente, os indicados ao Oscar e ao Cannes dos últimos anos, de repente de algum estilo que você não está acostumado.

Um filme te conta uma história (ou um fragmento de história) sobre outras pessoas, lugares, ideias e sensações que não necessariamente estamos acostumados. Esse tipo de contato artístico abre a nossa cabeça pra ampliar nosso referencial de mundo e às vezes até nossa inteligência emocional. Não precisa ser só filmes “premiados” também. Varie! Assista com a família, faça pipoca, brigadeiro, transforme num acontecimento.

Nesse link: 25 filmes premiados pra ver na Netflix.

4. Jogos! (de tabuleiro também)

Quando pensamos em jogos na quarentena, já vem na cabeça o celular. Mas em grande parte do tempo já corremos o risco de perder horas na frente das pequenas telas rolando o feed das redes sociais. Então desenterre os jogos de tabuleiro que tiver em casa e jogue com quem vive com você. Tudo vale: desde os clássicos detetive e war até os novos e incríveis Dix it, Catan, Concept e por aí vai. A gente conhece muito pouco desse universo.

Não tem jogos em casa? Se conseguir pelo menos um baralho, tem MUITO jogo sim. A combinação de cartas permite um sem fim de possibilidades. Inclusive, de você inventar seu próprio jogo, por que não? Ou transformar as regras daqueles que você já conhece. O máximo que pode acontecer é você dar risada quando der errado.

Links e Dicas extras: Um ótimo momento para aprender a jogar xadrez. E existem vários sites pra jogar com pessoas do mundo todo. Lichess é um deles. Online e grátis.

Aqui um episódio de podcast em que Márcio Ballas entrevista Buda, especialista em jogos de tabuleiro: https://open.spotify.com/episode/6NmdW85CbZohB2oPJrze3d

5. Meditação

Já existem pesquisas que comprovam que meditação: melhora o sistema imunológico, diminui dores, desenvolve inteligência emocional, diminui o stress, ativa a criatividade e melhora a cognição. É questão de tempo até que se torne uma prática cotidiana para todo mundo, assim como caminhadas e corridas foram sendo mais socialmente praticadas ao longo das últimas décadas.

Por que não experimentar agora? Tudo o que você precisa é conhecer um pouco dos princípios e ir pra prática. É estranho no começo, você acha que não está dando muito certo, e de repente, depois de alguns dias de prática, você sente uma leveza e calma inexplicáveis. Confia e experimenta.

Tempos difíceis e estar “trancado” em casa vai nos angustiar. É uma calma que vamos precisar. E uma ferramenta de autoconhecimento potente.

Aqui um vídeo curtinho e legal do monge Mingyur Rinpoche: https://www.youtube.com/watch?v=kHrJOLvkn6o
Aqui um vídeo da Tania Mujica com dicas práticas para começar a meditar: https://www.youtube.com/watch?v=vE59m7fjhd0

6. Músicas e Instrumentos, claro.

Essa dica vai em duas partes. Primeira: tem um instrumento parado em casa? Toque! Brinque, experimente, treine, aprenda. Tem tudo no youtube. Só não deixa parado.

Segunda: aproveita pra ouvir música. Não ouvir na academia, no carro, na balada, sempre fazendo outra coisa junto como costumamos fazer. Pelo contrário, aproveita pra só ouvir a música. Que instrumentos ela tem, como o ritmo vibra em você, o que te faz lembrar, o que te faz sentir. Ouça o que você gosta, claro, mas também aproveita pra conhecer algo diferente. É bacana a gente se abrir pra outras experiências e faz muito bem para as áreas criativas do cérebro.

Da música clássica ao funk. Do rap ao reggaeton. Quer ver? Começa ouvindo essa música aqui do Bach, você provavelmente já ouviu antes. Mas põe um fone, fecha os olhos e escuta essa música. Respira.

https://www.youtube.com/watch?v=poCw2CCrfzA

Se não gostar, tudo bem também! Vou deixar mais uma dica instrumental aqui, mais contemporânea, dos brasileiros Caramelows: https://www.youtube.com/watch?v=W_ewgLMNoMI

É até errado eu escolher que dica dar, música é um universo infinito. Pesquise, descubra!

7. Aprenda Online. Sobre QUALQUER coisa.

Eu sou sempre a favor da educação presencial. Em aprendizagem, nada substitui o olho no olho. Mas às vezes, o que a gente quer aprender não há disponível em nossa cidade. Ou não temos dinheiro para investir. Ou, como agora, temos que ficar em casa.

Existem milhares de pessoas ensinando todo o tipo de conteúdo e habilidades gratuitamente na internet. Pra quem topa investir, também são milhares de cursos pagos online. Por que não aproveitar para conhecer mais sobre algo que você tenha curiosidade, ou mesmo despertar uma curiosidade nova? História do mundo, Educação Financeira, Criatividade, Costura, Artesanato, Experimentos Científicos para fazer em casa, Teatro, Cinema, Culinária, Geopolítica, Desenho, Pintura, Photoshop, Fotografia, Instrumentos Musicais, Psicologia, Filosofia, Organização Pessoal, Línguas e seguimos por uma lista infinita.

Se desafie, experimente. Aguce sua curiosidade sobre o mundo. Compreender o que está fora pode ajudar a compreender o que está em volta e o que está dentro.

