Cultura

Mães solo de Araraquara: histórias e batalhas de 6 mulheres da cidade

Essa é a homenagem do Comunica Araraquara para o Dia das Mães

mães solo de araraquara evi alves

Foto: Memories Studio

“Por que você não fechou as pernas”?. “Com tanto filho assim, você não vai arrumar nenhum homem”. “Se não queria ficar grávida, por que não se cuidou?”. Essas são apenas três das milhares de frases machistas e agressivas que mães solo de Araraquara e de todo o país já ouviram.

Os insultos são acompanhados da solidão, dos problemas financeiros, do cansaço e de muitas outras muitas dificuldades que se enfrenta ao criar um filho sozinha, muitas vezes sem nem o apoio do pai da criança. E essa realidade é cada vez mais comum no Brasil.

De acordo com dados de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 57 milhões de lares brasileiros são chefiados por mulheres, o que representa 40% das famílias do país.

Nossa equipe conversou com algumas mães solo de Araraquara que contaram para nós o quão difícil é criar um filho sozinha e ainda receber tanto preconceito da sociedade. Que tanto neste Dia das Mães quanto nos outros 364 dias do ano, elas – e todas as outras mães – possam receber o amor, o carinho, o respeito e o apoio merecidos.

Confira os depoimentos:

mães solo de Araraquara

Foto: Arquivo pessoal

Ana Beatriz Rinaldi Rego

“Eu tinha 31 anos quando fiquei grávida e foi um susto muito grande, porque eu não tinha um relacionamento com o genitor, além de ter acabado de ficar desempregada. Eu enfrentei a gravidez sozinha; tive um parto prematuro com 27 semanas de gestação. O genitor soube do nascimento após dois dias. Nunca a visitou na UTI neonatal e apenas a visitou quando ela saiu da UTI, por umas três vezes num período de 14 dias internada na maternidade. Não assumiu a paternidade de imediato e foi preciso recorrer à Justiça para o reconhecimento da paternidade. E eu senti muito preconceito desde a gravidez. Escutei que não seria boa mãe e as pessoas até hoje ‘olham torto’ quando me vêem em alguma saída para diversão sem ela. Muita gente questiona a minha responsabilidade como mãe, coisa que com certeza não aconteceria se eu fosse casada. Acredito que os maiores desafios são conciliar trabalho, serviço doméstico, atenção à filha e todas as responsabilidades da maternidade, desde educação e escola a questões de saúde, por exemplo. Para as futuras mães, o recado que eu tenho para dar é: sejam fortes, mas nem sempre (é normal e até salutar desabar de vez em quando). Cuidem de vocês mesmas, pois só assim poderemos ter saúde mental pra cuidar dos filhos. Não se sintam culpadas em vez ou outra por saírem sozinhas, isso é essencial. Aceitem a ajuda da rede de apoio, por mínima que seja, mas nunca ‘pitacos’ na maneira de educar suas crianças.

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Foto: Memories Studio

Evilin Alves

“Minha primeira gravidez foi aos 18 e hoje tenho 2 filhos: um menino de 14 e uma menina de 1 ano e 2 meses. Em ambas gestações foi um susto tremendo, pois, na verdade, eu nunca tive o desejo de ser mãe. E, por incrível que pareça, nas duas eu utilizava o anticoncepcional. Era pra ser mesmo. Na primeira gravidez, eu não tive apoio, pois o mesmo já não está mais entre nós há um tempo. Isso me deu bastante força pra seguir em frente. A segunda, apesar de alguns percalços, não tenho problema. Já enfrentei diversos preconceitos por ser mãe solo, principalmente, julgamentos. Frases do tipo: ‘Ninguém nunca vai assumir uma mulher com dois filhos, pois ela não se dá o respeito’. Absurdos desse tipo. Antes eu me abalava. Hoje em dia, entra por um ouvido e sai pelo outro. O maior desafio em ser mãe solo é manter-se com a sanidade mental intacta, para que eu consiga mostrar aos meus filhos que estarei sempre ao lado deles, independente do que aconteça, pois não é fácil. A sociedade ainda é muito cruel. Se já senti solidão em criar filho sozinha? Muito! Mas, é um obstáculo vencido diariamente. Ser mãe é um eterno abrir mão de mim mesmo em prol deles. É amar incondicionalmente. Ser mãe se resume à entrega! Entregar-se por inteiro pelo bem dos filhos.”


