Cultura

Filme de travesti de Araraquara é selecionado para festival em Angola e premiado pelo Canal Brasil!

O curta “PERIFERICU” também foi um dos vencedores da Mostra de Cinema de Tiradentes

vita pereira perifericu

Fotos: Divulgação

“Vita Pereira é um dos grandes nomes da revelação do cinema nacional em 2020.”

A frase é do crítico de cinema Filippo Pitanga, que assistiu ao curta PERIFERICU e ficou encantado com o talento da atriz araraquarense Vita Pereira.

O filme foi o vencedor do prêmio Canal Brasil da 23º edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, realizado na última semana na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais.

Além disso, PERIFERICU foi selecionado para participar do Fesc-Kianda, que acontece em Angola.

Premiado, o filme contou com a direção Vita Pereira, Nay Mendl, Rosa Caldeira e Stheffany Fernanda.

E claro que a nossa equipe, orgulhosa do talento de Vita, foi atrás da atriz para saber mais detalhes destas novidades!

Confira a entrevista:

Vita, você participou da produção e atuação do PERIFERICU? Como foi?

O PERIFERICU é um filme dirigido por quatro pessoas e isso é muito importante, pois vemos no cinema hegemônico apenas um diretor e geralmente um homem branco cis, tomando os rumos do filme. Queríamos quebrar essa essa lógica, construindo um cinema comunitário e coletivo. Somos frutos da coletividade e da residência da quebrada, por isso, nos juntamos. Na periferia existe uma pluralidade de corpas, e queríamos que nosso filme não apagasse essa diversidade que existe na quebrada. Por isso varias pessoas pensando no processo.

Todas as pessoas envolvidas no trabalho são de Araraquara ou só você?

A equipe do filme conta com mais de 40 pessoas. Eu sou a única do interior, aqui de Araraquara. Temos pessoas de diversos lugares das periferias de São Paulo e outros estados.

O filme foi gravado o ano passado?

O filme foi gravado no primeiro semestre de 2019, com basicamente umas sete diárias. Foi gravado na Ilha do Borere, no Grajaú e no centro de São Paulo.

vita pereira perifericu

Foto: Reprodução/Almanaque Virtual

E qual é o enredo do PERIFERICU?

Denise e Luz cresceram no meio de canções de rap, louvores de igreja e passos de vogue. Da ponte para cá, é preciso aprender que o primeiro princípio para poder acessar a cidade é estar viva. O filme fala sobre as várias questões encontradas nas periferias. É um filme que tensiona esses deslocamento do centro x margens da cidade. Da vida que muitas lgbtqia+ periféricas têm de atravessar a cidade ou para trabalhar ou para celebrar o fervo.

E ele será exibido na Mostra de Filmes Brasileiros em Angola, certo? Como foi receber a notícia?

O Fesc-Kianda é um Festival de Curta-Metragens da Kianda, que acontece em Luanda, Angola. Após uma exibição do nosso filme em São Paulo, um professor chamou uma das diretoras do nosso filme para conversar. Disse que era curador de um festival de curtas em Angola e estava muito interessado de levar nosso filme para lá. Ficamos muito felizes, pois fomos convidadas por um curador para exibir nosso filme no festival. Não produzimos esse filme apenas para rodar os festivais do Brasil e mundo, mas sobretudo, para exibirmos em diversas periferias desse mundo. Queremos mostrar que o cinema periférico, por mais que tenham todos esses ataques a direitos historicamente conquistados, nos dizem que continuaremos aqui, produzindo contra narrativas que destruam todos os pilares que sustentam esse cis-tema.

Foto: Reprodução/Almanaque Virtual

E vocês foram premiados em Tiradentes, Minas Gerais?

Nessa última semana participamos da 23º edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, um espaço muito importante para a nossa trajetória no cinema. A mostra teve mais de 100 filmes exibidos dos dia 24 de janeiro ao dia 01 de fevereiro. No nosso filme PERIFERICU, que é curta-metragem, há uma pluralidades de corpas, e que tem a direção assinada por pessoas trans, negras e periféricas. Dentro da mostra, nosso filme foi exibido na Mostra Foco, concorrendo com outros dez curtas. Ganhamos o prêmio do Canal Brasil que é muito importante. O cinema deve ter um compromisso para com as corpas trans: chega de produções que hiperssexualizam nossos corpos, objetificam e ridicularizam. Agora somos nós que escrevemos a nossa própria história com a câmera na mão. Estou muito feliz e realmente sem palavras por tudo isso. Dedico esse prêmio a todas as pessoas trans que tiverem suas vidas interrompidas e não puderam sonhar. É um prêmio também para todas as monas, minas, manos, viadinhas, caminhoneiras que ocupam e resistem nas diversas periferias do Brasil. Nós somos potência! Um cinema travesti, comunitário, negre e periférico é urgente para disputar e destruir as narrativas hegemônicas. Dentro da Mostra de Tiradentes fomo premiadas com o Melhor Curta Mostra Foco- Juri Canal Brasil, – Prêmio Canal Brasil de Curtas no valor de R$ 15.000,00 (quinze mil reais) oferecido ao melhor curta da Mostra Foco eleito pelo júri do Canal Brasil.

Ao mesmo tempo em que fui premiada, sofri transfobia enquanto estava na cidade. Isso é um reflexo da ausência de pessoas trans nesses espaços, tanto a ausência das nossas corpas quanto a ausência de debates sobre nossa existência. No debate em que realizamos no dia após a exibição do documentário, falei sobre a importância de termos filmes produzidos por pessoas trans e periféricas. O debate vai sair no podcast da Mostra de Cinema de Tiradentes. Antes da premiação saiu uma crítica do nosso filme escrita pelo Filippo Pitanga, na qual me descreveu como um “Furação em Cena”. Disse também que: “Vita Pereira é um dos grandes nomes da revelação do cinema nacional em 2020.” Nós estamos chegando em lugares que eles duvidaram. Estamos aqui e agora vai ser difícil nos engolir!!!!!!!!!!!!!!!!

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