Cultura

Coluna Érica Alexandre: A Reciprocidade do Egoísmo

Confira mais uma colaboração da colunista Érica Alexandre!

Foto: Reprodução/Protragonismo Cidadão

Neste mês de Maio, o Mês Maternal, de Pretos Velhos, das Noivas e das Flores, quero lhes perguntar algo não tão cômodo, mas fundamental para disseminar no mundo de maneira mais sincera possível o amor que este mês tanto nos ensina.

Em que Ponto de Nossas Breves e Intensas Vidas nos Tornamos tão Egoístas e Mesquinhos?

Hoje em dia, o que nos diferencia de nossos piores desafetos?

Como assim falar de egoísmo nos traz como consequência o amor, Érica?

Bem, vamos aos fatos.

O ano é 2021, segundo ano em Pandemia Mundial. Mais de 420 mil mortos só no Brasil até agora e os que sobreviveram em sua maioria estão esgotados físico e psicologicamente. Alguns assumem que nada está bem e outros insistem em andar de moto sem capacete com amigos desmiolados em ruas do Planalto Central pra provar que nada acontece. Enfim, cada um lida com situações extremas conforme sua capacidade de discernimento.

A esta altura da vida de maneira consciente ou não nos tornamos mesquinhos, egoístas, insensíveis à dor alheia, covardes, desumanos, sarcásticos, déspotas…

Se Russeau estava certo ao dizer que “O Homem é bom por Natureza. A sociedade é que o corrompe” então com certeza fomos corrompidos da maneira mais constrangedora possível.

Sim, nós! Todos nós em algum momento fomos acometidos por algum destes males, afinal já dizia Fernando Pessoa:

“Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer”.
Quantas vezes paramos para olhar no espelho e entender o ser que nos tornamos?

O espelho nos fez reféns de nós mesmos. A busca pelo amor próprio ocasionalmente passa por caminhos tortuosos e um dos obstáculos que temos que superar é conhecer a nós mesmos verdadeiramente e termos a força de entender e corrigir, não o que queremos, mas o que precisamos reparar.

Nosso reflexo é nosso pior inimigo e melhor aliado; que assim diga Narciso que enfeitiçado por sua própria beleza, se afasta do mundo ao seu redor e morre afogado em busca do impossível. Ou assim como Oxum e Iemanjá que utilizam seus abebês (ou espelhos) para o autoconhecimento, que se enfeitam para trazer a riqueza para a alma e posteriormente usam essa riqueza para entender e acolher o próximo da forma que ele realmente necessita.

Foto: Amanda Rocha – Campanha “Minha Proteção” – I Love Umbanda

Entre tantas formas de refletir, nos perdemos em nós mesmos. Acreditamos que somente o Deus de nossas mentes existe, que ele perdoa somente nossos pecados e aniquila os demais, perdemos a capacidade de sentir tristeza pela dor do outro e de pensar em outras coisas que não sejam dinheiro, sexo, selfies e realities shows.

Diante do vírus invisível solto pelas ruas, se você sai de casa é julgado, se você fica em casa é julgado também. Se pensa primeiro em dinheiro é julgado, se pensa primeiro na saúde também. Se é feliz dentro de casa é questionado, se não é feliz, é ingrato.
28 pessoas são mortas no Rio e o que dizem? Bandido bom é bandido morto (isso claro, se não for seu bandido de estimação). É violência, é chacina, é combate ao crime? São pessoas. São pais, filhos, irmãos de alguém. Morte violenta dói e pronto, independente de quem for, essa pessoa era insubstituível para alguém, assim como eu sou e você também é.

Falcatruas aos montes em Brasília e a culpa é de quem? Daquele deputado ou senador que você elegeu em troca de um benefício particular como um cargo para um parente, ou em troca de uma cesta básica. O seu voto também é parte de sua imagem e semelhança, afinal ele reflete mais sobre quem você é do quem sobre quem é seu candidato. Você deu poder e confiou á eles o seu bem estar. Aceite, conviva com isso e pense: valeu a pena?
O povo quer o fim da corrupção assistindo TV em seu sinal de TV clandestino, usando o WI-FI do vizinho, vestindo uma roupa made in exploração de trabalho humano mal remunerado em um país distante, se alimentando com produtos cheios de agrotóxicos plantados em um solo onde jaz uma Floresta Equatorial devastada. Enfim, a hipocrisia.
Quer mais desumanidade do que colocar seu prazer pessoal acima do bem estar do próximo? Vamos falar sobre as festas clandestinas que curiosamente são mais constantes em bairros nobres, nas casas e condomínios daqueles que se julgam mais ‘educados, de boas famílias’. Na periferia tem também, já que o ser mesquinho vem de todos os lugares tal qual ratazanas que se aglomeram nos esgotos. Imagina que coisa incrível você saber que alguém morreu ou ficou doente porque você queria dançar e não aguentava mais ficar em casa? Pessoas que não higienizam as mãos, não usam máscaras e distanciamento social responsável são homicidas tal qual a pessoa que receita remédio vermífugo como forma de cura de um vírus. Sabem que a morte está próxima e a abraçam como a uma amiga querida. Desprezíveis.

