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Coluna Maira Lopes: Mas você viaja sozinha?

Neste espaço, ela vai falar sobre suas experiências viajando sozinha

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Fotos: Reprodução/Facebook

Desde que nasci me chamam por Maira, e lê-se assim, como se tivesse acento agudo no primeiro ‘a’, Máira.

A distância entre a grafia e a pronúncia que fazem do meu nome foi trabalho pra anos de paciência.

Assim que hoje não mais me incomoda se me chamam de Maíra, de Maiara, Mariana ou Maria. Afinal um nome, é só um nome. É só uma, dentre tantas outras formas possíveis que temos para nos identificar. Mas já que convenções às vezes facilitam a vida, escolhi essa pra poupar minha imaginação no começar dessa apresentação.

Se fosse pra manter a facilidade das convenções seria razoável que agora eu começasse a dizer que sou licenciada em Ciências Sociais pela UNESP e Mestre em Ciência Política pela UFSCar, tendo estudado as instituições participativas durante o processo de revisão do Plano Diretor da cidade onde nasci, Araraquara.

Cumpriria dizer também que embora eu tenha profundo apreço e respeito pela reflexão, pelo exercício do pensar, eu abandonei um Doutorado no primeiro semestre para me dedicar à prática do Yoga.

Uma decisão tomada no dia que eu percebi que a Universidade havia se tornado pra mim um ambiente limitante, onde os discursos e práticas estavam ensimesmados, dentro de uma grande bolha.

E mais do que isso: me dei conta de que existia uma linha de prioridade na minha vida e naquele momento ajudar as pessoas a desenvolverem atenção à sua própria respiração importava mais do que escrever pappers para serem lidos por quem já sabia o que eu iria falar.

Mas como convenções pouco me agradam, devido ao fato de achar que elas derrubam a beleza da espontaneidade, venho te falar que até eu estar sentada aqui, escrevendo esse texto, muita coisa já me espantou, muita coisa já me emocionou.

Até estar aqui, eu já aprendi a afiar bits para torno mecânico, a ler desenho técnico, fazer solda mig e tig e a arrumar avião. Já fui recenseadora do IBGE e colecionei histórias de pessoas anônimas, que me convidavam pra um café enquanto eu ia coletando seus dados. Antes daqui, eu passei muitos finais de semanas trabalhando nesses buffets que te servem em casamentos e bailes de formaturas. E por sete anos eu pude experimentar o gosto amargo e apequenado da invisibilidade social.

Já doulei uma amiga e vi um ser humano vindo ao mundo enquanto eu sentia todas as minhas células serem inundadas de ocitocina, o hormônio do amor.

A primeira vez que nadei com uma tartaruga marinha na minha vida foi às 11:11 no Hawaií. Foi lá também que eu comecei a entender a potência contida na realização de um desejo.

Já morei na Argentina e passou pela minha cabeça que seria mais fácil aprender espanhol na marra, enquanto tentava entender teoria sociológica moderna, direito internacional e política comparada.

E enquanto todas essas coisas iam acontecendo, eu corria, literalmente. Tudo foi passando e a corrida foi permanecendo. Até que correndo eu comecei a subir montanhas. Corri montanhas mineiras, corri montanhas cercadas de Atlântico e cercadas de Pacífico. Corri ao lado de condores, a 5000m de altitude – e 5km pra cima das nossas cabeças a gente percebe o quão efêmero é tudo e a noção de totalidade se impõe sobre a gente e nos faz perceber que temos o todo, mas que nunca deixaremos de ser partes.

Já tomei café quente com um venezuelano desconhecido, numa praia peruana, embaixo de uma fina garoa e de um céu tipicamente gris, enquanto falávamos das impermanências de existir. E ao nos despedirmos eu mais uma vez percebi que nenhum encontro na vida da gente é por acaso.

A essa altura pode ser que tenha passado pela sua cabeça que provavelmente eu tenho uma família que me confere algum aporte financeiro, ou alguma herança não taxada que me permite viver de rendimentos e me faz mudar de profissão, e viajar por aí. Caso contrário, como é que eu faria pra viver? Sim, porque estamos acostumados a pensar que as pessoas são o que são pela formação que têm e pelas coisas que elas possuem. Eu acabei por colecionar diferentes histórias.

Histórias de uma mulher que viaja sozinha, com pouquíssimo dinheiro porque ter uma origem humilde faz a gente perceber que uma vida simples e leve só pode ser encontrada nos absurdos das pequenas coisas e que coragem pode levar a gente pra mais longe do que supõe até os nossos próprios pensamentos.

E a partir de hoje parte dessas histórias passarão a compor a coluna “Mas você viaja sozinha?”. Essa é uma, dentre tantas outras frases, que mais escuto quando conto minhas histórias. E é por isso que eu a escolhi: pra nos provocar em temas como que provoquem nossa própria existência, nosso autoconhecimento, a ação intuitiva e, principalmente, a construção de uma vida simples. Porque se for pra acumular, que sejam histórias, memórias e aprendizados.

maira lopes

Maira Lopes é araraquarense, professora de yoga, atleta e acredita que cultivar a reflexão nos aproxima de uma vida mais simples. Corre o mundo subindo montanhas e colecionando histórias. E porque corre muito, pensa muito, e porque pensa muito encontrou na escrita uma forma de se esvaziar pra sempre ter espaço pra viver.

Contato: maira.glopes@gmail.com

 

 

 

 

 

 



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