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Coluna Tadeu Marcato: Marcha assombrada

Confira mais uma divertida conversa entre o professor de Araraquara e seus filhos

tadeu marcato

Foto: Michael Douglas – Projeto: Poesofia Crônica

Lá fora, o domingo se mostrava ensolarado e promissor para um rolê, só que no jardim. Fora de casa, mas dentro do muro. Aqui em casa estamos em quarentena há mais de dois meses e nessa loucura de isolamento, meus filhos acordam às 7h todos os dias. É uma tristeza não discernir domingo de outros dias. Diante desse crime infantil, eu e a Flávia, a orquídea, minha companheira, combinamos de revezar quem dormiria até mais tarde e hoje foi o meu dia de ficar na cama, de conchinha com Hipnos, o deus do sono.

Levantei-me às 10h, tomei dez segundos de água do filtro de barro, preparei um café com todo carinho, o último gole do café foi um gole de açúcar cristal, intuía que precisava adoçar minha manhã, e fui desfrutar do jardim ensolarado de mais um domingo trancafiado. Enquanto fumava um cigarro, aproveitei para ver as notícias do dia. Logo na primeira reportagem: “Apoiadores do Presidente vão às ruas contra o novo coronavírus”. Fiquei um tempo pensando em como alguém vai às ruas contra um vírus? Onde está Apolo, o deus da clareza, para me explicar tal ato de morbidade “patriótica”. Pensei em voltar para a cama, mas dois filhos, Cauê com três anos e Raoni com quatro anos, no auge da manhã, não teria como ter esse luxo extra.

– Você compra, papai?

– O que, Cauê?

– Você compra minha fantasia de zumbi?

– Você gosta de zumbi, Cauê?

– Gosto muito de zumbi né, papai? Olha, olha! – imitando um zumbi.

– Mas por que o zumbi anda assim?

– Ué, porque o zumbi é cansado, né? Ele não é vivo assim, ele é um pouco morto, né? Ele é cansado.

– Então, hoje não dá para comprar, é domingo, está tudo fechado.

– Mas depois, quando abrir, você compra, papai?

– Está bem, filho, o papai compra.

Cinco minutos depois.

– Papai, já abriu a loja do zumbi? Agora você compra?

– Não abriu não, Cauê, está tudo fechado ainda.

– Está tudo fechado por causa do coronavírus, Cauê. Vai demorar um pouco ainda, fica tranquilo, quando der a gente compra. Está bem?

– “Tá bão”, mas já abriu a loja? “Vô tomá” na cabeça verde dele com esse controle aqui, ó, “vô passa” sabão na mão e dá um murro na cara verde gosmenta do “cononavílus”. Vamos lá, papai, vamos comprar agora.

– Hoje não, Cauê, hoje a rua está cheia de cansados de verdade. Zumbis vestidos de verde e amarelo. É assustador, Cauê. É melhor a gente ficar em casa, está bem?

– “Tá bão”, papai. Eu só gosto de zumbi de “mentilinha”, né?

– Cauê, Cauê, vamos brincar de quartel? – Convidou Raoni sentindo a falta do irmão no quarto.

– “Tá bão”, Ni, eu sou o “assomblado”, tá?

– Que assombrado o que, Cauê. Eu falei para gente brincar de quartel, não de zumbi.

– Ué, então, Ni, eu sou aquele assim, ó:

– “Marcha ‘assomblado’, cabeça de papel…” – e foi em direção ao quarto com a mão esquerda em continência, batendo e arrastando os pés no chão, meio zumbi, meio assombrado.

Tadeu Marcato é professor de Filosofia e atua na Secretária de Educação (SP). Desenvolve desde 2018 o projeto “Ensino de Filosofia: A poesia e a Filosofia como ferramentas para a emancipação do indivíduo com foco na prevenção à dependência química”. É poeta e escritor autor de quatro obras: Maiêutica poética (2015); Descompasso (2016); Descanso do caos (2017); I Antologia poética ALR (2019) – esta última, fruto de um trabalho realizado em sala de aula com alunos do Ensino Médio. Em 2019 colocou em prática o projeto “Poesofia crônica na prevenção” na rede de ensino municipal (Araraquara/SP).

Facebook: Tadeu Marcato
Instagram: tadeumarcato
Fanpage: Tadeu Marcato – Poeta
Email: tadeu.marcato@hotmail.com

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