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Coluna Érica Alexandre: Mundo Rosa ou Mundo Azul?

Confira mais um texto da nossa colunista!

Foto: Unsplash

Recentemente ao me descobrir como mãe me deparei com a seguinte pergunta: seu mundo será azul ou cor de rosa?

E junto com esta pergunta veio a dúvida: por que focar em somente duas cores se o mundo é tão colorido?

Temos uma natureza infinita ao nosso redor com cores que nosso campo óptico sequer reconhece e as pessoas só querem ser inseridas em azul e rosa?

Me veio à mente aquela “bendita” frase da Damares: “Meninos vestem azul, meninas vestem rosa!” Senti um ranço retrógrado, tal qual quando ouvi a frase pela primeira vez. Frase mais descabida…

Então percebi como somos frágeis em questão de gênero. Se não nos encaixarmos em algum padrão parece que a Matrix dentro de nós entra em pane. Ás vezes nos vejo como os feijões que adorava ver minha mãe escolhendo durante ás tardes que passávamos juntas em casa quando criança. Se não separarmos as espécies, se não tirarmos os “defeituosos” parece que nada flui.

Constantemente temos que provar a nós mesmos e aos outros a qual gênero pertencemos. Furamos orelhas de meninas recém nascidas com medo que sejam confundidas com meninos. Não deixamos meninos tocarem em bonecas com medo de que se tornem afeminados e qual o sentido disso?
Voltando à questão do azul e rosa, vocês já pararam pra pensar de onde vem isso? Qual o fundamento pra tal separação?

A resposta é mais simples do que podemos imaginar: uma proposta de marketing tão eficiente que perdura até hoje em nossa sociedade, assim como o Papai Noel que usa Vermelho, o Natal em Dezembro, ou o Dia dos Namorados em Junho no Brasil. Uma ideia que repetida mil vezes se tornou uma verdade absoluta.

Antigamente as cores das roupas dos bebês eram escolhidas devido à praticidade, pois sabemos que um bebê suja suas roupas constantemente. As roupas eram brancas, sejam para meninos ou meninas, pois eram mais fáceis de ser lavadas, fervidas ou alvejadas.

Com o tempo as crianças primogênitas independente do gênero eram consagradas à Nossa Senhora em suas diferentes classificações, apresentada na Igreja Católica como a Imaculada Virgem do Manto Azul. Assim as crianças consagradas á ela usavam essas cores, independente do gênero. Mais tarde as meninas passaram a usar mais o azul sagrado remetendo à imagem de feminilidade e pureza da Santa. Sim, em determinado ponto da história o azul era mais utilizado por meninas do que por meninos por questões religiosas.

Outros tons pastéis foram inseridos ás vestimentas infantis e os pais escolhiam as cores de acordo com a cor dos olhos ou tonalidade de pele dos seus filhos, sendo geralmente os tons de rosa usados por crianças morenas ou com olhos castanhos e os tons azuladas por crianças de pele mais clara ou com olhos azuis, independente do gênero da criança. Em alguns casos era mais recomendado a utilização do rosa aos meninos por ser uma cor considerada mais forte e mais marcante que o azul, o que denotaria mais força ao recém-nascido de sexo masculino, mas isso ainda não era uma regra.

Uma das grandes incentivadoras da inserção do rosa no vestuário feminino foi Mamie Einsenhower, primeira dama dos Estados Unidos entre 1953 e 1961. Citada como um exemplo de boa mulher americana, elegante e de bons hábitos (a famosa bela, recatada e do lar), Mamie servia constantemente de inspiração ás mulheres norte americanas, em especial ás donas de casa. Ela era vista constantemente vestindo trajes em tons de rosa em eventos públicos, o que fez com que as mulheres da época associassem agora a cor á feminilidade. Em um mundo pós guerra onde o preto luto e o azul militar/industrial imperavam, o rosa veio até como um sopro de cor, de alegria à vida das pessoas.

Em partes, mulher usar rosa na época foi até considerado um afrontamento, um pensamento à frente de seu tempo, já que o azul ainda era visto como delicado e elegante, mais apropriado para meninas. Personagens criadas como A Penélope Charmosa e Barbie também surgiram para quebrar este padrão. Porém o que era contestação virou regra…

Então veio a indústria da moda e nos anos 80 definitivamente enfiou goela abaixo da sociedade o rosa como uma cor feminina. As pobres meninas foram condicionadas ao rosa da cabeça aos pés e o azul se tornou uma ‘cor de menino’ apenas como oposição ao rosa. Assim como as cores, o vestido que também era vestimenta oficial de todos os bebês devido à praticidade na hora da troca das fraldas por exemplo, passou a ser somente para as meninas e os pobres meninos começaram a ter que usar calças, trajados como homens em miniatura para de forma alguma serem confundidos com meninas.

Então o mundo se dividiu entre rosa e azul, buscando diferentes justificativas para isso, mas sem um embasamento científico, apenas por força do costume. Pessoas tem sim suas cores favoritas, assim como comidas, músicas, bebidas e não são estes gostos que vão determinar sua sexualidade. Cores não determinam valores, gêneros ou orientações sexuais. Brinquedos também não determinam formação moral, mas essa nossa mania de segregação entre “coisa de homem e coisa de mulher” determina sim o comportamento no futuro de nossas crianças.

Meninas crescem acostumadas a serem mamães de suas bonecas, com seus fogões, panelinhas, guarda roupas e vassourinhas (geralmente rosa), enquanto os meninos crescem em meio a uma guerra com seus caminhões, armas, soldadinhos camuflados, bolas e aviões (geralmente azuis). O resultado disso? Adultos “masculinos” que não sabem nem fritar um ovo porque cozinha é “coisa de menina” e adultos “femininos” que não sabem consertar nada quebrado em casa porque ferramentas são “coisas de menino”. Lógico que há exceção à regra, mas dei apenas um exemplo do que podemos causar com essa separação a qualquer preço entre mundo rosa e azul.

O mundo com sua constante evolução e retrocesso caminhando juntos como Ibejis vai se modificando e aos poucos vamos quebrando esses padrões, afinal costumes que não são trocados não tem graça, certo? O processo é lento, demorado, exige paciência, mas cabe a nós inicia-los para que meninas não cresçam enjoadas de rosa quando adultas e sonhando com os carrinhos que sempre quiseram brincar e nunca tiveram (sou dessas) e para que meninos possam brincar em paz de comidinha e no futuro possam se vestir de rosa se quiserem sem ter que ouvir piadas desnecessárias.

Quanto à pergunta que me fizeram sobre a cor do meu mundo? Eis aqui a resposta:

“Meu Filho, seu mundo será assim como a natureza que nos rodeia: vermelho e laranja como as frutas e o fogo; verde como as folhas e o mar; azul como o céu da manhã, rosa e roxo como as flores, preto como o céu da noite, branco como a lua, amarelo como o sol. As cores que você escolher serão suas. O mundo é imenso, descubra suas cores, seus valores e seus amores. Estarei aqui ao seu lado sempre pra te ajudar a colorir seu caminho. Com amor, Mamãe.”

Érica Cristina Alexandre dos Santos, é araraquarense, casada, bacharel em Turismo e Hotelaria e organizadora de Eventos, cerimonialista. Érica também é turbanista (realiza oficinas gratuitas de turbantes para todos os públicos), professora de Técnico em Organização de Eventos e Técnico de Camareira e colunista do Comunica Araraquara. É do Amém, do Axé e do Namastê. E como diria Jorge Bem: “Abençoada por Deus e bonita por natureza”.

Contato: erica.alexandre23@gmail.com

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