Aqui, não tenho dúvidas, apesar de existirem vários sites agregadores de cursos, prefiro indicar o youtube, que é grátis e infinito em conteúdo.

8. Escreva (sim, você mesmo)

As pessoas não se acham capazes de escrever, não se sentem criativas. No livro “The Artist´s Way”, de Julia Cameron, ela ensina um exercício fantástico. Simplesmente escrever sem parar, sobre qualquer coisa que vier a sua cabeça. Pode ser sobre o que você está vendo na sua frente, sobre o que está pensando, sobre seus planos e vontades, sobre lembranças e histórias que aconteceram com você, sobre histórias inventadas, o que você quiser.

A autora sugere que você faça isso logo ao acordar, três páginas por dia. Mas o exercício é livre pra você fazer na quantidade que quiser, na hora que quiser. Escreva uma carta para você mesmo quando era criança, ou pra você daqui vinte anos. Escreva um poema. Escreva algo completamente sem sentido. Crie personagens, invente seus sonhos e desejos. Pense no “E se…” e escreva. E se tivéssemos asas? E se fossemos telepatas? E se dinheiro não existisse? E se fossemos imortais? E por aí vai. Escreva qualquer coisa sobre qualquer assunto.

Tem muito mais em você do que você imagina.

9. Podcasts

Aos poucos e cada vez mais as pessoas descobrem o universo dos podcasts. São um tipo de programas de rádio temáticos divididos em episódios. A maioria com episódios novos semanais (embora nem todos). Sobre uma avalanche de temas. Você pode ouvir no celular enquanto lava-louça, limpa a casa ou cozinha. A maioria deles está no spotify. Mas também tem outros aplicativos bacanas como o google podcast, o castbox e por aí vai. Todos acessam praticamente os mesmos conteúdos.

Vou indicar aqui os que eu mais ouço: Mamilos (temas polêmicos discutidos com empatia e seriedade), Ballascast (sobre criatividade, improvisação e entrevistas legais) e Durma com Essa (do nexo jornal, fantástico pra se informar).

Sobre cultura pop tem o famosíssimo Nerdcast que muita gente gosta. Provavelmente já tem podcasts temáticos sobre os assuntos que você adora.

10. Só faltam os livros

Falamos de filmes, músicas, podcasts e é impossível não falar dos livros. Leitura é hábito e prática. Quanto mais ler, mais vontade terá de ler, menos cansaço terá quando ler.

Antônio Cândido defende que a literatura oferece pra gente um processo de humanização. Através do olhar do outro, a gente compreende o mundo a partir de pontos de vista diversos, cria empatia, desenvolve alteridade. Às vezes dá pra compreender muito mais a realidade de uma época lendo o que os escritores do momento escreveram do que os livros teóricos de história. Se permitam ser contagiados por histórias. Nós somos feitos de histórias.

Difícil começar? Começa por contos ou crônicas que são mais curtinhos. Por conta do momento de crise e quarentena, estou disponibilizando gratuitamente meu livro para download. Vou deixar aqui o link pra vocês: https://bit.ly/daniloforlini

Leia o livro que quiser, mas leia!

11. Tomar um café

Quem disse que os encontros precisam parar? Na foto de capa deste texto, estou “tomando um café” com meus companheiros de grupo de teatro. Cada um no seu canto, dentro de casa, mas nos encontramos para um café, na medida em que é possível. Reencontre pessoas queridas, converse com a família, amigos próximos, amigos distantes. Aqui fizemos a foto com o café, mas pode ser uma cerveja também. Tudo online.

Sejamos criativos para não perder o contato. O isolamento é físico, mas não precisa ser emocional e afetivo. Sigamos juntos.

12. O Ócio Criativo

Domenico de Masi, autor do livro “O ócio criativo”, mostrou que empregamos energia demais nos trabalhos/empregos (que muitas vezes são alienantes e exaustivos) e nos esquecemos da potência que existe nos momentos de ócio. A ideia não é confundir ócio com preguiça ou tédio, mas justamente subverter esta lógica.

Quando temos um tempo relativamente livre, que não está preso pelo trabalho, o que é que a gente faz com ele? É preciso pensar nisso, porque se no trabalho muitas vezes não conseguimos estar tão bem, então nossa chance de encontrar equilíbrio é justamente sendo criativos com o tempo que nos sobra. Estas dicas que organizei tem a intenção de nos ajudar a ocupar a mente, explorar a nós mesmos de forma positiva, nos abrir para possibilidades que às vezes esquecemos. Dentro dos limites que cada um conseguir. Espero que o texto possa ser útil mesmo após passar esta crise.

Quarentena não é férias, é um momento difícil. Justamente por isso precisamos cuidar de nossa saúde emocional e não deixar a angústia e o sentimento de paralisia tomar conta. Há vida em nós. Olhemos pra dentro, cuidemos dos próximos e dos não tão próximos. Vamos ficar em casa e potencializar nossas trocas como pudermos. Consumir, valorizar e produzir arte. Espero que gostem! Se gostarem, façam chegar em mais gente!

Força pra todos!

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Danilo Forlini ( @daniloforlini ) é Palestrante e Pesquisador em Criatividade, Improvisação e Educação. Mestre e Doutorando em Educação Escolar pela UNESP Araraquara, Escritor do livro de contos “O melhor presente que você poderia ganhar” e Diretor e Ator na Cia. Improvisória de Teatro.
Conheça mais em daniloforlini.com

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