Imagem: https://historiasdebau.wordpress.com/2012/03/04/o-silencio-da-morte/

Mães que abandonam ou executam filhos que nem queriam que tivessem vindo ao mundo. Pais que preferem se esquivar da responsabilidade de criar seus dependentes depositando R$ 400,00 mensais na conta bancária dos mesmos. Brigas de trânsito encerradas por golpes de facão. Povo brigando entre Esquerda e Direita se esquecendo que estamos todos no meio do mesmo furacão. Homens que não foram criados pra aceitar um não e como resposta para isso aumentam índices de Feminicídio todos os dias. Bancada Cristã se julgando detentora de toda a moral e bom costume do mundo julgando tudo e todos assim como o Mestre disse para não fazermos (“Aquele que não tiver pecado, que atire a primeira pedra.” – Jo 8.1-11). Isso tudo é coisa do “Inimigo”? E onde mais está o inimigo senão dentro de cada um de nós?

Fácil é se dizer atormentado psicologicamente ou possuído por espíritos malignos, difícil admitir: Estou errado, assumo meus erros e quero sinceramente assumir as consequências deles como forma de me redimir e me entender como ser humano.

Não é nada fácil admitir um erro, se você parar pra pensar por um instante quase não vai se lembrar de quantas vezes disse ‘me desculpe’ a alguém próximo.

Ás vezes é mais fácil insistir em um erro do que admitir ter se equivocado. É estranho, mas acontece. Uns até compram o perdão alheio com presentes ou likes nas redes sociais. Tratam a questão do erro e acerto como uma barganha: leve uma ofensa e ganhe um benefício que parece um pedido de perdão, mas não é, já que o agressor não quer admitir que errou para não parecer fraco diante dos demais. Confuso não?
Pensando bem, era mais fácil admitir o erro.

Mas isso fere o ego, nos faz questionar nosso Ser Sagrado criado pelo Universo para iluminar o mundo, um ser criado por nosso Amor Próprio com o objetivo de nos fazer cumprir nossa missão nesta Terra da melhor forma possível.

Então voltamos ao Ciclo sem Fim: Para amar precisamos ser amados, para sermos amados precisamos ceder, para ceder não podemos ser egoístas, para não sermos egoístas precisamos…amar!

Imagem: Magia do Axé – Marcelo Moreno

Sendo assim, neste mês de Maio, envie flores, poste fotos com suas mães, agradeça aos Pretos Velhos, Lute contra o Racismo e a Homofobia, Case se quiser com quem te faz feliz e beba água (a umidade do ar está baixa, cuidem-se). Mas sejamos menos egoístas e saibamos que a dor dos outros também machuca e a melhor forma de ajudar ao próximo é não trazendo mais caos à sua vida. Nossa liberdade de sofrer termina quando o sofrimento alheio começa. Não sejamos Chatos, vamos perdoar os erros alheios na mesma velocidade que esquecemos nossas falhas, não vamos acreditar que o mundo conspira sempre contra nós. Que possamos nos perdoar, nos educar para sermos sempre amados por nós mesmos e por aqueles que amamos verdadeiramente.

Érica Cristina Alexandre dos Santos é araraquarense, casada, bacharel em Turismo e Hotelaria e organizadora de Eventos, cerimonialista. Érica também é turbanista (realiza oficinas gratuitas de turbantes para todos os públicos), professora de Técnico em Organização de Eventos e Técnico de Camareira e colunista do Comunica Araraquara. É do Amém, do Axé e do Namastê. E como diria Jorge Bem: “Abençoada por Deus e bonita por natureza”.

Contato: erica.alexandre23@gmail.com

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