Cultura

Psicóloga deixa Araraquara e faz viagem de moto por 3 meses rumo à Argentina!

Apaixonada pelas duas rodas, Amably Monari também é uma das integrantes do projeto “Elas Pilotam”

Foto: Arquivo pessoal

Apaixonada pelas duas rodas, Amably Monari conta a experiência que viveu quase três meses sem residência fixa

Que tal largar tudo o que você tem e partir em uma jornada de auto-conhecimento e muita adrenalina? Foi exatamente isso que o a psicóloga Amably Monari, que trabalhava aqui e, Araraquara, fez no ano passado.

Ela decidiu largar a clínica que tinha aqui na Morada do Sol e viajou para Argentina, em busca de uma nova experiência. Mas ela não fez isso sozinha – ao seu lado, estava sempre sua fiel escudeira, a Freeda, uma Harley Davidson.

Apaixonada pelas duas rodas, Amably integra hoje o Elas Pilotam, um projeto nacional que visa dar mais voz à mulheres e lutar contra o machismo que todas nós enfrentamos.

“O Elas Pilotam surgiu com a necessidade de fazer com que as mulheres se sentissem parte de um evento duas rodas, de uma forma confortável, seguras, e que sentissem que o evento foi feito e pensado para elas. O objetivo foi quebrar a ideia de evento duas rodas ser voltado ao publico masculino. Temos muitas mulheres nesse universo como publico consumidor, com opiniões e decisões próprias. O movimento surgiu com o foco no mundo duas rodas, mas somos um movimento apartidário que vem para incluir, informar, conectar e transformar mulheres de diversos mundos e estilos”, afirma Bruna Wladyka, idealizadora do Elas Pilotam. Para conhecer mais, acesse @elaspilotam

Nesta entrevista com Amably, ela ainda conta sobre a importância das duas rodas na sua vida e mais detalhes de sua jornada! Confira!

Quando começou a sua paixão com a moto? Já desde cedo era fascinada com a moto?

Não tenho uma data, ou um marco para dizer “foi aqui que passei a gostar de moto”, porém, na estrada, dentro do carro quando passava um comboio de motos, imaginava o quanto seria fascinante viver “livre” como eles.
No entanto, não tinha CNH de moto e em 2017 retornei a morar em Araraquara. Eu já não era mais a mesma, queria um meio de locomoção que combinasse com minha personalidade, e foi quando decidi mudar minha habilitação para carro e moto. Não passei de primeira e fiquei muito nervosa, porque minha primeira moto já estava na minha garagem. Uma Vblade 250 prata Sundown.
Nossa primeira viagem foi um caos, mais de 700 km com retrovisor quebrado chuva, mas foi o momento sem retorno! (risos).
Porém, só percebi o quanto estava apaixonada por moto quando fui pesquisar apartamento para comprar e saí de la decidida que realizaria um sonho de ter uma Harley Davidson. O sonho se realizou duas semanas depois, em pleno carnaval de 2019, quando peguei uma carona e fui para Rio Claro, buscar minha Freeda (Frida Khalo e Freedom).
Voltamos Freeda e eu, por 200km. Eu me sentia em foguete, nunca tinha pilotado uma moto de 883 cilindradas.
Então, só consigo dizer que foi uma paixão se transformando em amor e que hoje, Freeda é minha condição de liberdade percorrendo mundo afora.

elas pilotam

Foto: Arquivo pessoal

Você já sofreu algum tipo de machismo por pilotar uma moto?

Somos ensinadas há tanto tempo de que a relevar pequenas e grandes violência de gênero que ao ler sua pergunta, no impulso diria “NÃO”. Mas é mentira, há machismo na própria cultura, e não seria diferente no motociclismo.
Todas as vezes que tiro o capacete e veem uma mulher, o espanto é sempre o mesmo. Quando perguntam se a moto é do meu marido, se meu pai quem pagou, se eu peguei emprestada, quando perguntam como eu pago-paguei, quando dizem que viajar sozinha com uma moto dessa é perigoso, quando perguntam se “só” como psicóloga eu teria uma moto assim (aqui abre um leque imenso de possibilidades do que a pessoa quer dizer), quando dizem que mulher de moto é “sapatão” como se fosse um insulto. Eu respondo que sou sapatão de moto sim, e é um elogio, apesar de compreender que as pessoas usam como insulto, porém estamos falando de feminilidade. Quando insinuam que mulher de moto teria que se tornar-se um homem, ela perde sua feminilidade. Ser mulher é performar a feminilidade que desejar seja usando salto alto ou botina.
Abriu uma caixa de pandora! (risos).

elas pilotam

Foto: Arquivo pessoal

Já pensou em deixar a moto de lado, por conta de algum acidente ou algum outro problema?

