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Coluna Rebeca Buendia: A caminho de Ruanda

Confira mais uma colaboração da nossa colunista Rebeca Buendia

“Todos os dias, ela dava um jeito de trapacear o destino implacável a que, por sermos tutsis, estávamos condenados. Seus filhos continuavam vivos, estavam ali ao seu lado.” ( A mulher de pés descalços, p. 20)

Não é de se espantar que a gente busque conforto nas palavras. Diante do mundo, essa vastidão, diante do ano de 2020, procuramos cada um à sua maneira, alívios. Eles podem vir como um filme de sessão da tarde, uma tarde comendo bolo em boa companhia, ou – como no caso do que vou mostrar aqui – uma leitura que nos eleva.

Acabo de terminar A mulher de pés descalços, da ruandesa Scholastique Mukasonga e logo nas primeiras páginas me veio a sensação de que era preciso lavar as mãos para manusear o livro, e além das mãos também os olhos. Precisava da água para purificar o gesto – água que mais adiante veria no livro purificando uma mulher e um bebê – de tocar em palavras tão íntimas, tecidas sobre pessoas que não estão mais aqui. Senti conforme lia, que não era de qualquer jeito que poderia ler esse livro. Porque, entrar na leitura de A mulher de pés descalços é também adentrar em mundos secretos que a autora nos permitiu ver, e por isso agradeço. Em uma passagem do livro a própria Scholastique diz que há palavras e coisas que eram proibidas de se dizer em ruandês, mas (por licença poética) achava que seria perdoada porque escrevia em francês.

Mesmo pequeno, o livro me fez grifar e marcar inúmeras páginas (você também gosta de ler marcando os trechos que te impressionam?), eu desejava a leitura mas temia o fim, não queria que acabasse tanto pelo livro ser gostoso e a leitura fluida, quanto por medo da tragédia.

A mulher de pés descalços é uma homenagem da autora à sua mãe, a merecida lápide que ela e tantos ruandeses vítimas do genocídio não tiveram, e é também memória e testemunho de quem viveu uma Africa que não fazemos ideia. Em 1994, o mundo viu o maior genocídio da história acontecer, em apenas alguns dias cerca de 1 milhão de mortos, foi um massacre que tentou dizimar todos os tutsis (grupo étnico ao qual a autora pertence). Em suas outras obras Scholastique vai tratar do genocídio, mas na Mulher de pés descalços ela nos dá um retrato poético da vida de exílio e perseguição no próprio país, trinta anos antes dos acontecimentos do grande massacre. Sua mãe é a figura central desses relatos e junto a ela outras mulheres orbitam, porque a vida nas aldeias tinha nas mães e em seus desejos de fazerem os filhos sobreviverem a sua força motriz. Era tarefa de cada mãe de família o trabalho de cultivar a terra, plantando o que alimentaria a família, assim como também o cultivo de suas hortas medicinais com as ervas de cura que conheciam.

A força das mulheres é a luz do livro, desde Stefania, a mulher de pés descalços à tantas outras responsáveis pela vida e por uma teia de relações que tornava digna a existência. Não por acaso, Scholastique em uma live que assisti recentemente disse, que a reconstrução de Ruanda foi carregada pelas mulheres e hoje elas estão em todos os cargos de poder do país e assim ela nos dá a certeza no livro “a Ruanda de hoje é o país das mães- coragem”.

rebeca colunista

Foto: Divulgação

Rebeca Chibeni é mãe de dois, empreendedora na Livraria Virginia, idealizadora do clube de leitoras Nossas Vozes, professora e estudante. Mora em uma casa cheia de árvores com a família, uma gata e um cachorro. Gosta muito de ler e do olhar maravilhado que as crianças tem pelas coisas mais simples do mundo.

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