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Coluna Tadeu Marcato: Introdução à Filosofia

A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda – Voltaire

Naquele dia acordei com um gosto amargo na garganta. Sentia o coração bater descompassado. Uma certa falta de ar e um desejo latejante de reviver as sensações psicodélicas do passado.

Nos primeiros trinta minutos do dia já havia me contorcido três vezes no trono sanitário. Tem noção do que significa isso? Não havia conseguido nem tomar o café e fumar o primeiro cigarro do dia. Quem é fumante sabe o que significa o primeiro cigarro do dia.

– Papai, papai, você pode vir aqui no me quartinho? – gritou o Raoni.

– Agora não posso, filho. Papai está no banheiro.

Quando o estômago deu uma trégua, resolvi fazer o meu questionamento socrático, sempre que as memórias de entorpecimento me assombram sei que preciso encontrar um nó, algo nos dias anteriores não havia ocorrido bem, uma resposta mal dada para um aluno, uma estupidez com minha mãe, uma disputa infundada com minha companheira, enfim, sabia da necessidade de uma auto análise sobre as misérias da existência para encontrar o motivo de minha angústia.

– Papai, papai, vem, vem ver o castelo que eu e o Cauê fizemos. Vem papai.

– Já, já, Raoni, agora o papai está ocupado!

Entre um cigarro e outro, um café e mais um, os pensamentos, uma sequência deles me chamou a atenção: escola, fim de bimestre, diários de classe, fechamento de notas, pressão da gestão, procrastinação. “é isso caralho! Estou com um monte de coisa atrasada, perdido. Só pode ser esse o motivo de todos esses sintomas.”

Após descobrir o que me angustiava, entrei, tomei dez segundos de água do filtro de barro, sempre tomo água por segundos, esquesitice pessoal, já me sentia um pouco melhor, mas ainda buscava algumas respostas, como se a certeza fosse necessária, vital.

Nesse duelo travado lembrei-me de que o Raoni já havia me chamado algumas vezes e atendi, fui fazer o que deveria ter feito desde ao primeiro chamado, fui atrás dele.

– Ei, Raoni, cadê você? Onde você se enfiou, hein? Raoni, onde você está?

De repente ouvi uma voz que vinha debaixo da mesa:

– Papai, papai, e agora, papai?

Fingindo que não sabia onde ele estava continuei chamando-o:

– Cadê você, Raoni? – Eis que ele resolveu toda minha necessidade de certezas e voltou a uma questão primordial da existência humana.

– Papai, eu não sei onde eu tô! – e o Cauê emendou na sequência:

– O Ni, não sabe onde tá, eu também não sei onde ele tá, né?

Sem hesitar e sentindo todo alívio que a dúvida pode proporcionar respondi:

– Nem eu, filho! Nem eu!

Caímos na gargalhada e nos abraçamos; os três, demoradamente.

 

Foto: Divulgação

Tadeu Marcato é professor de Filosofia e atua na Secretária de Educação (SP). Desenvolve desde 2018 o projeto “Ensino de Filosofia: A poesia e a Filosofia como ferramentas para a emancipação do indivíduo com foco na prevenção à dependência química”. É poeta e escritor autor de quatro obras: Maiêutica poética (2015); Descompasso (2016); Descanso do caos (2017); I Antologia poética ALR (2019) – esta última, fruto de um trabalho realizado em sala de aula com alunos do Ensino Médio. Em 2019 colocou em prática o projeto “Poesofia crônica na prevenção” na rede de ensino municipal (Araraquara/SP).

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Email: tadeu.marcato@hotmail.com

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