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Coluna Tadeu Marcato: O dia em que Dionísio tirou Apolo para dançar

O que será que os pequenos deuses de Araraquara aprontaram dessa vez?

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Raoni arrastou uma trena até o meu quarto e passou a chamar o irmão sistematicamente:

– Cauê, Cauê, corre aqui, corre, Cauê.

– Agora não, Ni, “tô atistindo” o desenho do sacudido. – gritou o Cauê, querendo ignorar o irmão para que houvesse uma insistência no chamado. Cauê é a contrariedade em pessoa. Avesso às regras, gosta do recheio das coisas e detesta ordens. Costumo compará-lo ao Dionísio – mutante, selvagem, passional – busca os prazeres com a mesma intensidade com a qual debocha da vida. Fala como se estivesse dentro de uma obra de arte, seu repertório gira em torno de palavras como belo, bonito, lindo, estranho, esquisito e por aí vai.

Raoni, por sua vez, sempre chegou até mim como o deus Apolo – claro, ordenado, racional, curioso – seu olhar busca o entendimento sobre as coisas, sua linguagem é epistêmica e ética. Pergunta o tempo todo, sobre tudo e faz juízo sobre o certo e o errado constantemente.

Segundo Nietzsche, essas duas forças são necessárias para a arte e para a vida. Nem sempre estão juntas, mas complementam-se em processos de conflito e reconciliação. Lembrando o filósofo pré-socrático, Heráclito de Éfeso, um é o devir do outro, um procura o outro naturalmente.

Como previsto, Raoni insistiu mais uma vez no chamado e Cauê respondeu:

– “Tá bão”, Ni. Onde é que você “tá”?

– Aqui Cauê, aqui no quarto da mamãe e do papai. Corre aqui, corre, Cauê.

Após Cauê passar por mim como um raio, coloquei uma cadeira e me sentei próximo à porta do quarto, como talvez Zeus faria para observar seus pupilos, e passei a escutar melhor o diálogo entre os deusinhos araraquarenses.

– Cauê, Cauê, encosta aqui na parede para eu medir você – e começou a medir a altura do irmão.

– Cauê, para poder pular no pula-pula (que nesse caso era a cama de casal) você tem que ter essa altura aqui, ó.– e apontou para a trena em uma altura que ultrapassava em uns dez centímetros a altura do Cauê.

– Ah, “tá bão”, já posso ir, “tá” tudo certo, senhor?

Raoni, incorporando o censor, respondeu:

– Infelizmente não vai dar. Olha só, seu tamanho não encaixou aqui, então não vai ter jeito de você brincar no pula-pula.

Com a negativa da possibilidade de se aventurar pelas molas já cansadas, foi até o guarda roupas, pegou o sapato mais alto da Flávia, voltou para a análise do censor de altura e disse:

– Agora posso, senhor? “Tá” dentro da marquinha, ó.

– Mas, mas, assim não vale. Você está enganando, Cauê. Não pode enganar.

Fiquei de longe pensando se deveria ou não interferir. Conclui que era melhor esperar mais um pouco. Confesso que estava torcendo para Dionísio convencer Apolo.

– “Mai, mai”, eu preciso brincar, né, senhor?

– Mas para você poder brincar tem que ter essa altura e não vale enganar com o sapato da mamãe.

– Só uma “veizinha”, abaixa aqui essa fita, ó, daí dá certo. “Vamo” comigo, Ni. Deixa essa fita aí no chão. “Vamo” logo antes que o papai vem.

E, assim, Dionísio tirou Apolo para dançar a música do prazer. Pularam os dois, em gargalhadas anárquicas, deixando de lado, pelo menos por um instante, a clareza moral e eu, Zeus dessa estória, dancei junto no Olimpo lúdico da relação fraternal.

Tadeu Marcato é professor de Filosofia e atua na Secretária de Educação (SP). Desenvolve desde 2018 o projeto “Ensino de Filosofia: A poesia e a Filosofia como ferramentas para a emancipação do indivíduo com foco na prevenção à dependência química”. É poeta e escritor autor de quatro obras: Maiêutica poética (2015); Descompasso (2016); Descanso do caos (2017); I Antologia poética ALR (2019) – esta última, fruto de um trabalho realizado em sala de aula com alunos do Ensino Médio. Em 2019 colocou em prática o projeto “Poesofia crônica na prevenção” na rede de ensino municipal (Araraquara/SP).

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Fanpage: Tadeu Marcato – Poeta
Email: tadeu.marcato@hotmail.com

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