mães solo de araraquara

Foto: Arquivo pessoal

Josefa de Jesus

“Sou de Sergipe e engravidei da minha primeira filha aos 18 anos; hoje tenho três filhos. Eu era jovem e logo bateu um medo, pois tinha outros planos, mas entendi que não era meus planos e sim os de Deus. O tempo foi passando, cada dia ficando pior meu casamento e cinco anos depois veio a segunda filha. Um ano após o nascimento da segunda filha houve a separação. Aí assumi minhas filhas e parti pra luta. Cinco anos depois conheci meu segundo marido, com quem tive meu terceiro filho. Mas, quando meu caçula tinha 4 anos e 5 meses, meu marido faleceu e continuei sozinha. Sim, sofri muito preconceito pois não sou araraquarense e na época não conseguia entender a origem do preconceito, se era minha origem ou por ser mãe solo. O maior desafio é fazer o papel de pai e mãe ao mesmo tempo durante a educação do filho. Nunca senti solidão ao criar meus filhos, minha vida sempre foi muito voltada ao meu compromisso de pai e mãe e não tive tempo de sentir solidão, tive medo de falhar, mas não solidão. Ser mãe foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, é tudo de bom. Saber que meus filhos estão bem é meu melhor presente. Pelos meus filhos, eu faço qualquer coisa e faria tudo de novo. Jamais deixaria meus filhos para trás em nenhum momento. Sou muito feliz e amo meus filhos!”

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Foto: Arquivo pessoal

Diana Cabral

“Quando vi que estava grávida na primeira gestação, eu levei um choque porque tentei engravidar por um ano e meio e não consegui. Quando desisti e comecei a tomar anticoncepcional certinho, engravidei das gêmeas. Eu senti muito medo e uma felicidade absurda. Já na segunda gravidez eu só chorava porque não era um momento bom pra uma gravidez. Na primeira gestação o pai das meninas foi presente em todo momento, sempre participou de tudo, mas já na segunda fazia duas semanas que eu tinha pegado minhas coisas e minhas filhas e voltado pra casa da minha mãe quando descobri que já estava gravida de 4 meses e meio. Ele foi a uma ultrassom e acompanhou somente o parto. Por ser mães solo já ouvi coisas do tipo: ‘pra que tanto filho, não sabe fechar as pernas?’, ‘nossa, tão nova e cheia de filhos!’, ‘Vish, agora ninguém vai te assumir cheia de filhos assim…’, ‘vê se não engravida de novo, hein?’, ‘nossa, é tudo do mesmo pai?’, ‘já sabia que o pai no prestava e engravidou de novo porque quis!’, ‘deveria ter escolhido melhor o pai das suas filhas!’. Mas dar conta de tudo sozinha é o maior desafio. Sou a única responsável por tudo: trabalho fora, cuido das crianças e da casa, sem contar que a atenção pra elas tem quer dobrada pra não sentirem a falta do pai em nenhum momento. Tenho minha mãe que me ajuda muito também, gracas a Deus, mais a maior parte faço tudo sozinha. O recado que eu dou para as próximas mães é que ser mãe é difícil, é cansativo, mas vale a pena. Nossos filhos vão crescer, vão se formar e se tornar pessoas incríveis porque nós não desistimos das nossas responsabilidades e não tem nada melhor que isso.”


