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Coluna Érica Alexandre: o tal do Black Love

Uma reflexão importante no mês dos Namorados!

Neste mês de junho, mês do Meio Ambiente, de Antonio, João, Pedro, Xangô, Boiadeiros, Inverno, do Corpo de Cristo e de meus 32, venho conversar com vocês sobre um tema leve e forte ao mesmo tempo, que acalma e empodera na mesma dose.

Junho também é mês do amor no Brasil e independente da data ser originária de motivações comerciais ou não, ela existe e nunca passa despercebida. O amor é universal, é eclético, exótico e inesperado. Surge do nada e, na mesma velocidade, às vezes se vai. Tal qual aquele vento gostoso no meio das tardes de outono que mistura o quente do sol com o gelado da estação.

E por falar em amor, nada contra os solteiros, tenho até amigos que são… mas casar é bom demais. E quando digo casamento, não me refiro à festa, ao vestido, ao arroz e tudo mais, mas sim o depois, a nova vida real após o “felizes para sempre”, ou neste caso, após o “eu os declaro, casados!”. E de todas as manifestações de amor existentes peço licença pra falar sobre o tipo de amor que trago em minha vida: o tal do Black Love. Um termo em inglês tão usado em hashtags pra definir o amor entre pessoas pretas.

Michelle e Barack Obama

Nunca parei pra perceber a importância de um casal negro na sociedade, até que um dia, meu marido e eu recebemos um convite para participarmos de uma Roda de Conversa em um evento chamado Kilombô. O tema da Conversa era Afro Dengo e caberia a nós dois definirmos em uma hora uma relação de mais de 10 anos. Fomos o mais sinceros possíveis contando como diria o Chorão, “Os Dias de Luta e os Dias de Glória”.

Naquele dia, vários questionamentos foram feitos inclusive sobre o que passamos com relação ao racismo e como fazíamos para que isso não interferisse em nossas relações de carinho, em como não deixar que a rigidez do mundo abalasse a alegria de amar.

Infelizmente ainda existem lacunas, estereótipos e ideias que abalam a questão do amor entre negros, assim como suas diversas relações sociais, e baseado nisso faço-lhes uma pergunta: O que resta além do Preto Insaciável e Potente e a Negra Fogosa Globeleza?

Quem já não ouviu frases como:

“Vou me casar com uma loira que é melhor para apresentar à família e amigos”;
“Melhor casar com alguém mais clarinho assim meus filhos nascem com o cabelo bom”;
“É melhor não casar com homem negro, pois são muito mulherengos”;

Ou então aquela que mais me aterroriza por ainda existir em pleno 2020: “Preta é pra causar, branca é pra casar.”

Se você nunca ouviu frases assim, você é privilegiado sim!

Caso você ache que cá estou eu com “mimimi” ou com uma visão deturpada do que realmente acontece, peço que olhe atentamente este quadro abaixo:

A obra de 1885 retrata a busca do embranquecimento através da miscigenação (Imagem: Modesto Brocos/Wikimedia Commons/Alma Preta)

Este quadro é bem famoso e caso não conheçam a história dele, trata-se de uma senhora agradecendo por seu neto ter nascido mais claro. Ela, uma senhora negra com uma tonalidade de pele bem escura, sua filha negra, porém um pouco mais clara ao lado de seu alvo e redentor companheiro, orgulhoso de sua obra, ou melhor, filho.

Sim, é real. Não estou bebendo meu costumeiro vinho ao escrever este texto, tampouco estou criando uma ficção para aterrorizar seus pensamentos (na verdade, neste momento ouço um Jorge Bem – Samba Esquema Novo, pra relaxar).

Tais pensamentos são embasados por uma teoria chamada Eugenia, que segundo Lana Magalhães “É a seleção dos seres humanos com base em suas características hereditárias com o objetivo de melhorar as gerações futuras… Defende que raças superiores e de melhores estirpes conseguem prevalecer de maneira mais adequada ao ambiente.”

Óbvio que o Brasil em sua incrível individualidade traria tais ideais europeus para suas terras Abençoadas por Deus e Bonitas por Natureza.

Apoiado por pessoas como Julio de Mesquita, Oliveira Vianna e Monteiro Lobato (sim, ele mesmo, aquele senhor do sítio), a Eugenia no Brasil seria uma espécie de nova modalidade de saneamento básico brasileiro, eliminando o principal foco de enfermidades e problemas no país: os negros (nessa leva de males também consideravam os deficientes e indígenas).

Sim, há uns 94 anos atrás, a reprodução de pessoas como eu seria um perigo à saúde nacional.

Por essas e outras, eu digo que além de tudo, o Afro Dengo, o Black Love, ou o Amor Preto é um protesto político, uma contestação social, pois carregamos dentro de nós anos e anos, gerações e gerações que precisam permanecer vivas.

Não estou em nada em meu texto praticando um racismo reverso, pregando a supremacia negra ou nada do tipo. Só quero explicar a vocês a grandeza do amor: O Amor é o Que Literalmente nos Mantém Vivos!

Como diria São Paulo, “Sem Amor eu Nada Seria” (sugestão de leitura: Coríntios 13. 1-13).

Sou fruto do amor de meus pais, que vieram do amor de meus avós, que foram consequência do amor de meus bisavós, e um dia seremos nós dois, o Mozão e eu, a raiz deste Lindo Baobá Genealógico.

Então é isso meus queridos, o amor está no ar, e seja ele branco, preto, amarelo, vermelho ou rosa de pintinhas azuis, aproveitem. Se amem, criem novos juramentos além daquele do altar, se não foi ao altar faça sua celebração abençoado pela lua, comendo pizza, fondue ou um ovo frito, mas ame! O casamento é uma oportunidade de namoro novo a cada dia se há respeito, cumplicidade e paciência entre os dois.

“Cuide de quem corre do seu lado e quem te quer bem, essa é a coisa mais pura.”
(Charlie Brown Jr.)

Érica Cristina Alexandre dos Santos, é araraquarense, casada, bacharel em Turismo e Hotelaria e organizadora de Eventos, cerimonialista. Érica também é turbanista (realiza oficinas gratuitas de turbantes para todos os públicos), professora de Técnico em Organização de Eventos e Técnico de Camareira e colunista do Comunica Araraquara. É do Amém, do Axé e do Namastê. E como diria Jorge Bem: “Abençoada por Deus e bonita por natureza”.

Contato: erica.alexandre23@gmail.com



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