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Coluna Maira Lopes: A viagem mais difícil

Confira mais uma colaboração da colunista no Comunica Araraquara

Existem viagens e viagens. Não é porque se fala viagem que se supõe que são todas iguais. O nome a gente dá pra tentar facilitar, em alguma medida, a comunicação entre um mundo que é interno e tudo aquilo que me é externo, nesse caso aqui, você que me lê.

Mas mesmo sendo as viagens todas elas diferentes entre si, quando eu assim a escrever viagem e você ler viagem, haverá também uma suposição de que eu estarei me referindo a algo que é, de alguma maneira, distante do presente, distante do aqui e do agora, como gostam de dizer por aí.

A gente usa a palavra viagem seja pra se referir ao exercício da reflexão, do sonho, do pensamento que cabe dentro da gente. Que leva a gente pra qualquer lugar desse mundo possível, e também de outros mundos possíveis, que inventamos com a ajuda da nossa imaginação.

Ou ainda, ao movimento mesmo do meu corpo que sai de Araraquara e vai parar nas cadeias montanhosas dos Andes, num arquipélago no meio do pacífico, ou nos pampas argentinos, de onde se pode ver uma linha reta no horizonte por quilômetros a fio.

Assim é! E por assim ser é que me parece legítimo, que vez ou outra eu use esse espaço para, cá com meus botões, dar uma viajada nas ideias.

Existem viagens e viagens. Tem aquelas que a gente já embarca sabendo que a possibilidade de ter que administrar alguns perrengues é grande porque saiu de casa sem saber bem o que vai acontecer, onde é que se vai dormir, com quem é que se vai encontrar. No máximo se sabe o destino. Às vezes, nem isso.

Também existem aquelas viagens que têm roteiro definido desde a saída do portão de casa. Tal pessoa irá te buscar na rodoviária. Chegando no hotel, procure por fulano que irá te entregar o briefing junto ao cronograma do evento. O café da manhã será servido das 6h às 6h30 e o carro te buscará, pontualmente, às 7h na porta do hotel.

Tem viagens que a gente vai pra encontrar pessoas. Que a gente vai na total insegurança que nos acompanha quando se está pra conhecer alguém pessoalmente pela primeira vez. Tem viagens que a gente vai com o coração apertado pra se despedir, pela última vez, de quem acabou de fazer uma viagem sem volta. Tem viagens que a gente vai pra encontrar paisagens. Pra saudar o mar. Pra sentir os cheiros e o tempo vagar. Pra estar frente a frente com a história viva de algum lugar.

Existem viagens e viagens. Algumas prazerosas, outras nem tanto. Algumas inesquecíveis, outras que a gente faz questão de esmaecer no pensamento. E tem a viagem que a gente sai em busca de se encontrar.

E ouso dizer que essa seja, talvez, a viagem mais difícil e a mais desafiadora que a gente vá fazer. Uma viagem em busca dos nossos porquês, dos nossos ‘pra quês’. Pra essa viagem pra dentro de si a gente só ganha a passagem de ida e e ouvi dizer que não há retorno, nem roteiro.

Nessa viagem a gente descobre que o caminho é definido pela forma como organizamos nossa relação com o mundo que está à nossa volta. Uma viagem na qual encontramos muitas pessoas, mas que percebemos, cedo ou tarde, que ela é, infalivelmente, solitária.

Seja nas ilhas Maldivas, no sertão da Paraíba, ou recôncavo baiano. Em Buenos Aires ou em Bueno de Andrade. Seja no Gangis, no Pão-de-Açúcar ou no Taj-Mahal. “Conhece-te a ti mesmo” ou serás ignorante em todo o resto.

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maira lopesMaira Lopes é araraquarense, professora de yoga, atleta e acredita que cultivar a reflexão nos aproxima de uma vida mais simples. Corre o mundo subindo montanhas e colecionando histórias. E porque corre muito, pensa muito, e porque pensa muito encontrou na escrita uma forma de se esvaziar pra sempre ter espaço pra viver.

Contato: maira.glopes@gmail.com

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