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Coluna Danilo Forlini: Três cenas e um final inapropriado

Confira mais uma colaboração do araraquarense Danilo Forlini!

Foto: Canva

Cena 1: O autor da crônica tem por volta de quinze anos, magro, espinhas no rosto, cabelo comprido até quase o meio das costas, camiseta de metal melódico, cara de malvado e a cabeça cheia de inseguranças. Vai ao teatro com os amigos, não importa qual é a peça, o teatro grátis é o programa do final de semana. Chegam uma hora antes porque sempre lota e não correm o risco de ficar sem ingresso. Além do mais, durante a hora de espera dá mais tempo de mostrar pras pessoas suas caras de malvados, cabelos compridos e camisetas de metal melódico. Naquele dia, a peça era “A vida na praça roosevelt”. Em uma das cenas, um casal pula do topo de um prédio. O salto é inesperado e quando acontece, eles ficam deitados em cima de um ventilador dando a impressão estética da resistência do ar tentando salvar seus corpos da queda. Uma música estoura no fundo enquanto os personagens gritam uma conversa existencialista caindo em direção a seu fim. O menino de quinze anos tenta segurar as lágrimas e torce pra que nenhum dos seus amigos malvados perceba que a tentativa é em vão. Se arriscasse olhar para o lado veria que eles também estavam com a mesma preocupação. A sensação daquela cena fica marcada com força.

Cena 2: O autor tem por volta de vinte anos, estudante de ciências sociais, bata indiana, sandália nos pés, cara de pacifista e a cabeça cheia de angústias. Vai ao teatro com a mãe, que também passou a gostar do programa aos sábados. Chegam uma hora antes porque sempre lota e não querem correr o risco de ficar sem ingresso. A peça é “As Olívias Palitam”. Quatro mulheres apresentam cenas cotidianas que fazem a plateia explodir em risadas. Uma das cenas é um workshop que ensina homens a se comportarem no primeiro encontro. Em meio as risadas o autor faz um esforço significativo pra tentar gravar aquelas dicas e não ser um babaca em seus próximos encontros. Naquele tempo havia muito mais informação ensinando a gente a ser babaca do que a não ser babaca. Sai do teatro com dores nas bochechas de tanto rir. Todo mundo ali na saída comentando que incrível foi aquilo. As angústias ficam mais leves.
Cena 3: O autor tem por volta de vinte e cinco anos, professor de história, camisa marrom aberta por cima de uma camiseta branca, cara de sério e a cabeça cheia de incertezas. Vai ao teatro com a companheira. Começo de um namoro que seria um casamento. A peça era “BR Trans”. A partir de relatos e trajetórias pessoais de mulheres transsexuais de todo o país, Silvero Pereira causa sensações que pegam no estômago e vão espalhando pelo corpo inteiro. Na peça a gente alterna entre riso e choro incontáveis vezes. Se assusta, se acalma. Passa da angústia à indignação. Lembro dela dançando, logo quando a gente senta na poltrona e espera começar. Tocam as três campainhas. O coração vai acelerando enquanto a luz vai diminuindo. A mesma pergunta de sempre: o que será que vai acontecer naquele palco?

Final inapropriado: O autor tem trinta anos. Está em casa, de pijama, acabou de terminar uma reunião por videoconferência. Fica sabendo que o SESI SP encerrou as atividades de seus núcleos de artes cênicas em quase todas as cidades do estado em que funcionavam. Artistas e funcionários demitidos em massa. Projetos cancelados. Sua cidade perde o núcleo de teatro. Não é corte de gastos, é desmonte. Não tem riso, não tem choro. A sensação é de vazio, de falta.

Danilo Forlini ( @daniloforlini ) é Palestrante e Pesquisador em Criatividade, Improvisação e Educação. Mestre e Doutorando em Educação Escolar pela UNESP Araraquara, Escritor do livro de contos “O melhor presente que você poderia ganhar” e Diretor e Ator na Cia. Improvisória de Teatro.
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