Até o momento não sofri nenhum acidente, tento ser o mais cuidadosa por mim e pelas outras pessoas.
Gosto da vida fluida: eu planejo, porém, gosto do ser flexível e sentir o que há para viver. Por enquanto, não vejo a vida sem moto, quem sabe um dia um motorhome e a Freeda na traseira!

elas pilotam

Foto: Arquivo pessoal

Pilotar moto é a sua grande paixão? O que sente quando está dirigindo?

Minha paixão pela moto é vinculada à liberdade de locomoção na vida que a Freeda me proporciona e as conexões com as pessoas do mundo 2 rodas. Parecem vida loka, mas são pessoas que de algum modo, encontraram uma maneira de viver a vida que transcende o padrão. Há irmandade no gesto que fazemos quando nos encontramos nas estradas, entre os segundos.
Quando estou pilotando a Freeda, eu não preciso ser ninguém, costumo dizer que Freeda é minha metade. Sinto que nos transformamos em uma única coisa, metade carne outra ferro. Nesse momento sou tudo e nada no mesmo instante; sinto a liberdade de percorrer o mundo e a mim mesma. Dentro do capacete tudo acontece, é um transportar-se.
Claro que sou sempre um corpo político em uma moto, mas Freeda também me trouxe a condição de nunca mais ser silenciada.

elas pilotam

Foto: Arquivo pessoal

Qual a maior distância que você já dirigiu?

Em julho de 2019 decidi encerrar minha clínica em Araraquara e passei a atender somente online e vim para Argentina.
Parti para o que chamei de “Jornada Psico On The Road”. Foram 82 dias sem casa, rumo a Rosario, Santa Fé, na Argentina. Escolhi o trajeto mais longo que é pela serra do sul do Brasil, meu único planejamento foi: parava dois dias da semana para atender pacientes online e nos outros dia, eu seguia três destinos: descer a a Serra do Rastro da Serpente, participar do BMS Motrocycle 2019 (meu primeiro evento de moto), descer a Serra do Rio do Rastro e o restante eu ia sentindo para onde eu queria ir e o que ia fazer. As pessoas foram me acolhendo em suas casas, pessoas que nunca me viram, que eu nunca vi, mas pela irmandade no mundo 2 rodas, me apoiavam e me acolhiam.
Muitas histórias! (risos). Ao mesmo tempo que foi uma das grandes aventuras da minha vida, foi um momento de conexão comigo mesma.
Serei eternamente grata a todes.
Foram 82 dias sem casa, fazendo de Freeda meu lar.
Atualmente estou planejando minha volta ao mundo com intervenções humanitárias como psicóloga nômade motociclista. Inicialmente será por toda América Latina, agora estou na fase de planejamento com equipamentos de viagem e customizando a Freeda para viajar sem retorno. O projeto está neste link: https://amablymonari.com.br/troika-gazeta-psi/

elas pilotam

Foto: Arquivo pessoal

E por que decidiu participar do portal “Elas Pilotam“?

Conheci o movimento algumas semanas antes do BMS MOTORCYCLE 2019, encontrei o insta #ElasPilotam e durante o evento, pude conhecer mais sobre a proposta. Aí eu conheci a Bruna, que super me apoiou na viagem que estava fazendo da Jornada Psico On The Road.
Mantivemos o contato e fui compreendendo cada vez mais a proposta e como tudo foi se configurando durante o percurso do Elas. Foi quando a Bruna e a Gabi Hoover, direto dos EUA, me convidaram formalmente para fazer parte do time Elas Pilotam, juntamente com mulheres que admiro muito.
Todas juntas construindo um espaço onde nós mulheres possamos nos sentir parte. Eu chamo isso de ato revolucionário, o que casou com a busca que eu estava de encontrar coletivos femininos que fizessem sentido para minha vida.

Qual o recado que você pode dar para outras mulheres que têm vontade de pilotar motos, mas têm medo?

Fomos ensinadas que os sentimentos não nobres socialmente são ruins, como raiva, nojo, rancor, tristeza, inclusive o medo, quando na verdade por sermos humanos, sentiremos todas as emoções, tudo juntinho.
Não há problema algum em sentirmos medo, e, tudo bem.O que nos gera sofrimento é quando não sabemos o que fazer com essa sensação, essa emoção, pois parece que não irá embora.

elas pilotam

Foto: Arquivo pessoal

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