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Coluna Michael Douglas: Arquibancada Futebol Clube

Confira mais uma colaboração do colunista Michael Douglas

Fazia apenas 17 anos desde a criação da Lei Áurea quando Francisco Carregal, o primeiro jogador negro a praticar futebol profissionalmente no Brasil, entrava em campo com a camisa do Bangu, em 1905. O vasco da Gama também foi importante pois, em 1923, conquistou o campeonato carioca tendo em seu elenco, a maioria de jogadores negros. Hoje em dia, os casos de racismo ainda acontecem, mesmo com todas as campanhas. E as punições continuam brandas. Nas arquibancadas, em determinados locais do país, é comum se ouvir gritos racistas, mas nada é feito. Em 2014, o árbitro Marcio Chagas, em uma partida no Rio Grande do Sul, ouviu insultos racistas durante o jogo e, após a partida, teve seu carro coberto por bananas. Ele deixou os campos depois do ocorrido e hoje é comentarista esportivo.

No início do século passado, o futebol era das elites, praticado por pessoas das elites e assistidos por estes. A classe trabalhadora lutava para ter seu espaço no esporte Bretão. Com a Copa de 1950 chegando, estádios maiores foram construídos e neles nasceram as gerais. A chamada “Geral” era o local onde o povão se aglomerava para assistir as partidas, era um local democrático, aberto pra todo tipo de pessoa. Os torcedores ficavam na altura do gramado e não havia lugar para sentar. Ou seja, foi dado ao povo um lugar sem conforto e sem espaço adequado para assistir aos jogos. Hoje em dia, as gerais não existem mais. Elas deram lugar a modernas arenas onde se precisa pagar muito para entrar. O povo está de novo saindo dos estádios. As torcidas organizadas são o ultimo suspiro de festa popular dentro de um estádio de futebol.

As mulheres na década de 1930 já praticavam o futebol, mas, diferente do que é hoje, as jogadoras e os jogos, eram vistos como apresentações circenses, cômicas. Eram usadas para fazer o publico rir. No início da década seguinte, alguns times amadores femininos começaram a se organizar e competir entre si nas cidades do Rio de Janeira e São Paulo. Tais organizações logo foram desfeitas e o futebol então passou a ser uma pratica proibida para as mulheres. Essa proibição durou até 1979. De lá pra ca, pouco foi o interesse da mídia e dos próprios clubes com a categoria feminina. O resultado que temos disso, são clubes e campeonatos quase amadores e falta de incentivo na formação de atletas. Apenas nos íltimos anos que a categoria vem sendo exibida na TV aberta e seus campeonatos mais vistos. Mesmo tendo jogadores como Marta, Cristiane, Formiga, e Sissi, o futebol feminino ainda esbarra no machismo e na falta de investimentos dos clubes e federações.

A luta contra a homofobia também existe no meio do futebol. Em 1977 surgiu a “Coligay”, torcida organizada do Grêmio. Em 1979 foi a vez da “Flagay”, torcida do rubro negro carioca. Ambas tiveram poucos adeptos e acabaram por desaparecer nos anos seguintes. Nos últimos anos, algumas torcidas organizadas LGBT foram criadas, como a Galo Queer (Atlético Mineiro), Gaivotas da Fiel (Corinthians) e a Palmeiras Livre, mas até onde pesquisei, apenas a organizada Palmeirense esta ativa em suas redes sociais. O fato é que pessoas LGBTs frequentam estádios, mas o ambiente homofóbico as fazem invisíveis. Torcedores do São Paulo são chamados de Bambis pelas torcidas rivais, em uma alusão a homossexualidade. Cantigos homofóbicos são ouvidos pelos estádios afora. No campeonato brasileiro de 2019, jogavam Vasco e São Paulo. Em determinado momento, a torcida Vascaína começou a entoar cantos homofóbicos contra a equipe do São Paulo e seus torcedores. O árbitro da partida paralisou o jogo e só retornou quando os cânticos pararam. Esses cantos são passíveis de penalidade para o clube, mas poucas vezes são punidos. Uma ponta de esperança vem da diretoria do Bahia, que faz campanhas contra a homofobia, machismo e racismo em suas redes sociais e nos jogos em seu estádio.

Sendo reflexo do país, o futebol acaba exibindo os problemas que estão fora das quatro linhas. O esporte teve papel de destaque durante o período militar no Brasil, onde os militares interferiam em convocações e perseguiam atletas. Quem era contrario ao regime, sofria as consequências, como é o caso do ex-atacante da seleção Reinaldo, ídolo Atleticano e opositor declarado ao regime. Foi vítima de campanha difamatória por comemorar seus gols com o punho direito em riste. Segundo ele, uma alusão aos Panteras Negras. Antes da copa de 70, a copa do Tri, o jornalista e, na ocasião, técnico João Saldanha foi demitido do comando da equipe, dando lugar a Zagallo. A demissão, segundo João e pessoas próximas, foi imposta pelo general Médici. João Saldanha era membro do Partido Comunista Brasileiro, crítico ferrenho da ditadura e amigo de Carlos Mariguella, que havia sido assassinato meses antes da copa. Já no inicio da década de 1980, a Democracia Corinthiana trazia a tona as vozes de Sócrates, Casagrande e Wladimir. Juntos com o presidente do clube, instituíram que todos no clube teriam a mesma força e que tudo ali seria decidido em conjunto. Durante o período, eles participaram de campanhas pelas diretas já, apoiaram publicamente as greves dos trabalhadores e lutaram pelo direito ao voto em São Paulo.

O que acontece em uma arquibancada de estádio de futebol é reflexo da sociedade. Ali, os problemas, os preconceitos, as lutas e as diferenças que encontramos no dia a dia, dividem espaço para acompanhar uma partida de futebol. Não é de hoje que o futebol é sinônimo de luta no Brasil, seja ela contra o racismo, a luta de classes, a homofobia ou o machismo. O que vimos nos protestos antifascistas das ultimas semanas, é uma amostra do poder de organização e conscientização que existem em arquibancadas de estádios.

Michael Douglas é fotógrafo e poeta, natural de Araraquara mas criado em Santa Lúcia. Publicou seu primeiro livro de poesias, intitulado ‘O Gauche’ (Partesã), em 2017. Fotografou o projeto do professor Tadeu Marcato, ‘POESOFIA CRÔNICA”, em 2019. Fotografa as ruas de Araraquara, documentando a cidade e escreve nas horas em que a vida pede.
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