Cultura

Mães de Araraquara emocionam com relatos sobre a perda de seus filhos

A perda gestacional ainda é um tabu em nossa sociedade e, por isso, falar sobre o assunto é sempre tão importante

Foto: Unsplash

Você sabia que aqui em Araraquara, o grupo Transformação ajuda muitas mães e pais a superarem a perda de seus filhos?

Criado em 2017 por iniciativa de Perla Frangioti e Cristiane Tarcinalli, o grupo é um lugar de acolhimento no momento mais difícil de tantos pais, principalmente quando as palavras aborto e luto ainda são consideradas tabu por aqui.

Por isso, resolvemos dar espaço para três mães que perderam seus filhos falarem sobre a dor e assim, poderem ajudar outras mulheres que estão passando pela mesma fase. Elas contaram com a ajuda do grupo e sabem como é importante poder falar abertamente sobre isso.

Afinal, juntas somos mais fortes, não é mesmo? Confira os relatos:

Perla Frangioti

“Tive uma gestação perfeita, mas com 36 semanas e 5 dias de gestação eu percebi que ela não estava mexendo, fui ao pronto atendimento de uma maternidade por duas vezes, fiz exames e, apesar dos exames não estarem muito bons, fui liberada para casa. Resolvi buscar, no dia seguinte, outra maternidade na cidade que estava fazendo meu pré-natal, chegando lá, Heloísa já estava em óbito. Não sei a causa da morte. A notícia, por si só, já desaba o mundo em nossa cabeça, entramos em choque! E a maneira como ela costuma ser dada piora tudo! No momento que esperamos o início de toda uma jornada, se deparar com a morte, inverte completamente o ciclo natural da vida! Não é fácil lidar com ela, porque além disso, tem toda uma sociedade que não reconhece e respeita nossa dor.

Haline Mathias

“Eu perdi a minha Sarah há 1 ano e 6 meses. Estava com 33 semanas, tinha uma gestação tranquila e fazia pilates e hidroginástica. Pretendia trabalhar mais um mês. Sou professora e, quando aconteceu, estava tomando banho pra ir pra escola. Tinha sentido umas dores na noite anterior (cólica de rim), mas passou durante a noite e acordei bem para trabalhar, era o 1º dia de aula na escola do Estado. Senti uma dor diferente, aguda, e já chamei minha mãe pra ir ao hospital local. Não tive sangramento nem perda de líquido, não sabia o que era. Não tenho pressão alta, mas devido à dor, ela subiu. Depois, me levaram para a Gota de Leite e no ultrassom confirmaram que a bebê tinha morrido, e eu tinha tido um descolamento de placenta. Estavam comigo meu namorado, sogros e meus pais. Quando olhei para a máquina de ultrassom, já vi que a bebê não se mexia… Foi um misto de dor, frustração… Pedi muito pra Deus pra não ser verdade, que me levasse ao invés dela. Estava tudo preparado para sua chegada e, com uma família grande e várias amigas com filhos, não pensava que poderia perder minha bebê do nada, sem motivo aparente. Recebi apoio de todos ao meu redor e conheci o Grupo Transformação através da psicóloga da Gota. Fui em março ao 1º encontro. Tudo que podia fazer para me reerguer, eu fiz: me apeguei à religião (Espírita), psiquiatra, faço acupuntura… O grupo sempre me ajudou muito porque nos sentimos identificadas… a dor de cada uma é a nossa. Quatro dias depois, voltei pra casa e tive a notícia de que não conseguiria a licença do Estado, só a do município (6 meses de licença gestante), porque não há lei que garanta a licença gestante para mães de natimortos. Isso aconteceu com algumas mães do grupo e puxado pela Perla, estamos tentando mudar essa triste realidade.”

Débora Liberato

“Minha primeira perda gestacional ocorreu em 2018. Meu filho Samir estava na 26º semana de gestação. Depois, tive um aborto espontâneo em 2019, minha pequena Liz, e um retido no começo de 2020, nossa Gal. Durante o ultrassom morfológico, tivemos a notícia de que ele estava com problemas no desenvolvimento e que o cordão umbilical não estava funcionando perfeitamente, que ele entraria em sofrimento fetal e que morreria nos próximos dias. Após quase um mês, houve o óbito fetal. Penso ainda, que um fator que me marcou profundamente em tudo isso é perceber como nós mulheres não temos domínio das escolhas feitas sobre o meu corpo – saber que meu filho morreria e que mesmo assim, tinha que esperar foi um tormento por perceber que não tinha liberdade de escolha. Neste momento, meu marido descobriu o grupo transformação e me chamou para participar de uma reunião. Quando fomos, o Samir ainda estava dentro de mim e foi muito importante me reconhecer na história de outras mulheres e de receber o apoio delas. A história da perda gestacional está ligada a uma ancestralidade feminina, que muitas vezes busca-se apagar. Falar dos nossos filhos que morreram é um direito e uma honra. Meus três filhos – Samir, Liz e Gal – são minha força e minha inspiração! A minha maior dica para mulheres é procurar um grupo de ajuda perto de vocês! A nossa sociedade ainda é muito despreparada para lidar com o luto, principalmente com o luto gestacional ou neonatal, mas também gostaria de dar uma dica para os pais. Falem dos seus sentimentos com suas companheiras. Às vezes, a força que esperamos de vocês é justamente o reconhecimento da dor em comum.”



Comentários

Your email address will not be published. Required fields are marked *