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Coluna Erica Alexandre: “Qual é a sua fé?”

Confira mais uma coluna da nossa colaboradora Erica Alexandre

Foto: Michael Douglas

“Qual é a sua fé?”

Acho esta pergunta tão invasiva quanto perguntar qual sua posição sexual favorita. Acho tão profunda quanto perguntar: “qual seu sentimento favorito” ou “qual fase da lua te deixa mais inspirado?”. Tão íntima e particular, assim é a fé.

A fé é uma só, é acreditar sem ver, é enxergar apenas com o coração, sentir sem utilizar o tato e pisar no desconhecido sabendo onde vai chegar. Ela é linda!

Fé é uma bênção. E sei que dizer isso soa como um pleonasmo, mas vamos ao sentido literal da palavra bênção e da palavra fé, vamos pesquisar no dicionário, aquele livro mesmo, esquecido no canto da casa após a chegada de certo site de buscas cuja inicial é a letra G:
Bênção, s.f. Ação de benzer ou abençoar, favor divino;
Fé, s.f. Crença, confiança.

Fé é aquilo que nos move, é a coisa mais linda que existe. Imagine só você confiar, sentir, ouvir, transmitir o que seu coração quer dizer e, enquanto isso, entidades superiores a você estão a seu lado dizendo: “é isso, você está no caminho certo”.

A fé verdadeira é isso. Ela não cobra, ela pouco se importa se você é devoto de São Jorge, se é abençoado por Ganesh ou vive na paz de Buda. A fé, inclusive, te possibilita não acreditar em nenhum destes que acabo de citar. A fé pode ser em si mesmo – por que não?

Estão aí os céticos e os ateus para confirmarem. E destas pessoas podemos até tirar um grande exemplo. Eles não precisam de templos ou saber um nome, eles estão bem, acreditam em si mesmos e isso basta. E acreditar em si mesmo é a melhor forma de acreditar em Deus. Acreditar em si mesmo é a forma mais plena e sublime de professar a fé.

Porque Deus está dentro de cada um de nós. Ele pode nem se chamar Deus, se você preferir, ele pode se chamar A Deusa Mãe, Alah, Olodumaré, como você preferir, mas o sentimento é um só: gratidão.

Gratidão por vivenciar cada manhã, cada entardecer, cada noite e cada madrugada. Por acordar todos os dias, por incentivar outras pessoas e vivenciar experiências diferentes das suas, mas que são tão importantes e tão interessantes quanto as que estão em sua vida. Gratidão por aprender e ensinar.

E com certeza sobre isso posso afirmar: Jesus foi o melhor mestre que já tivemos quando o assunto é agradecer e confiar em si mesmo. Conhecemos a história deste mestre sem ir à escola, claro. Jesus não está nas escolas, ele está em casa, em cada família que ensina para seus filhos, seus netos e seus pais o que é amor, o que é caridade, ofertar e entender o outro em sua magnitude.

A fé é tão grande e tão sublime que não precisa de rótulos, ela só precisa existir dentro de nosso coração.

É ela que nos possibilita, inclusive, acreditar que depois que passarmos por tudo isso, somos até como uma planta: nascemos, crescemos, nos desenvolvemos. Às vezes damos flores, frutos e por fim morremos. É aí que a vida recomeça, em outro plano, em outro astral, em outro momento ou situação, mas recomeça. É o famoso ciclo sem fim que Mufasa (personagem de O Rei Leão) nos ensinou: o ciclo da vida.

Quando falo isso, falo de reencarnação, que em cada religião, ou melhor, em cada religação, é diferente. Para alguns, morreremos, vamos para o paraíso e somos recebidos por quarenta virgens. Para outros, quando você morre, você passa a ajudar os que ficam, como você em algum momento foi ajudado. Ainda tem gente que acredita que seja só uma pausa, um descanso enquanto aguardamos a volta do grande mestre que irá nos orientamos. Tudo isso é especial, e fé.

