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Coluna Tadeu Marcato: Um sopro de Epicuro

Confira os diálogos e as perguntas num café da manhã no jardim

Quadro de Nicolas Poussin, “A dance to the music of time” (1634-1636).

Hoje pela manhã, fizemos algo que não fazemos constantemente, mas quando fazemos é muito prazeroso, tomamos café da manhã no jardim.

Poderia ser um comercial de margarina, sabe aquele cantado e ironizado pelo Zeca Baleiro: “Já tenho um filho e um cachorro/ me sinto como num comercial de margarina”, só que no meu caso seria “já tenho dois filhos, uma companheira e um cachorro” e ainda, sem ironias, acrescentaria “me sinto como num embrião do Jardim de Epicuro”.

Epicuro (341 – 270 a. C.) foi o jardineiro da filosofia, cultivou amigos como se cultivasse flores. Enquanto Platão fundava a Academia e Aristóteles, o Liceu; esse “cara” abriu o jardim da sua casa e convidou a todos para a experiência do filosofar. Lá eram bem-vindos todos os marginalizados pela “Democracia grega”, os estrangeiros, as mulheres e os seres humanos que outrora foram escravizados, nessas ocasiões comungavam da comida, da bebida e da filosofia. Entrelaçavam suas vidas e cultivavam as amizades.

Naquela manhã, comemos, bebemos, rimos e entre uma voltinha de bicicleta, um chute na bola, um tombo, um latido do Bob Dylan estavam as perguntas. As crianças representam o primeiro estágio da filosofia, são sedentas por respostas sobre o mundo que as cerca, como os pré-socráticos. Aqui em casa sempre incentivamos a dúvida e o questionamento, até mesmo sobre nossas “ordens”. Confesso, há momentos que nos deparamos com nossa própria tirania.

Após um chute na bola, Raoni iniciou a sessão “pergunte qualquer coisa”:

– Papai, papai, como essa bola virou bola?

– Foi um trabalhador ou trabalhadora que manja fazer bolas que fez.

– Ah, mas como que ela fez para fazer isso, ó? – e apontou para os gomos, nesse caso, de borracha.

– Então, Ni, isso é borracha, é retirada de uma árvore, preparada e depois um trabalhador ou trabalhadora costura e pronto, temos uma bola.

– Ah, entendi! E a casa, esse vaso, a bicicleta, o chão?

Cauê emendou:

– Essas plantas, essa “árvre” gigantesca, essas plantinhas todas lindinhas, essa grama aqui, ó, que a gente rola e que o Dylan faz cocô, quem, quem que fez, papai?

– Calma, calma, vamos por partes. Raoni, essas coisas todas que você perguntou segue um processo parecido com a bola.

– Mas a casa não é de borracha.

– Verdade, a casa não é de borracha, é de outros materiais, mas também foi construída por trabalhadores e trabalhadoras.

– Ah, então tudo é feito por trabalhadores e trabalhadoras?

– Sim, tudo que não for da natureza, tipo, tudo que o Cauê perguntou existe por um processo natural, foi a natureza que fez ao longo dos anos. Entendeu, Cauê?

Cauê olhou para mim sem falar nada e iniciou um diálogo com o irmão, talvez estivesse cansado de tantas explicações lógicas e concretas. Na real, acho que o Cauê confia mais no irmão do que em nós.

– Ni, eu que “vô” perguntar, “tá”?

– “Tá” bom, Cauê, pode perguntar. – respondeu Raoni com sua paciência característica.

– O que é a natureza, Ni?

– Natureza? Deixa “eu” pensar um pouco. – E ficou alguns segundos sentado, virando o olho e a cabeça como se buscasse a resposta de dentro da alma e respondeu:

– A natureza é um sentimento de flor, Cauê.

– Ah, entendi. Agora você pergunta, Ni.

– “Tá” bom, Cauê, o que é a chuva?

– Deixa eu ver, calma aí, calma aí, a chuva é o corpo da água. – E fez sinal de positivo com a cabeça em frente ao irmão que tentava entender.

– Sua vez agora, Cauê.

– “Plepala” que essa vai ser “muiiiiito” difícil, “cê” vai ver, “plepala”, Ni. O que é, o que é, existe “dinossaulos”?

– Ah, dinossauros, né? Existe, sim, Cauê.

– “Uê, mai, mai”, eu nunca vi um “dinossaulo” assustador com os dentões enormes. Cadê ele, cadê?

– Você não viu porque os dinossauros só existem no tempo, Cauê. – Gargalharam juntos, entrelaçando o sangue e a amizade.

Eu me afastei um pouco, fui entrando em um longo pensamento e me lembrei de uma frase de Epicuro sobre felicidade: “Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém é jamais demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito.” Enquanto isso continuava a ouvir o diálogo, “o que é roxo, Cauê?” – “Roxo é um pouquinho de rosa” – “e cocô” – “cocô é “pra” crescer todas essas plantinhas aqui, ó, e “outaras” também, o Julião do desenho que falou. O cocô não gosta de ser chamado de inútil, lembra, Ni?”

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