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Coluna Michael Douglas: Ser artista independente

Uma importante reflexão sobre o apoio ao artista independente

Falo hoje, diretamente para você, artista independente, seja de Araraquara ou do restante do Brasil.

Fica claro, depois de algum tempo, que é a arte quem te escolhe e, por mais difíceis que sejam os caminhos, e por mais desanimadoras que sejam nossas realidades, tudo o que fazemos nos leva em direção ao fazer artístico. Pois é ali que encontramos o cerne de nossa existência, é ali que está guardada a real função do nosso existir.

A arte em si é inerente ao ser humano, ela precede nossa existência. Qualquer um pode se tornar artista, pois já nascemos assim. O que difere artista de não-artista, é o fazer, é a prática, e é a decisão que tomamos de levar esta prática a ser nossa única função na vida.

Em Araraquara existem artistas de todas as artes. Conheço atores, fotógrafos, dançarinos, pintores, escritores, compositores, todos de qualidade inquestionável. Temos em nossa terra uma grande produção literária, com pelo menos um livro lançado por autor(a) araraquarense ao ano.

Músicos talentosos, que compõem suas próprias canções, se apresentando em shows pelos bares da cidade. Temos feiras públicas, onde uma parte dos artistas visuais expõem seus trabalhos. A produção é consistente e contínua, e ano após ano surgem novos nomes das artes na cidade.

Mas, ao passo em que estes artistas se formam, se expressam, fica cada vez mais difícil viver desses fazeres. A maioria tem um emprego fixo, com salário mensal, pois viver de arte no Brasil é quase impossível. Chega a ser loucura. Mas vivemos assim e insistimos pois vale a pena. “A arte existe para que a realidade não nos destrua”, disse Nietzsche. E é essa realidade que faz vários artistas desistirem pelo caminho.

Por experiência própria, sei que o grande problema é a falta de investimento no setor artístico. Mas, nos últimos anos, com a onda conservadora e, com o reacionarismo crescente no Brasil, a opinião pública sobre a arte ficou contra nós, artistas. Voltamos para a época de censuras, boicotes, perseguições e mentiras acerca das artes.

Isso é também um projeto a longo prazo, que vem sendo posto em prática há anos, de emburrecer a população, de transformar o país em uma nação que não conhece sua própria cultura e que não entende a importância da arte em sua vida. A consequência é sentida por quem é da área e vê as oportunidades de se viver de sua arte mais escassas.

A ignorância é tamanha que, consumimos arte em todos os meios possíveis. Ela está na novela das nove, nas ondas do rádio ou do smartphone, na série da Netflix que assistimos à noite, depois de um longo dia de trabalho ou estudo. A explicação que encontro é a de que a população como um todo, não gosta de arte, mas sim de famosos, de celebridades. Marcelo D2 cantou: “celebridade é artista, artista que não faz arte”.

Mesmo os mais ignorantes, consomem arte em alguma forma, mas, aparentemente, não percebem isso. Não conseguem entender que o ator da série na Netflix tem a mesma função que o ator da peça teatral local, que custa cinco reais pra assistir, e que mesmo assim, não quis ver. Entramos também na discussão acerca do trabalho no Brasil, na educação pública sucateada, onde a cultura brasileira não é ensinada, e as aulas de educação artística são usadas para “descanso” e são largadas na grade curricular. E quem sofre com as desigualdades de ensino, emprego e lazer: as periferias, que estão cada vez mais longe dos centros, dificultando o contato do trabalhador com a arte.

E que arte é essa que falo? É a arte que é feita no quintal de casa. Na própria cidade, por conterrâneos. É o teu amigo que canta, escreve música e que você não ouve. É daquela menina que trabalha com você, que aos fins de semana, atua em uma peça de teatral e você nunca vai assistir. É aquele primo que escreve, que lança livros, mas que você nunca leu, nunca comprou. É esse artista que movimenta a cena local.

A democratização do acesso à cultura precisa começar a ser feita, pois o fascismo, que vem tomando espaço no país, se alimenta da ignorância. A cultura é, senão a primeira, uma das primeiras a sofrer com o discurso fascista. E é apoiando os artistas locais, que conseguimos bater de frente com toda essa ignorância.

E para apoiar os artistas de sua cidade é simples. Você faz isso indo à peças teatrais, aos shows, ao teatro, à feiras públicas. E mesmo que não dê para apoiar financeiramente, existe ainda o apoio em redes sociais, o boca a boca. Indica a arte do teu amigo, mostra para as pessoas. O principal apoio não é o financeiro. É o moral. É mostrar que se importa e aprecia a arte. Mesmo que aquela arte não lhe agrade. O incentivo é importante. Comprar ou não o ingresso, o livro, as obras, não nos interessa no fim das contas. O que interessa para o artista é o público. Artista precisa de público pra sobreviver.

Michael Douglas é fotógrafo e poeta, natural de Araraquara mas criado em Santa Lúcia. Publicou seu primeiro livro de poesias, intitulado ‘O Gauche’ (Partesã), em 2017. Fotografou o projeto do professor Tadeu Marcato, ‘POESOFIA CRÔNICA”, em 2019. Fotografa as ruas de Araraquara, documentando a cidade e escreve nas horas em que a vida pede.
Facebook: www.facebook.com/michaeldouglas.diasbrumati
Instagram: https://www.instagram.com/dogrrs/
Email: michaeldiasbrumati@hotmail.com

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