Fé é algo sincero e que não machuca, nem dói. Quando dói, ela se entristece e se esvazia e vira apenas uma palavra de duas letras e um acento. Porque não adianta nada com a mão direita você segurar a Bíblia e com a esquerda você dar a mão ao ‘Capiroto’.

Dou a mão ao ‘Sete Peles’ quando uso da fé para enganar, pra mentir, pra justificar meus atos políticos. Fé não é política, intolerância ou medo. Fé é caridade independente da religação que você faz com o universo. Cada um se religa de acordo com suas escolhas, com suas convicções. Cada um tem um caminho, um livre arbítrio, um karma, um destino, sei lá… essa escolha é sagrada e divina. E entre o sagrado e o divino estamos nós seres humanos, portais vivos onde a fé se manifesta.

E por falar em respeito a fé, vamos parar de colocar nossas culpas e complexos em cima dos seres de luz, principalmente de Jesus. Às vezes imagino o que ele pensa ao ver tudo isso que as pessoas fazem em nome dele.

“Deus lhe guarde, Deus lhe guie, Deus lhe abençoe,
Deus é nosso pai é nosso guia.
Tudo que se faz na terra se coloca Deus no meio,
Deus já deve estar de saco cheio.”

Pelo menos eu estaria. E se sou a imagem e semelhança de Deus, sei como ele se sente.

Não quero ser presunçosa, apenas cito o que a Bíblia diz, o que o Alcorão descreve e o que o Torá me ensina a acreditar todos os dias: que Deus está em mim e no próximo. Inclusive naquele irmão que gosto de classificar como terrorista, extremista.

E o que me difere de um terrorista quando saio de meu abençoado lar para incendiar um terreiro de candomblé?

O que me difere de um extremista quando tento pregar que qualquer religião que não tenha Jesus seja errada? O que me difere destas pessoas quando desejo mal ao próximo, quando desejo sua morte e me alegro com sua dor?

O que me faz ser diferente de um terrorista quando penso assim e em qual momento me assemelho a Cristo ou a Oxalá?

Deixo esta pergunta a vocês.

E vamos parar também de chamar Exu de Diabo, Laroyê? Amém?

Vamos entender que Exu não é o mal; segundo sua história, ele se deixa temer para afugentar quem maltrata e quem ofende o próximo, seu protegidos. Ele é poderoso, o orixá que vive mais perto dos homens, que mais se assemelha a eles. E se você tem medo dele, subliminarmente você esta dizendo: eu tenho medo do mal que habita em mim.

Vamos parar de chamar de mal tudo que não conhecemos e parar de adorar aquilo que nem deveria estar inserido na fé: dinheiro, soberba e poder (aquele poder de dominação, de tirania).

Acontece com Exu, aconteceu com Cristo. Ele não foi ouvido, foi maltratado e morto por simplesmente por pregar sua forma de amar a Deus que em nada tinha a ver com o que era praticado. E repetimos sempre este ritual, matando e crucificando sempre Cristo quando por exemplo, apontamos nosso irmão de outra religião na rua e gritamos: Está amarrado!

E não sou eu que digo isso, apenas reproduzo o que diz a fé que você mesmo prega (ou finge pregar). Amar a teu próximo como a ti mesmo, lembra?

E sobre a minha fé?

Mamãe Oxum não me deixa mentir. Sigo o conselho de minhas mães pretas, mãe Eloise na Terra e Mãe Aparecida no Céu e ouso parafrasear São Paulo quando ele diz que “Permanecem a fé, a esperança e o amor, mas dentre essas três coisas, a maior delas é o amor.” Essa é minha fé!

Érica Cristina Alexandre dos Santos, é araraquarense, casada, bacharel em Turismo e Hotelaria e organizadora de Eventos, cerimonialista. Érica também é turbanista (realiza oficinas gratuitas de turbantes para todos os públicos), professora de Técnico em Organização de Eventos e Técnico de Camareira e colunista do Comunica Araraquara. É do Amém, do Axé e do Namastê. E como diria Jorge Bem: “Abençoada por Deus e bonita por natureza”.

Contato: erica.alexandre23@gmail.com

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