mães solo de Araraquara monise

Foto: Arquivo pessoal

Monise Gallo

Eu fiquei grávida aos 18 e depois, aos 20 novamente. Eu tinha acabado de completar 18 anos e namorava há apenas 6 meses, então senti muito medo, insegurança, pensava no que as pessoas iriam dizer, me preocupava em como iria criar e educar um ser que dependeria de mim para ser um bom ser humano. Já a segunda gravidez foi planejada sim, pois eu nunca quis ter um filho só, então quando ele fez um ano e meio, eu engravidei novamente. Eu sempre tive total apoio do pai dos meus filhos, desde que recebi a notícia que estava grávida. Fomos casados por 10 anos, mas a parceria pai-mãe é para sempre, e conseguimos conciliar muito bem tudo isso. Mesmo assim, hoje estou solteira e já ouvi que muitos comentários maldosos, como “ninguém leva a sério uma mãe solteira”, que eu não deveria largar meus filhos para sair, entre outras bobagens que entram por um ouvido e saem por outro. Tenho muita tranquilidade em saber que faço o melhor que posso como mãe, porém sou mulher e uma coisa não anula a outra. A solidão surgiu na minha vida logo que me separei, e meus filhos passaram a ficar alguns dias com o pai… eu me via sozinha, o silêncio da casa era ensurdecedor, sofri e chorei muito, até redescobrir prazeres pessoais que eu tinha deixado de fazer por não ter tempo para mim, e depois que preenchi meu tempo sozinha com coisas que me fazem bem. Desde então, a solidão se transformou em solitude, que hoje em dia é necessária para mim, é o meu momento. O melhor presente de Dia das Mães é estar com eles, de pijama em casa, cozinhando juntos, almoçando juntos, com sorvete de sobremesa, “brigarmos” pra ver quem vai lavar a louça, assistir a um filme à tarde, e aproveitar cada segundo das coisas mais simples da vida, enquanto ainda os tenho comigo, pois não sei por quanto tempo eles estarão aqui, “debaixo da minha asa”, e quando voarem, ficarão apenas essas boas lembranças.


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Foto: Arquivo pessoal

Ana Alves

“Foi um susto tremendo, até mesmo porque era casada com o pai do meu filho e nem estávamos mais juntos. Senti desespero e tristeza, pois fui casada e evitei ao máximo uma gravidez indesejada. Não por nada, mas porque gostava da minha liberdade e não me sentia preparada para ser mãe no mundo complicada em que vivemos. Por isso a minha tristeza. Engraçado que hoje não me orgulho em dizer que não queria ser mãe porque foi a melhor coisa que me aconteceu. Bom, ao saber da gravidez, ele veio até mim e propôs para ficarmos juntos e criarmos o nosso filho. Mas, a nossa convivência embaixo do mesmo teto foi um desastre. Então, veio o nascimento e necessidade de resolvermos a nossa vida. Conversamos e decidimos cada um seguir o seu caminho. Daí, ele parou de dar atenção ao filho e disse que eu o afastei da criança. Infelizmente, ele se mostrou uma pessoa difícil e não nos ajuda em nada. Hoje, o fato de não ter um apoio, não ter com quem desabafar ou não ter a quem pedir um conselho na hora de aplicar um castigo é o maior desafio. Muitas vezes, precisei pedir forças a Deus. Ser mãe pra mim, significa transformação. Pois, a maternidade me transformou em uma pessoa melhor, com outros princípios, valores e prioridades. O maior presente para o Dia das Mães seria o pai do meu filho se aproximar dele, passar a conviver com ele e fazer saber que ele tem um pai que o ama e se preocupa com ele, para que eu não fique sem saber o que dizer toda vez que ele pergunta pelo pai. Para as próximas mães, minha dica é amar seu filho com todo o seu coração e não deixar o fato de ser mãe solo reflita na criança. E por fim, lembre-se que os filhos são só crianças, então, aproveite ao máximo cada momento juntos e seja a mãe mais feliz do mundo todos os dias. Feliz Dia das Mães!”



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