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Coluna Michael Douglas: Eduardo Coutinho, o documentarista do mundano

O clunista comenta o trabalho do grande diretor brasileiro

Eduardo Coutinho é mais conhecido pelo filme “Cabra Marcado Para Morrer”, lançado em 1984. Sua grande obra, na verdade, teve início em 1964 mas acabou sendo interrompida no mesmo ano pelo regime militar que se instalara no Brasil, sob a desculpa de ser um filme “comunista”. Em 1984, 20 anos depois, Coutinho retorna as filmagens para enfim terminar o trabalho iniciado.

Mas toda a filmografia do diretor merece a atenção do grande público. Eduardo tinha a facilidade de poucos, em conseguir se aproximar dos personagens que entrevistava, de se tornar um amigo próximo assim que a câmera era desligada.

Seja no sertão nordestino ou em um bairro de Copacabana, Coutinho tinha a mesma missão: mostrar o brasileiro em toda sua invisibilidade. Pessoas comuns, dessas que esbarramos vez sim, vez não nas ruas, se transformavam em grandes atores de suas próprias vidas. Com a liberdade de um artista circense, Coutinho fazia parecer que a fala do entrevistado era se não a mais importante, pelo menos, a mais impactante.

O cotidiano ganhou cores, valores, sabores e atores na tela do diretor. O mundano que existe na rotina de um cidadão comum do Brasil é, ao meu ver, o assunto principal de toda a filmografia do diretor. Eduardo via com olhos de menino, maravilhas em corredores de prédios suburbanos, em vidas transitando entre o escuro de um apartamento pequeno, e a vastidão do árido sertão brasileiro.

Em “Edifício Master” (2002), Coutinho entrevistou, em suas casas, moradores de um prédio em Copacabana. Existem ali ex-jogadores de futebol, garotas de programa, ex-dançarinas, um homem que diz ter cantado com Sinatra, casais de idosos e as mais variadas formas de vida de um Brasileiro. Todos estes personagens, vivendo separados por paredes finas, de poucos metros quadrados, dividindo vidas e histórias.

Em sem filme “As Canções” (2011), o tema era a música. Vários personagens escolhidos nas ruas conversaram com o diretor sobre canções que embalaram grandes histórias de suas vidas. Eduardo queria entender qual o poder e o lugar da música em nossas vidas.

Em “O Fim e o Princípio” (2005), a ideia era desembarcar em alguma comunidade do interior paraibano e, sem pesquisa prévia, descobrir ao acaso, as histórias que ali viviam. O diretor retratou a simplicidade da vida no campo, das pessoas de pele marcada, que sustentam a história desse país nas costas.

Em “Peões” (2004), ele exibiu o momento histórico que o país vivia, com a ascensão de Lula à presidência, sob a óptica dos operários do ABC Paulista que participaram das greves de 1979. O registro de um Brasil que não existe mais. Em “Jogo de Cena” (2007), foram convidadas 23 mulheres, que contaram suas histórias de vida, suas alegrias e suas tristezas. As histórias foram interpretadas por atrizes, misturando dramaturgia e realidade.

“Últimas conversas” (2015) veio a ser o último trabalho do diretor, que faleceu meses após as filmagens. Em “Últimas Conversas”, o cineasta conversa com estudantes e jovens periféricos, tentando entender seus anseios, seus questionamentos e buscando entender o que pensam, o que falam, e o que veem esses estudantes.

Eduardo Coutinho bebeu da mais abundante fonte de matéria-prima encontrada nesse país: seu povo. Foi o povo brasileiro quem lhe deu todas as histórias, de mão beijada. Mas, se não fosse o olhar carinhoso e atencioso com essas pessoas, que o diretor tinha, nenhuma história teria sido contada. A magia, quem fazia, era Coutinho e sua câmera. Aqui, exemplifiquei seu olhar com alguns filmes de seu catálogo. Convido o leitor a se embrenhar pela mente de Coutinho, e ver com seus próprios olhos, as maravilhas que o diretor produziu.

Michael Douglas é fotógrafo e poeta, natural de Araraquara mas criado em Santa Lúcia. Publicou seu primeiro livro de poesias, intitulado ‘O Gauche’ (Partesã), em 2017. Fotografou o projeto do professor Tadeu Marcato, ‘POESOFIA CRÔNICA”, em 2019. Fotografa as ruas de Araraquara, documentando a cidade e escreve nas horas em que a vida pede.
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